A Guerra dos Emus: quando a Austrália perdeu para pássaros
Em novembro de 1932, o governo da Austrália fez algo que soa como piada, mas está muito bem documentado em jornais de época, atas do Parlamento e relatórios militares: enviou soldados do exército, armados com metralhadoras Lewis e milhares de cartuchos, para combater uma população de emus que estava destruindo plantações no interior da Austrália Ocidental. A imprensa batizou o episódio de “Emu War” — a Guerra dos Emus. Quando a operação foi encerrada, semanas depois, o major responsável comparou as aves a tanques de guerra e a guerreiros zulus, e a ave nacional da Austrália havia, de forma bastante literal, vencido o exército de um país da Commonwealth britânica.
Uma terra prometida que não cumpriu as promessas
A história começa não com os emus, mas com os homens que foram colocados em rota de colisão com eles. Depois da Primeira Guerra Mundial, o governo australiano distribuiu terras na Austrália Ocidental a milhares de ex-combatentes, num programa de assentamento de “soldados-colonos”. Muitas dessas terras ficavam em áreas agrícolas marginais, de solo pobre e chuvas irregulares — o tipo de lugar em que só se sobrevive lavrando com muito esforço e alguma sorte.
Quando a Grande Depressão chegou à Austrália em 1929, esses fazendeiros foram incentivados pelo governo a expandir suas plantações de trigo, com a promessa de subsídios que, na prática, nunca chegaram como prometido. Os preços do trigo continuaram caindo ano após ano, empurrando famílias inteiras para perto da falência em terras que já eram difíceis de cultivar. Em outubro de 1932, a situação já estava tensa: os fazendeiros se preparavam para colher a safra da temporada e, ao mesmo tempo, ameaçavam se recusar a entregar o grão em protesto contra o descaso do governo com os subsídios prometidos e nunca pagos integralmente.
Esse ressentimento com o governo federal não era só uma questão econômica pontual. A Austrália Ocidental já vinha nutrindo um sentimento separatista havia anos, alimentado pela sensação de que o estado, rico em recursos e agricultura, financiava políticas do leste do país sem receber atenção equivalente em troca. Esse clima de desconfiança ajuda a explicar por que Canberra levou tão a sério um pedido de ajuda que, à primeira vista, soava quase cômico: emprestar metralhadoras de guerra para matar pássaros.
Vinte mil invasores emplumados
Foi nesse cenário já explosivo que cerca de 20 mil emus apareceram. A espécie migra regularmente depois da temporada de reprodução, deslocando-se do interior em direção ao litoral. Com o desmatamento das terras para agricultura e a instalação de fontes de água extras para o gado, as fazendas da região de Campion, no distrito de Chandler e Walgoolan, tornaram-se um habitat perfeito para as aves — e elas foram para lá aos milhares.
Os emus não apenas devoravam e pisoteavam as plantações de trigo: ao atravessar as cercas das propriedades, abriam brechas grandes o bastante para que coelhos — já uma praga agrícola crônica na Austrália — invadissem as lavouras também. Para os fazendeiros, era o golpe final numa temporada que já vinha sendo desastrosa.
Vale lembrar do que estamos falando: o emu é a segunda maior ave do planeta em altura, atrás apenas do avestruz, podendo chegar a quase 2 metros e pesar mais de 40 quilos. Não voa, mas compensa isso correndo a velocidades que passam de 50 km/h em disparadas curtas, e é capaz de percorrer longas distâncias em busca de água e alimento. Para um bando de milhares desses animais, uma plantação de trigo recém-irrigada era, literalmente, um bufê a céu aberto — e nada nas cercas convencionais da época havia sido projetado para impedir a entrada de uma ave daquele tamanho.
O pedido de metralhadoras
Uma delegação de ex-soldados foi enviada a Perth para se reunir com o ministro da Defesa, Sir George Pearce. Como muitos deles haviam servido na Primeira Guerra Mundial, sabiam bem o que uma metralhadora era capaz de fazer contra alvos em massa — e pediram exatamente isso: o empréstimo de metralhadoras do exército para abater os emus.
Pearce concordou rapidamente, com algumas condições: as armas só poderiam ser operadas por militares, o governo da Austrália Ocidental pagaria pelo transporte das tropas, e os fazendeiros forneceriam comida, alojamento e a munição. O ministro chegou a justificar a decisão dizendo que as aves seriam um bom “treino de tiro ao alvo” para os soldados. Historiadores também apontam outro motivo, menos declarado: o governo federal via a operação como uma forma de mostrar apoio aos fazendeiros da Austrália Ocidental justamente quando um movimento separatista começava a ganhar força no estado (a região votaria, um ano depois, por larga maioria, para se separar da federação australiana — um referendo que nunca foi implementado). Para garantir a repercussão, um cinegrafista da Movietone News foi escalado para acompanhar a operação e filmar tudo.
Primeiro combate: emboscadas que não emboscaram
A operação ficou sob o comando do major Gwynydd Purves Wynne-Aubrey Meredith, da 7ª Bateria Pesada da Artilharia Real Australiana, acompanhado pelo sargento S. McMurray e pelo artilheiro J. O’Halloran. Os três levavam duas metralhadoras Lewis e 10 mil cartuchos de munição. Uma chuva forte atrasou o início da campanha, espalhando os bandos de emus por uma área maior — só em 2 de novembro de 1932 as tropas finalmente entraram em ação.
Nesse primeiro dia, em Campion, cerca de 50 emus foram avistados fora do alcance das metralhadoras. Fazendeiros locais tentaram conduzir as aves para uma emboscada, mas os emus se dividiram em pequenos grupos e passaram a correr em ziguezague, dificultando qualquer mira. A primeira rajada de tiros errou o alvo pela distância; uma segunda rajada matou “algumas” aves, e mais tarde, num bando menor, “talvez uma dúzia” foi abatida. Não era exatamente o massacre que se esperava.
O confronto mais dramático — e mais citado até hoje — aconteceu dois dias depois, em 4 de novembro. Meredith montou uma emboscada perto de uma represa local, e mais de mil emus foram avistados se aproximando da posição. Dessa vez os soldados esperaram pacientemente até as aves ficarem bem próximas antes de abrir fogo. A metralhadora emperrou depois de matar apenas 12 emus. O resto do bando se dispersou antes que um segundo tiro pudesse ser disparado, e nenhum outro emu foi avistado naquele dia.
Nos dias seguintes, Meredith tentou se deslocar para o sul, onde as aves eram descritas como “razoavelmente dóceis”, mas o sucesso continuou limitado. Observadores do exército notaram, intrigados, que cada bando parecia ter um “líder” — uma ave grande, de penas escuras, com cerca de 1,80 metro de altura, que ficava de vigia enquanto o resto se alimentava e avisava os companheiros à aproximação dos soldados. Em determinado momento, Meredith mandou montar uma das metralhadoras na carroceria de um caminhão — ideia que fracassou porque o veículo não conseguia acompanhar a velocidade dos emus e o terreno irregular impedia qualquer mira estável.
Retirada, ridículo público e o retorno ao campo de batalha
Em 8 de novembro, seis dias após o primeiro confronto, 2.500 cartuchos já haviam sido disparados. O número de aves mortas até ali é incerto: uma estimativa fala em apenas 50, outras entre 200 e 500 (o número mais alto, segundo os próprios fazendeiros). No relatório oficial, Meredith registrou que seus homens não haviam sofrido nenhuma baixa — “exceto pela dignidade”, como resumiu depois um historiador.
No mesmo dia, a Câmara dos Representantes da Austrália debateu a operação, em meio a uma cobertura de imprensa cada vez mais hostil, que incluía acusações de que “apenas uns poucos” emus haviam realmente morrido. Pearce ordenou a retirada dos soldados e das armas. Ao comentar o fracasso, Meredith comparou os emus a guerreiros zulus e a tanques de guerra: “Se tivéssemos uma divisão militar com a mesma capacidade de aguentar tiros que essas aves, ela enfrentaria qualquer exército do mundo… Elas encaram metralhadoras com a invulnerabilidade de tanques.” O ornitólogo australiano Dominic Serventy resumiu o episódio de forma ainda mais cortante: “o comando dos emus evidentemente havia ordenado táticas de guerrilha, e seu exército inconstante logo se dividiu em inúmeras unidades pequenas que tornaram o uso do equipamento militar antieconômico. Uma força terrestre cabisbaixa se retirou da área de combate depois de cerca de um mês.”
Só que os emus continuaram destruindo plantações depois da retirada, e os fazendeiros voltaram a pedir ajuda, agora com o apoio explícito do premiê da Austrália Ocidental, James Mitchell. Um relatório do comandante da base também alegava que 300 emus já haviam sido mortos na operação inicial — número bem mais otimista do que o divulgado publicamente. Pressionado, o ministro da Defesa autorizou o retorno das tropas em 12 de novembro. Meredith foi enviado a campo outra vez, ainda em 13 de novembro, agora com resultados um pouco melhores: cerca de 40 emus mortos nos dois primeiros dias, e uma média de aproximadamente 100 por semana até o início de dezembro.
O placar final — e quem realmente venceu
A operação foi encerrada em definitivo em 10 de dezembro de 1932. No relatório final, Meredith reivindicou 986 emus abatidos, usando 9.860 cartuchos — uma taxa de exatamente 10 tiros por ave morta. Ele também afirmou que outros 2.500 emus feridos teriam morrido depois, em decorrência dos ferimentos, embora historiadores considerem esse número específico pouco confiável e provavelmente inflado. De qualquer forma, o resultado ficou muito aquém do que se esperava contra uma população estimada em 20 mil aves.
O episódio ganhou repercussão internacional: a notícia chegou ao Reino Unido, onde grupos conservacionistas protestaram contra o que chamaram de “extermínio de uma ave rara” (os emus não eram, na verdade, ameaçados de extinção). Os próprios ornitólogos australianos Dominic Serventy e Hubert Whittell descreveram a operação, mais tarde, como “uma tentativa de destruição em massa das aves”.
Nos anos seguintes, os fazendeiros voltaram a pedir apoio militar em 1934, 1943 e 1948 — e todas as vezes foram recusados pelo governo, que preferiu manter um sistema de recompensas em dinheiro por emu abatido, criado ainda em 1923. Esse sistema, bem mais simples e barato que uma operação militar, se mostrou muito mais eficaz: somente no primeiro semestre de 1934, 57.034 recompensas foram pagas. A partir da década de 1930, cercas de exclusão especialmente projetadas para barrar emus, dingos e coelhos passaram a ser o método preferido para proteger as plantações — solução bem menos cinematográfica que metralhadoras, mas que efetivamente funcionou. Décadas depois, um artigo do jornal Coolgardie Miner, publicado em 1935, chegou a defender que o uso das metralhadoras havia sido “criticado em muitos setores”, mas que o método “se mostrou eficaz e salvou o que restava do trigo” — uma tentativa tardia de reabilitar a reputação da operação, embora a maior parte da historiografia trate o episódio como o fracasso militar caricato que ele foi.
De vergonha nacional a piada favorita da internet
Por décadas, a Guerra dos Emus foi tratada principalmente como uma nota de rodapé embaraçosa na história militar australiana — o tipo de episódio que oficiais preferiam não comentar. Isso mudou completamente na era da internet. A partir dos anos 2010, o confronto entre soldados armados de metralhadoras e um bando de aves correndo em ziguezague virou meme recorrente em fóruns e redes sociais, muitas vezes citado como o exemplo definitivo de “humanos perdendo para a natureza”. A ironia de uma potência militar sendo derrotada por um animal que nem sequer voa deu ao episódio uma sobrevida cultural que a maioria das batalhas de verdade jamais alcança.
Essa popularidade tardia acabou chegando a Hollywood. Em 2023, um longa-metragem de comédia e ação chamado “The Emu War” estreou no festival australiano Monster Fest. No mesmo período, outro projeto de cinema sobre o tema começou a ser desenvolvido com um time de peso: roteiro assinado por John Cleese (do grupo britânico Monty Python), ao lado de Rob Schneider, Jim Jefferies e Camilla Cleese — prova de que, quase um século depois, a humilhação militar australiana ainda rende boas risadas, mesmo fora do país onde aconteceu.
Curiosidades rápidas
- A operação usou duas metralhadoras Lewis — a mesma arma amplamente empregada pelas forças britânicas e australianas na Primeira Guerra Mundial.
- Um cinegrafista da Movietone News acompanhou parte da campanha para registrá-la em filme, o que sugere que o governo via a operação também como uma oportunidade de propaganda.
- Em 1950, quase duas décadas depois, um parlamentar voltou a levantar o problema dos emus no Parlamento federal — e o governo liberou 500 mil cartuchos de munição para uso dos próprios fazendeiros, sem envolver o exército.
- O emu é um dos dois animais que ilustram o brasão de armas nacional da Austrália, ao lado do canguru — justamente o bicho que, na prática, derrotou o Exército australiano em 1932.
- Segundo o relatório oficial, a taxa de sucesso final foi de exatamente 10 cartuchos disparados para cada emu confirmadamente morto — um indicador e tanto de como a “guerra” foi, na prática, uma operação de baixíssima eficiência militar.
Gustavo Santos
Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.