A guerra que durou 38 minutos: o bombardeio de Zanzibar em 1896
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A guerra que durou 38 minutos: o bombardeio de Zanzibar em 1896

27 de agosto, 2026 Gustavo Santos

Às nove horas e duas minutos da manhã de 27 de agosto de 1896, cinco navios de guerra britânicos abriram fogo simultaneamente contra um palácio de madeira em Zanzibar, na costa da África Oriental. Trinta e oito minutos depois, o que restava do edifício ardia em chamas, cerca de 500 pessoas estavam mortas ou feridas, o iate real do sultão jazia afundado no porto e um homem que havia se autoproclamado soberano do país fugia pelos fundos do palácio rumo ao consulado alemão mais próximo. Foi, segundo o Guinness World Records, a guerra mais curta já registrada na história. E, como muitas coisas “curtas” no império britânico do século 19, ela nasceu de uma sucessão disputada, um protetorado que não tolerava desobediência e um telegrama de Londres autorizando a força.

Uma morte conveniente demais

Zanzibar, hoje parte da Tanzânia, era no final do século 19 um sultanato próspero e estratégico, controlado havia décadas por uma dinastia de origem omanense e, na prática, cada vez mais subordinado à Grã-Bretanha. Em 1893 assumiu o trono Hamad bin Thuwaini, um sultão de relações próximas e cordiais com os britânicos — exatamente o tipo de governante que Londres queria ver no poder num ponto tão importante das rotas comerciais do Índico.

Na manhã de 25 de agosto de 1896, dois dias antes do bombardeio, Hamad morreu subitamente dentro do próprio palácio, por volta das 11h40, horário local. A causa oficial nunca foi esclarecida de forma satisfatória, e a suspeita de envenenamento correu solta entre diplomatas e cronistas da época — inclusive porque o principal beneficiado pela morte já estava, literalmente, dentro do palácio horas depois.

Esse beneficiado era Khalid bin Barghash, sobrinho de Hamad, então com 29 anos. Sem esperar qualquer processo de sucessão formal, Khalid ocupou o palácio e se declarou sultão no mesmo dia da morte do tio. O problema é que, desde um acordo assinado em 14 de junho de 1890, qualquer novo sultão de Zanzibar precisava da aprovação prévia do cônsul britânico antes de assumir o trono. Khalid não pediu permissão a ninguém — e Londres já tinha outro candidato em mente, Hamoud bin Muhammed, considerado mais maleável aos interesses britânicos.

Um protetorado que só aceitava um tipo de sultão

Para entender por que a Grã-Bretanha reagiu com tamanha rapidez e violência a uma disputa de sucessão local, é preciso lembrar como Zanzibar havia chegado a essa posição. O Reino Unido reconhecera a soberania do sultanato em 1886, mas o equilíbrio de poder na região mudou definitivamente com o Tratado Helgoland-Zanzibar de 1890, no qual a Alemanha cedeu suas pretensões sobre o arquipélago em troca de território na Europa (a ilha de Heligoland, no Mar do Norte). Ainda em 1890, o próprio sultão Ali declarou Zanzibar um protetorado britânico.

Na prática, isso significava que o sultão reinava, mas não mandava: as grandes decisões — políticas, militares, financeiras — passavam pelo crivo do representante da Coroa britânica na ilha, o cônsul-geral Basil Cave, e pelo general Lloyd Mathews, que comandava as tropas locais leais aos britânicos. Um sultão que tomasse posse sem autorização não era apenas um incômodo protocolar: era um desafio direto à estrutura de controle que Londres havia construído ao longo de uma década.

Khalid, porém, não recuou. Ao contrário, começou a reunir apoio dentro do palácio e na cidade. Ao longo do dia 26 de agosto, suas forças cresceram para cerca de 2.800 pessoas, a maioria civis armados às pressas, reforçados por cerca de 700 soldados askaris (tropas africanas treinadas em moldes europeus) sob o comando de um oficial chamado capitão Saleh. Também havia, dentro do complexo do palácio, entre servos, escravas e membros do harém, mais de 3 mil pessoas.

O ultimato das nove da manhã

Enquanto Khalid reforçava suas posições, a Marinha Real também se mobilizava. Na tarde de 26 de agosto, às 14h, chegou ao porto de Zanzibar o cruzador HMS St George, nau capitânia sob o comando do contra-almirante Harry Rawson, recém-designado para resolver a crise. Já estava no local, desde as 10h daquela manhã, o HMS Racoon, e somavam-se a eles o cruzador protegido HMS Philomel e as canhoneiras HMS Thrush e HMS Sparrow — ao todo, cinco embarcações de guerra ancoradas diante do palácio.

O cônsul Cave enviou a Khalid um ultimato claro: ele deveria arriar a bandeira do palácio e deixar o local até as nove horas da manhã do dia 27 de agosto, ou enfrentaria o bombardeio das forças navais britânicas. Khalid, cercado por seus próprios apoiadores e talvez subestimando a disposição britânica de realmente atirar, respondeu que não acreditava que os britânicos abririam fogo contra ele. Foi um erro de cálculo que lhe custaria o trono em menos de uma hora.

Na manhã seguinte, o roteiro se desenrolou com precisão quase burocrática. Às 8h, Khalid tentou abrir uma negociação de última hora. Às 8h30, reiterou publicamente que recusava o ultimato. Às 8h55, o almirante Rawson sinalizou aos navios para se prepararem para entrar em ação. Às 9h em ponto, exatamente no limite fixado pelo ultimato, o general Mathews deu a ordem final para iniciar o bombardeio — mas o primeiro disparo só saiu dois minutos depois.

Trinta e oito minutos de fogo naval

Às 9h02, os canhões do Racoon, do Thrush e do Sparrow dispararam ao mesmo tempo contra o palácio. O primeiro tiro do Thrush já foi certeiro: desmontou um dos poucos canhões de 12 libras que os defensores tinham posicionado nas muralhas, um presente diplomático que o próprio Kaiser Wilhelm II da Alemanha havia dado ao sultanato anos antes — uma ironia e tanto, já que seria justamente ao consulado alemão que o líder derrotado recorreria horas depois.

Os defensores de Khalid não estavam totalmente desarmados: além do canhão alemão, contavam com metralhadoras Maxim, uma metralhadora Gatling que fora presente da própria rainha Vitória em época mais amistosa das relações anglo-zanzibaris, e até um canhão de bronze do século 17, relíquia guardada havia gerações. Nada disso resistiu por muito tempo à artilharia naval moderna dos cruzadores britânicos.

Por volta das 9h05, o iate real do sultanato, chamado Glasgow — um navio armado com sete canhões de nove libras e uma metralhadora Gatling, tripulado por marinheiros leais a Khalid — chegou a disparar contra o HMS St George. A resposta britânica foi imediata e o Glasgow afundou em águas rasas do porto poucos minutos depois, junto com duas pequenas lanchas a vapor também destruídas pelo fogo do Thrush. Os mastros do antigo iate real ficaram visíveis acima da linha d’água por mais de uma década, um monumento involuntário à brevidade daquele confronto, até serem finalmente desmontados em 1912.

Em terra, cerca de 150 marinheiros e fuzileiros navais desembarcados do Philomel e do Thrush, sob o comando do capitão O’Callaghan, se posicionaram para apoiar o avanço, enquanto uma força de 900 askaris zanzibaris leais aos britânicos — liderada pelo tenente Arthur Raikes, do regimento de Wiltshire, e equipada com duas metralhadoras Maxim e um canhão de nove libras — ocupava posições próximas à alfândega da cidade. Ao todo, ao longo dos 38 minutos de combate, os britânicos dispararam cerca de 500 projéteis de artilharia, 4.100 tiros de metralhadora e mil tiros de fuzil contra o complexo do palácio.

Um palácio em chamas e uma bandeira derrubada

O edifício-alvo do bombardeio, conhecido como Beit al-Hukm, era em grande parte construído em madeira, o que o tornava extremamente vulnerável ao fogo incendiário da artilharia naval. Por volta das 9h35, os registros de bordo do HMS St George anotam que a bandeira do palácio finalmente foi derrubada e que Khalid já havia fugido do local — embora os registros de outros navios variem ligeiramente quanto ao horário exato do fim dos disparos, entre 9h35 e 9h45, dependendo do navio que os anotou. A duração mais citada pelos historiadores e pelo próprio Guinness World Records é de 38 minutos, embora algumas fontes falem em até 40 ou 45.

O saldo humano foi desproporcional à brevidade do confronto: cerca de 500 zanzibaris mortos ou feridos, a maioria vítima não dos impactos diretos dos projéteis, mas do incêndio que consumiu rapidamente a estrutura de madeira lotada de defensores, servos e membros da corte. Do lado britânico, o único ferido registrado foi um subtenente a bordo do Thrush, atingido mas recuperado. Nos bairros comerciais próximos, cerca de 20 moradores da área conhecida como bairro indiano também morreram, vítimas de saques e da confusão generalizada que tomou a cidade enquanto o palácio ardia.

Curiosamente, o imponente edifício conhecido como “Casa das Maravilhas” (Beit al-Ajaib), vizinho ao palácio bombardeado, sobreviveu quase intacto ao ataque. Anos depois, tornou-se sede da administração colonial britânica em Zanzibar e ganhou, em 1897, uma torre de relógio que substituiu o antigo farol destruído no bombardeio — um símbolo curioso de como o tempo, já naquela época, parecia correr contra quem desafiava o império.

A fuga para o consulado alemão

Enquanto o palácio ainda queimava, Khalid bin Barghash, o capitão Saleh e cerca de 40 seguidores escaparam pelos fundos do complexo e correram para o consulado da Alemanha, a poucas centenas de metros dali. Ali foram recebidos e protegidos por uma guarda de dez marinheiros e fuzileiros navais alemães. A Grã-Bretanha exigiu a extradição imediata do ex-sultão autoproclamado, mas a Alemanha recusou, alegando que Khalid era, tecnicamente, um refugiado político e não um criminoso comum passível de entrega.

O impasse diplomático se arrastou por semanas, até que, em 2 de outubro de 1896, às dez horas da manhã, o navio de guerra alemão SMS Seeadler retirou Khalid do consulado e o levou diretamente para a África Oriental Alemã (atual Tanzânia continental), sem que ele jamais voltasse a pisar em solo zanzibari livre naquele período. Khalid viveria como exilado protegido pelos alemães durante quase duas décadas, até ser finalmente capturado pelos britânicos em 1916, em meio à Primeira Guerra Mundial e à campanha militar na África Oriental. Foi então exilado para as ilhas Seychelles e depois para Santa Helena, retornando à região apenas nos últimos anos de vida — morreu em Mombasa, no atual Quênia, em 1927.

No mesmo dia do bombardeio, ainda à tarde, Hamoud bin Muhammed — o candidato favorito de Londres desde o início da crise — foi instalado como novo sultão, essencialmente como um governante títere que cumpriria à risca as orientações britânicas. Os apoiadores de Khalid foram obrigados a pagar uma indenização de 300 mil rúpias para cobrir os custos do bombardeio e reconstruir parte do que fora destruído. Meses depois, sob pressão britânica, Hamoud assinou um decreto abolindo formalmente a escravidão em Zanzibar — embora, na prática, apenas 17.293 dos cerca de 60 mil escravos estimados na ilha em 1891 tenham conseguido a liberdade efetiva na década seguinte, um lembrete de que declarações formais de abolição nem sempre se traduziam em mudanças rápidas na vida real das pessoas escravizadas.

Uma guerra pequena que virou lição de direito internacional

O respaldo legal para toda a operação vinha de um único telegrama enviado por Lord Salisbury, então primeiro-ministro e secretário de Relações Exteriores britânico, autorizando o cônsul Cave e o almirante Rawson a “adotar quaisquer medidas” necessárias, mas apenas se tivessem certeza absoluta de sucesso — um lembrete de que, para o império britânico do fim do século 19, a força militar contra um pequeno sultanato africano era tratada quase como rotina administrativa, desde que o resultado fosse garantido de antemão. Não houve declaração formal de guerra, não houve negociação prolongada, e a “guerra” só recebeu esse nome décadas depois, quando historiadores e o próprio Guinness World Records precisaram classificar o episódio de alguma forma.

A imprensa britânica da época tratou o episódio com uma mistura de orgulho imperial e curiosidade quase cômica: o semanário ilustrado Illustrated London News publicou gravuras da esquadra bombardeando o palácio, retratando a cena como mais uma demonstração eficiente do poderio naval de Sua Majestade do que como um conflito armado propriamente dito. Para os zanzibaris, porém, os efeitos foram concretos e duradouros: a autonomia que restava ao sultanato praticamente desapareceu, e o cargo de sultão se tornou, dali em diante, uma posição cerimonial mantida sob estrita supervisão britânica até a independência do país, em 1963.

Curiosidades rápidas

  • O Guinness World Records reconhece oficialmente a Guerra Anglo-Zanzibar como o conflito bélico mais curto da história registrada, com duração de 38 minutos.
  • Um dos canhões usados pelos defensores do palácio havia sido presente do próprio Kaiser Wilhelm II da Alemanha — país para onde o líder derrotado fugiria horas depois.
  • O iate real “Glasgow”, afundado pelos britânicos no porto, ficou com os mastros visíveis acima da água por 16 anos, até ser desmontado em 1912.
  • Ao longo do combate, a Marinha Real disparou cerca de 500 projéteis de artilharia, 4.100 tiros de metralhadora e mil tiros de fuzil contra o palácio.
  • Khalid bin Barghash só foi capturado pelos britânicos vinte anos depois, em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, e morreu exilado em Mombasa em 1927.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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