A epidemia de riso que fechou 14 escolas na Tanganica em 1962
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A epidemia de riso que fechou 14 escolas na Tanganica em 1962

14 de julho, 2026 Gustavo Santos

Na manhã de 30 de janeiro de 1962, três alunas de um internato missionário para meninas na vila de Kashasha, no oeste da Tanganica (atual Tanzânia), começaram a rir sem conseguir parar. Não havia piada, não havia motivo aparente — apenas um riso que não cedia. Ninguém naquele momento imaginava que aquele episódio se transformaria em uma das epidemias mais estranhas já documentadas: um surto de riso incontrolável que se espalharia por vilarejos inteiros, fecharia 14 escolas e afetaria cerca de mil pessoas ao longo de 18 meses.

O riso que não tinha explicação em Kashasha

O internato de Kashasha tinha 159 alunas, com idades entre 12 e 18 anos. O que começou com três garotas se espalhou rapidamente pelos corredores da escola: em poucas semanas, 95 das 159 estudantes apresentavam os mesmos sintomas. As crises variavam muito em duração — de poucas horas até 16 dias seguidos, com uma média de cerca de uma semana por aluna. Curiosamente, a equipe de professoras não foi afetada em nenhum momento, mas relatou que as estudantes ficaram incapazes de se concentrar nas aulas.

Mais que risada: os outros sintomas

Apesar do nome que ficou famoso, o quadro clínico ia muito além do riso. As alunas apresentavam crises alternadas de choro, inquietação, dores pelo corpo, desmaios, problemas respiratórios e até erupções na pele. Para os médicos que investigaram o caso depois, esse conjunto de sintomas era típico de um fenômeno chamado doença psicogênica em massa (mass psychogenic illness, ou MPI) — quando o estresse coletivo de um grupo se manifesta fisicamente e se propaga por contágio social, sem qualquer causa infecciosa ou tóxica por trás.

A escola fecha, mas o problema não

Com a situação insustentável, o internato foi forçado a fechar em 18 de março de 1962, quarenta e oito dias depois do primeiro episódio. Quando reabriu, em 21 de maio, um segundo surto atingiu mais 57 alunas, obrigando a escola a fechar de novo no fim de junho. O problema era que fechar a escola não resolvia nada — pelo contrário, mandou o “surto” para casa junto com as meninas.

De uma escola para vilarejos inteiros

Várias das estudantes de Kashasha vinham de Nshamba, um vilarejo a cerca de 90 km a oeste de Bukoba, no distrito de Muleba. Entre abril e maio de 1962, cerca de 217 pessoas — a maioria jovens — tiveram crises de riso em Nshamba ao longo de 34 dias. A situação ficou tão séria que a escola de Kashasha chegou a ser processada judicialmente, acusada de ter permitido que alunas e familiares espalhassem o fenômeno pela região. Em junho, o surto atingiu também a escola secundária feminina de Ramashenye, afetando 48 garotas, além da vila de Kanyangereka e outras comunidades próximas. Ao todo, todas as áreas atingidas ficavam num raio de cerca de 160 km em torno de Bukoba, às margens do Lago Vitória.

Uma nação recém-independente e sob pressão

O momento histórico não é um detalhe qualquer. A Tanganica havia conquistado sua independência do Reino Unido em 9 de dezembro de 1961 — menos de dois meses antes do início do surto. Pesquisadores como o linguista Christian Hempelmann, da Texas A&M University, defendem que o episódio foi um sintoma coletivo de estresse: as escolas missionárias, geridas com disciplina rígida ao estilo britânico, impunham expectativas cada vez maiores sobre alunas que, ao mesmo tempo, viviam a instabilidade cultural de um país recém-independente. Segundo Hempelmann, esse tipo de doença psicogênica costuma surgir “como último recurso para pessoas de baixo status social — uma forma de dizer que algo está errado, sem ter outro canal para se expressar”.

Duas leituras acadêmicas para o mesmo fenômeno

O sociólogo Robert Bartholomew e o psiquiatra Simon Wessely, que estudaram o caso décadas depois, propuseram que o surto foi uma espécie de “reação de conversão” cultural: o choque entre o conservadorismo tradicional das famílias e as novas ideias e exigências impostas pelas escolas missionárias. Já o médico queniano Benjamin H. Kagwa, que documentou o fenômeno na época para o East African Medical Journal, notou que os sintomas tendiam a seguir fronteiras étnicas e tribais — reforçando a tese de que se tratava de uma reação cultural coletiva ao rápido processo de mudança social que a região vivia.

Não foi um caso isolado na região do Lago Vitória

O episódio de Kashasha foi, na verdade, o primeiro de uma sequência de três epidemias comportamentais registradas nos anos seguintes ao redor do Lago Vitória: depois da “epidemia do riso” na Tanganica (1962), vieram dois surtos de “mania de correr” em Kigezi (julho de 1963) e Mbale (novembro de 1963), ambos em Uganda, com sintomas de agitação, dores no peito e episódios de fuga descontrolada. Para os pesquisadores, o padrão sugere que comunidades sob forte pressão social, cultural ou política podem desenvolver formas parecidas de resposta coletiva ao estresse, ainda que os sintomas específicos variem.

Curiosidades rápidas

  • O primeiro estudo científico sobre o caso foi publicado em 1963 no Central African Journal of Medicine, por A.M. Rankin e P.A.P. Philip, sob o título “An epidemic of laughing in the Bukoba district of Tanganyika”.
  • Ao todo, 14 escolas foram fechadas temporariamente por causa do surto.
  • O fenômeno inteiro durou cerca de 18 meses, entre o início em janeiro de 1962 e seu desaparecimento gradual.
  • Estima-se que cerca de mil pessoas tenham sido afetadas direta ou indiretamente pelas crises.
  • Apesar do nome “epidemia do riso”, pesquisadores como Hempelmann insistem que o caso não prova que o riso seja contagioso — o riso foi apenas um entre vários sintomas de um quadro maior de sofrimento psicológico coletivo.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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