1888: o dia em que Londres ouviu música gravada pela 1ª vez
Novidades

1888: o dia em que Londres ouviu música gravada pela 1ª vez

14 de agosto, 2026 Gustavo Santos

Na tarde de 14 de agosto de 1888, um grupo de jornalistas londrinos foi convidado a entrar em uma sala decorada como um pequeno museu de curiosidades elétricas, em Upper Norwood, no sul de Londres. O anfitrião era um americano exuberante, o coronel George Edward Gouraud, veterano condecorado da Guerra Civil americana e, agora, representante pessoal de Thomas Edison na Grã-Bretanha. Sobre a mesa estava uma máquina pesada, movida a baterias de ácido, que ninguém ali havia visto funcionar antes: o fonógrafo “aperfeiçoado” de Edison. Gouraud girou a manivela, encaixou um cilindro de cera e, pela primeira vez diante de testemunhas em Londres, um som gravado de música tocou no ar — um trecho de piano e cornetim da canção “The Lost Chord”, de Arthur Sullivan. Ninguém sabia então, mas aquele cilindro frágil e imperfeito se tornaria, mais de um século depois, uma das gravações musicais mais antigas do mundo ainda preservadas e ouvíveis.

Um órfão da Guerra Civil que virou “coronel” por conta própria

Para entender por que essa demonstração aconteceu justamente em uma casa de subúrbio londrino, é preciso conhecer George Gouraud. Nascido em 1842 em Niagara, Nova York, filho de imigrantes franceses, ele ficou órfão aos cinco anos quando o pai e a mãe morreram com um mês de diferença. Criado por uma família quaker da Pensilvânia, alistou-se no exército da União assim que a Guerra Civil começou, servindo na 3ª Cavalaria Voluntária de Nova York. Em novembro de 1864, aos 22 anos, ganhou a Medalha de Honra do Congresso por bravura na Batalha de Honey Hill, na Carolina do Sul, e recebeu a patente honorária de tenente-coronel. Depois da guerra, discretamente eliminou o “tenente” do título e passou a se apresentar simplesmente como “Coronel Gouraud” — nome que usaria pelo resto da vida.

Em 1873, já trabalhando para a Western Union em Londres, foi Gouraud quem recebeu Edison, então com 26 anos, ao desembarcar na Inglaterra para demonstrar seus aparelhos ao correio britânico. Dali nasceu uma parceria de negócios que duraria décadas: Gouraud se tornou o agente de patentes e representante financeiro de Edison na Europa. Fascinado por invenções elétricas, transformou sua própria casa em Beulah Hill, batizada de “Little Menlo” em homenagem ao laboratório de Edison em Menlo Park, Nova Jersey, em uma vitrine particular de tecnologia — parte residência, parte laboratório de demonstrações para convidados ilustres.

A corrida contra Alexander Graham Bell

O fonógrafo original de Edison, apresentado ao mundo em 1877, gravava sons em folhas de estanho e servia mais como curiosidade de feira do que como aparelho prático — a gravação se degradava rapidamente e não podia ser reproduzida muitas vezes. Por anos, Edison deixou o invento de lado, ocupado com o desenvolvimento da lâmpada elétrica. O problema é que outros não pararam: em 1886, o laboratório Volta, fundado por Alexander Graham Bell e primos, começou a desenvolver seu próprio aparelho de gravação sonora, o grafofone, usando cilindros de cera em vez de estanho — uma solução tecnicamente superior.

Gouraud, ciente da ameaça, passou anos pressionando Edison por carta para retomar o projeto antes que a concorrência tomasse o mercado. A pressão funcionou: em junho de 1888, Edison e sua equipe se trancaram no laboratório de Orange, Nova Jersey, e trabalharam continuamente por 72 horas para finalizar o “fonógrafo aperfeiçoado”, agora usando cilindros de cera e motor elétrico. A icônica fotografia do grupo exausto, tirada às cinco da manhã de 16 de junho de 1888 com Edison caído sobre a mesa e o próprio Gouraud posando ao fundo, correu o mundo como prova simbólica da vitória na corrida tecnológica. Dias depois, a máquina — pesando mais de 30 quilos e dependente de grandes baterias de vidro cheias de ácido — foi embarcada para Londres, chegando à casa de Gouraud em 26 de junho.

Uma canção nascida à beira de um leito de morte

A peça escolhida para a primeira demonstração pública em Londres não foi aleatória. “The Lost Chord” já era, em 1888, uma das canções mais amadas da Inglaterra vitoriana, com uma história pessoal comovente por trás. Arthur Sullivan — metade da dupla de compositores Gilbert e Sullivan, famosa pelas operetas cômicas como “The Pirates of Penzance” — havia composto a melodia em janeiro de 1877, sentado ao lado do leito de seu irmão mais novo, Frederic, que estava morrendo. O manuscrito está datado de 13 de janeiro de 1877; Fred morreria cinco dias depois. A letra era um poema de 1860 da escritora Adelaide Anne Procter, “A Lost Chord”, que Sullivan dizia ter tentado musicar sem sucesso por anos, até finalmente encontrar a melodia certa naquele momento de luto.

A canção fala de alguém que, tocando distraidamente o órgão, encontra por acaso um acorde de beleza e paz perfeitas — “como a paz que segue uma prece” — mas nunca mais consegue reencontrá-lo, por mais que procure. O tema de algo belo e fugaz, capturado uma única vez e depois perdido para sempre, ganharia um significado quase profético décadas depois, quando as próprias gravações de 1888 desapareceram por quase cem anos antes de serem redescobertas.

A tarde em que os jornalistas ouviram o impossível

Na demonstração de 14 de agosto de 1888, quem operava a máquina não era o próprio Gouraud — que na época ainda estava aprendendo a lidar com o equipamento temperamental — mas sim Hugh DeCoursey Hamilton, funcionário de Edison enviado à Inglaterra especificamente para acompanhar o fonógrafo. A “cera de sabão” usada para moldar os cilindros em branco ainda era uma fórmula experimental e imperfeita, o que tornava cada gravação um pequeno milagre técnico. Ainda assim, quando o cilindro com o trecho instrumental de piano e cornetim de “The Lost Chord” começou a tocar diante da imprensa reunida, o efeito foi elétrico: pela primeira vez, um grupo de pessoas em Londres ouvia música que havia sido capturada e reproduzida mecanicamente, sem um músico presente na sala.

A notícia se espalhou rapidamente pelos jornais britânicos como prova de que a “era das maravilhas elétricas” havia chegado em definitivo. Gouraud, sempre um showman nato, aproveitou o sucesso para organizar uma série de recepções sociais em Little Menlo nas semanas seguintes, convidando figuras da aristocracia, da política e das artes para experimentar o aparelho e, principalmente, gravar suas próprias vozes para o que ele passou a chamar de sua “Biblioteca de Vozes Imortais”.

Quatro mil vozes em cera: a gravação mais ambiciosa da era vitoriana

Apenas alguns dias depois da chegada da máquina a Londres — antes mesmo, portanto, da demonstração de 14 de agosto ganhar as manchetes —, Gouraud e Hamilton tomaram uma decisão ousada: levar o fonógrafo, ainda com menos de um mês de existência, ao Palácio de Cristal para tentar gravar o Festival Handel, uma apresentação do oratório “Israel in Egypt” com um coro de cerca de 4.000 vozes acompanhado por uma orquestra de 500 músicos. Foi uma aposta quase absurda para uma tecnologia tão nova e frágil, mas funcionou: os cilindros capturaram, de forma fantasmagórica e distante, o som do maior evento coral da Inglaterra vitoriana. É considerada até hoje a primeira gravação conhecida de música clássica orquestral e coral da história.

Assim como aconteceria com o cilindro de “The Lost Chord”, essas gravações do Palácio de Cristal desapareceriam por quase um século, dadas como perdidas, até ressurgirem de forma surpreendente nos arquivos da BBC na década de 1980.

Sullivan ouve a si mesmo — e se apavora com o próprio invento

O compositor da canção só teve contato pessoal com o aparelho semanas depois da demonstração para a imprensa. Em 5 de outubro de 1888, Arthur Sullivan foi convidado para um jantar em Little Menlo, onde Gouraud tinha o hábito de servir uísque aos convidados antes de propor, um a um, que gravassem uma mensagem para ser enviada a Edison em Nova Jersey. Depois do jantar, Sullivan se sentou diante do fonógrafo e gravou um breve discurso que se tornaria um dos comentários mais citados sobre a chegada da gravação sonora ao mundo. Suas palavras, preservadas no próprio cilindro, diziam: “Só posso dizer que estou espantado e um tanto aterrorizado com o resultado dos experimentos desta noite: espantado com o poder maravilhoso que o senhor desenvolveu, e aterrorizado com o pensamento de que tanta música horrível e ruim possa ser registrada para sempre. Mas, ainda assim, considero a coisa mais maravilhosa que já vivenciei, e o parabenizo de todo coração por esta descoberta extraordinária.”

É uma reação notavelmente moderna para 1888: entusiasmo genuíno misturado com uma ansiedade quase profética sobre as consequências culturais de tornar o som permanente — uma preocupação que, mais de um século depois, ecoaria em debates sobre toda nova tecnologia de gravação e reprodução.

Perdidas por quase cem anos: o resgate nos arquivos da BBC

Por décadas, os cilindros de cera gravados em Little Menlo em 1888 — incluindo o trecho instrumental de “The Lost Chord” tocado na demonstração de 14 de agosto e a fala de Sullivan de outubro — foram considerados perdidos ou deteriorados além do uso, como aconteceu com boa parte das primeiras gravações fonográficas do mundo, frágeis e mal armazenadas. Foi só na década de 1980 que parte desse material ressurgiu, preservado nos arquivos da BBC, permitindo que fossem finalmente restaurados com tecnologia moderna e disponibilizados ao público. Hoje, cópias digitais dessas gravações estão preservadas pelo Thomas Edison National Historical Park, no catálogo de objetos do parque, sob o número de referência E-2440-3, listadas como gravadas por volta de agosto de 1888 em Londres.

Ouvir hoje esses poucos segundos de piano e cornetim, cheios de chiado e distorção, é uma experiência estranhamente emocionante: é como escutar, através de mais de um século de silêncio, o instante exato em que a humanidade descobriu como capturar a música e devolvê-la ao mundo repetidas vezes — resolvendo, de certa forma, o próprio dilema poético da canção que lhes deu origem.

O fim melancólico do homem que “possuía” o fonógrafo

A história pessoal de Gouraud, porém, não teve o mesmo final feliz de sua invenção favorita. Encantado com a fama que a “Biblioteca de Vozes Imortais” lhe rendia entre a aristocracia britânica, ele pagou a Edison, no final de 1888, a quantia de 30 mil libras esterlinas — equivalente a cerca de 7 milhões de dólares em valores de 2020 — pelos direitos exclusivos de comercializar o fonógrafo fora dos Estados Unidos. Só que, em vez de investir na distribuição comercial do aparelho como máquina de ditado para escritórios, como Edison pretendia, Gouraud se concentrou quase exclusivamente em usá-lo como atração de salão, hesitando repetidamente em importar e vender máquinas em maior escala. Por volta de 1889, havia apenas sete fonógrafos circulando pela Grã-Bretanha inteira, alugados para exibições pagas como “A Maravilha da Era”. Quando finalmente decidiu agir, o encanto de novidade já havia se esgotado e a imprensa começava a tratar o invento com desdém. Endividado e sem avanço comercial em praticamente todo o seu vasto território de licença, Gouraud foi afastado do negócio em um golpe interno em 1892, oito anos antes de morrer, já esquecido pela indústria que ajudou a inaugurar, na Suíça, em 1912.

Apesar do fracasso comercial de seu dono original, o fonógrafo que ele apresentou naquela tarde de agosto sobreviveria muito além dele, dando origem à indústria fonográfica mundial e a mais de um século de música gravada.

Curiosidades rápidas

  • O fonógrafo “aperfeiçoado” de 1888 pesava mais de 30 quilos e precisava de grandes baterias de vidro cheias de ácido para funcionar.
  • Gouraud pagou a Edison 30 mil libras — cerca de 7 milhões de dólares em valores de 2020 — pelos direitos de comercializar o fonógrafo fora dos Estados Unidos.
  • Em 1889, apenas sete fonógrafos existiam em toda a Grã-Bretanha, alugados para exibições públicas pagas.
  • A gravação do coro de “Israel in Egypt” no Palácio de Cristal, feita dias antes da demonstração de 14 de agosto, reuniu cerca de 4.000 vozes e 500 músicos — e é considerada a primeira gravação de música clássica orquestral da história.
  • “The Lost Chord” seria gravada décadas depois por astros da ópera como Enrico Caruso, em 1912, mostrando a longevidade da canção que Sullivan compôs à beira do leito de morte do irmão.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

Posts Relacionados

Continue explorando nossa coleção de artigos sobre história