Revolta da Chibata: a vitória que virou massacre na Ilha das Cobras
Novidades

Revolta da Chibata: a vitória que virou massacre na Ilha das Cobras

5 de agosto, 2026 Gustavo Santos

Na noite de 22 de novembro de 1910, o Rio de Janeiro foi sacudido por tiros de canhão vindos da baía de Guanabara. Não era um ataque estrangeiro nem uma revolução política das que o Brasil já tinha visto algumas naquela República ainda jovem. Eram os próprios marinheiros da Marinha brasileira que haviam tomado os encouraçados mais modernos e caros do país — os recém-comprados Minas Gerais e São Paulo, orgulho tecnológico da esquadra — e apontado os canhões para a capital federal. O estopim havia sido um homem só: o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, açoitado 250 vezes até desmaiar por um crime que, hoje, mal renderia uma advertência. O que veio depois é uma das histórias mais dramáticas e menos contadas da história republicana brasileira — uma revolta vencida em quatro dias e depois apagada a sangue, cal virgem e esquecimento.

A chibata que sobrou da escravidão

Para entender por que um simples castigo corporal foi capaz de colocar dois encouraçados de guerra na mira da capital do país, é preciso voltar alguns anos. No início do século 20, o Brasil vivia a euforia da chamada “política do café com leite” e queria ser visto como potência regional. Uma Marinha forte era parte central dessa vitrine, e o governo investiu pesado na compra de encouraçados do tipo dreadnought — os mais avançados navios de guerra da época, tecnologia que só um punhado de países possuía. O Minas Gerais e o São Paulo, entregues ao Brasil em 1910, faziam do país uma das poucas potências navais dessa nova geração, à frente até de nações europeias.

O problema é que, enquanto os navios eram de última geração, as relações de trabalho a bordo continuavam praticamente as mesmas do Império escravista. A tripulação era majoritariamente formada por homens negros e mestiços, muitos recrutados à força ou atraídos ainda crianças para as Escolas de Aprendizes-Marinheiros, uma espécie de porta de entrada compulsória para meninos pobres. Os oficiais, quase todos brancos e de famílias abastadas, mantinham sobre essa tropa um regime disciplinar que incluía castigos físicos — entre eles a chibata, um chicote de couro trançado usado para açoitar publicamente quem desobedecesse ordens ou cometesse faltas consideradas graves. A prática já havia sido abolida na maior parte do mundo naval e era proibida, desde 1889, para o restante da sociedade brasileira livre. Na Marinha, sobrevivia intacta, 22 anos depois da abolição da escravatura.

Marcelino e as 250 chibatadas

O estopim tem nome, sobrenome e um número: 250. Em novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes foi condenado a apanhar de chibata por ter agredido um superior — uma falta que, pelo próprio regulamento da época, previa no máximo 25 chibatadas. Marcelino recebeu dez vezes isso, açoitado diante de toda a tripulação do encouraçado Minas Gerais até desmaiar, com o corpo em carne viva. A cena, testemunhada por centenas de marinheiros que já viviam sob tensão crescente havia meses, funcionou como gota d’água.

Entre os que assistiram estava João Cândido Felisberto, marinheiro gaúcho nascido em 24 de junho de 1880 em Encruzilhada do Sul, filho de escravizados, que havia entrado ainda jovem — em 1895, aos 15 anos — para a Escola de Aprendizes-Marinheiros de Porto Alegre e seguido carreira na Marinha, sendo promovido a marinheiro de primeira classe em 1900 e a contramestre em 1903. Era uma das poucas posições de liderança acessíveis a um homem negro dentro da hierarquia naval, mas ainda assim uma posição subalterna, distante de qualquer poder de decisão real sobre as condições de trabalho a bordo. Articulado, respeitado pelos colegas e com experiência suficiente para planejar uma ação coordenada entre várias embarcações ancoradas na mesma baía, Cândido se tornou a liderança natural do movimento que já vinha sendo arquitetado havia semanas — segundo relatos posteriores, em reuniões clandestinas realizadas nos porões dos próprios navios — por marinheiros cansados dos castigos físicos, da comida racionada e de baixa qualidade, dos salários ínfimos e de contratos de alistamento que, na prática, funcionavam como servidão de longuíssimo prazo.

O detalhe que tornava tudo ainda mais explosivo é que a maior parte desses marinheiros havia entrado na Marinha ainda crianças ou adolescentes, muitas vezes vindos de famílias pobres do interior ou recolhidos em batidas policiais contra a “vadiagem” nas grandes cidades — uma herança direta das políticas de controle social sobre a população negra recém-liberta da escravidão. Ou seja: homens que, na infância, já haviam sido compulsoriamente incorporados a uma instituição hierárquica e violenta, cresciam dentro dela sob o mesmo tipo de punição física que supostamente havia sido abolida do país em 1888.

Quatro dias com os canhões apontados para o Rio

Por volta das 22h do dia 22 de novembro de 1910, os marinheiros do Minas Gerais se levantaram, dominaram os oficiais — dois comandantes foram mortos na ação inicial — e assumiram o controle do navio. Horas depois, a tripulação do São Paulo aderiu ao motim, seguida pelo couraçado mais antigo Deodoro e pelo cruzador Bahia. Em poucas horas, os revoltosos controlavam os navios de guerra mais poderosos do país, com seus canhões voltados para a própria capital federal.

João Cândido assumiu o comando geral da esquadra rebelada e enviou um manifesto ao presidente Hermes da Fonseca e ao Congresso Nacional, redigido com clareza política notável para um movimento organizado por homens que, em sua maioria, mal sabiam ler. O documento não pedia dinheiro nem cargos: exigia o fim dos castigos físicos na Marinha, melhores condições de trabalho e, crucialmente, anistia total para todos os envolvidos na revolta. Os marinheiros deixaram claro que, se o governo tentasse retomar os navios pela força, os canhões disparariam contra o Rio de Janeiro. A ameaça era plenamente crível: eram os encouraçados mais bem armados do hemisfério sul, e a cidade estava ao alcance.

Durante quatro dias, o governo brasileiro discutiu opções que iam da negociação ao bombardeio dos próprios navios com aviões — tecnologia ainda incipiente e de eficácia duvidosa contra encouraçados blindados, mas que chegou a ser cogitada em reuniões ministeriais como demonstração de força. Parte da oficialidade defendia abertamente afundar os navios com a tripulação a bordo, mesmo sabendo que isso mataria centenas de homens e destruiria o investimento mais caro já feito pela Marinha brasileira. Prevaleceu o cálculo político mais frio: os encouraçados estavam de fato posicionados para atingir o centro do Rio de Janeiro, então capital federal e sede do próprio governo que precisaria decidir o que fazer, e ninguém no Palácio do Catete tinha garantias de que a ameaça de bombardeio fosse blefe.

Em 25 de novembro, pressionado pela iminência de uma tragédia urbana, o Congresso Nacional aprovou uma lei de anistia ampla para os revoltosos, isentando-os de qualquer punição pelos atos cometidos durante o motim — incluindo a morte de oficiais nas primeiras horas da tomada dos navios. No dia seguinte, 26 de novembro, os marinheiros cumpriram sua parte do acordo, depuseram as armas, libertaram os oficiais mantidos sob custódia e devolveram os navios aos seus comandantes, intactos e sem disparar um único tiro contra a cidade. Vista de fora, a Revolta da Chibata parecia ter terminado como uma vitória notável e quase incruenta dos marinheiros sobre a elite naval — um desfecho raro para qualquer motim armado na história militar de qualquer país.

A anistia que durou duas semanas

A paz foi curta. O governo, humilhado por ter negociado com uma tropa insubordinada diante dos olhos de toda a imprensa internacional, que cobria com atenção os desdobramentos no Rio de Janeiro, e pressionado por setores da própria Marinha que jamais aceitaram o resultado como legítimo, começou a costurar uma revanche. Muitos oficiais viam a anistia como uma capitulação vergonhosa do Estado brasileiro diante de subalternos negros e mestiços, e circulavam abertamente a ideia de que a “ordem natural” das coisas precisaria ser restaurada assim que a oportunidade surgisse.

O pretexto surgiu em 9 de dezembro de 1910, menos de duas semanas depois da anistia: um novo motim, dessa vez entre fuzileiros navais baseados na guarnição da Ilha das Cobras, na Baía de Guanabara, e entre tripulantes do encouraçado Rio Grande do Sul. Diferente da Revolta da Chibata, esse segundo levante teve participação parcial dos marinheiros que já tinham sido anistiados — mas foi tratado pelo governo como se fosse simplesmente a continuação da mesma conspiração, uma desculpa perfeita para varrer da Marinha os líderes negros que haviam ousado desafiar a hierarquia branca e mostrar, de uma vez por todas, que a insubordinação teria um preço.

A repressão ao segundo motim foi rápida, desproporcional e deliberadamente exemplar. Tropas do Exército e da própria Marinha bombardearam posições na Ilha das Cobras e prenderam centenas de marinheiros, entre eles muitos que nada tinham a ver com a nova revolta, incluindo o próprio João Cândido — que, apesar da lei de anistia recém-aprovada pelo Congresso e apesar de não ter qualquer ligação comprovada com o levante de dezembro, foi detido junto com dezenas de companheiros do movimento de novembro. Na prática, a lei que deveria protegê-los havia se transformado em papel sem valor algum diante da vontade da cúpula militar de fazer os líderes da revolta pagarem, ainda que fosse por um crime que não cometeram.

O calabouço da Ilha das Cobras

O capítulo mais brutal da história aconteceu na véspera de Natal de 1910. Dezoito presos, entre eles João Cândido, foram trancados em uma cela subterrânea da Fortaleza de São José, na Ilha das Cobras — um calabouço projetado para no máximo seis pessoas, sem ventilação, imundo de fezes e urina acumuladas. Sob o pretexto de “desinfetar” o ambiente, os carcereiros jogaram cal virgem dentro da cela fechada. A reação química da cal com a umidade do ar liberou calor intenso e gases que, somados à falta de oxigênio no espaço minúsculo e lotado, transformaram a cela numa câmara de asfixia.

Vinte e quatro horas depois, dezesseis dos dezoito homens estavam mortos, sufocados ou queimados pela reação da cal. Apenas dois sobreviveram: o próprio João Cândido e o soldado naval João Avelino Lira, então com 26 anos. Os sobreviventes relataram depois que passaram os últimos momentos revezando-se junto às poucas frestas de ar da porta de ferro, pisando sobre os corpos dos companheiros que já haviam sucumbido, numa tentativa desesperada de não perder a consciência antes que alguém percebesse o que estava acontecendo lá dentro. A tragédia foi mantida em sigilo pelas autoridades por semanas, e só viria a público graças à insistência da imprensa e de familiares que exigiam notícias dos presos, batendo às portas dos quartéis sem receber resposta. Nenhum oficial responsável pela ordem de jogar a cal na cela foi condenado ou sequer formalmente investigado — o episódio foi tratado internamente como um acidente durante um procedimento de desinfecção de rotina.

Os seringais da Amazônia e o “Almirante Negro” esquecido

A punição não parou no calabouço. Cento e cinco marinheiros ligados à Revolta da Chibata foram degredados para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, uma sentença que, no clima e nas condições sanitárias da região naquela época, era quase uma pena de morte lenta. Onze deles foram fuzilados ainda durante o trajeto, sob acusações vagas de indisciplina. João Cândido escapou desse destino, mas não escapou da perseguição: em abril de 1911, foi internado à força no Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro — um recurso comum da época para neutralizar opositores políticos incômodos sob o rótulo de loucura. Dois meses depois, o próprio diretor do hospício, o médico Juliano Moreira, atestou por escrito que João Cândido não apresentava nenhum transtorno mental, e ele foi liberado.

Excluído da Marinha e rejeitado por boa parte da sociedade e da imprensa da época — que o apelidou de “Almirante Negro” originalmente em tom pejorativo, irônico diante de um marinheiro negro que ousara comandar encouraçados —, João Cândido passou o resto da vida na pobreza, trabalhando como estivador e vendedor de peixe no cais do porto do Rio de Janeiro, a poucos metros da baía onde havia comandado a maior esquadra do hemisfério sul. Casou-se, teve filhos e viveu décadas praticamente esquecido pelo Estado que ele havia desafiado, sustentando-se de bicos e da venda de pescado enquanto era tratado, em boa parte dos registros oficiais da Marinha, como um simples desertor.

De vilão oficial a símbolo antirracista

João Cândido morreu em 6 de março de 1969, aos 88 anos, sem jamais ter sido oficialmente reabilitado em vida e sem receber qualquer pensão ou reconhecimento do Estado brasileiro pelos serviços prestados à Marinha antes da revolta. Foi apenas nas décadas seguintes, à medida que historiadores e movimentos negros resgataram sua trajetória, que a figura do “Almirante Negro” começou a ser ressignificada: de suposto amotinador perigoso para símbolo de resistência contra o racismo institucional que sobrevivia, disfarçado de disciplina militar, muito depois do fim formal da escravidão. Ruas, escolas, um navio-patrulha da própria Marinha e até uma estátua na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro, hoje carregam seu nome ou sua imagem — um contraste e tanto com o homem que morreu pobre, vendendo peixe a poucos passos dali.

O reconhecimento formal, porém, demorou. Somente em 2008 — quase um século depois da revolta e quase quarenta anos após sua morte — o Congresso Nacional aprovou uma lei concedendo anistia póstuma a João Cândido e aos demais marinheiros envolvidos no movimento, reconhecendo oficialmente a legitimidade da causa que os havia levado a apontar canhões para a capital do país. Mesmo assim, disputas judiciais movidas por descendentes de João Cândido contra a Marinha, buscando indenização e reparação histórica pela perseguição sofrida, ainda seguiam em tramitação mais de 115 anos depois dos eventos de novembro de 1910 — prova de como as feridas abertas naquela semana de tensão na Baía de Guanabara custaram a cicatrizar.

Curiosidades rápidas

  • O Minas Gerais e o São Paulo, os encouraçados tomados pelos marinheiros, faziam do Brasil uma das primeiras nações do mundo a operar navios de guerra do tipo dreadnought, à frente de países como Alemanha e Áustria-Hungria naquele momento.
  • O castigo que detonou a revolta previa no máximo 25 chibatadas pelo regulamento oficial; Marcelino Rodrigues Menezes recebeu 250.
  • Apenas 2 dos 18 presos trancados na cela da Ilha das Cobras sobreviveram à câmara improvisada de cal virgem na véspera de Natal de 1910.
  • Cento e cinco marinheiros foram degredados para os seringais da Amazônia como punição; 11 foram fuzilados no caminho.
  • A anistia póstuma a João Cândido só foi sancionada em 2008, 98 anos depois da revolta e quase quatro décadas após sua morte em 1969.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

Posts Relacionados

Continue explorando nossa coleção de artigos sobre história