A Guerra dos Emus: quando o exército australiano perdeu para pássaros
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A Guerra dos Emus: quando o exército australiano perdeu para pássaros

11 de agosto, 2026 Gustavo Santos

Em novembro de 1932, o governo da Austrália fez algo que parece piada, mas está documentado em relatórios oficiais, debates parlamentares e reportagens de jornal da época: declarou guerra a um bando de aves. Não eram aves quaisquer — eram cerca de 20 mil emus, a segunda maior ave viva do planeta, invadindo as plantações de trigo do distrito de Campion, na Austrália Ocidental. Para conter o “inimigo”, o Ministério da Defesa enviou soldados de artilharia com duas metralhadoras Lewis, as mesmas usadas nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. O resultado foi uma das derrotas mais humilhantes — e mais engraçadas — da história militar do século XX.

Veteranos de guerra virados agricultores em terra ruim

Para entender como se chegou a esse ponto, é preciso voltar a 1919. Depois da Primeira Guerra Mundial, o governo australiano distribuiu terras na Austrália Ocidental a milhares de ex-combatentes, num programa de assentamento rural conhecido como “soldier settlement”. A ideia era nobre — recompensar quem tinha lutado —, mas a execução foi desastrosa: boa parte das terras entregues era marginal, com solo pobre e chuva irregular, mal adequada para agricultura em larga escala.

Quando a Grande Depressão atingiu a Austrália em 1929, esses fazendeiros — muitos deles sem experiência agrícola prévia, aprendendo o ofício na base da tentativa e erro — foram pressionados pelo governo a aumentar a produção de trigo. Prometeram-se subsídios que nunca chegaram por completo. Os preços do trigo continuaram despencando no mercado internacional, e em outubro de 1932 a situação já estava tensa: os agricultores colhiam a safra da temporada enquanto ameaçavam se recusar a entregar o grão, numa espécie de greve branca contra o governo.

Vinte mil aves gigantes entram em cena

Foi nesse cenário de terra ruim, dívida e revolta que a natureza decidiu piorar tudo. Todos os anos, depois da temporada de reprodução, os emus migram do interior árido da Austrália em direção ao litoral, em busca de água e vegetação. Em 1932, essa migração trouxe um número estimado em 20 mil emus para dentro das terras cultivadas do Wheatbelt (o “cinturão do trigo”) da Austrália Ocidental.

O problema é que, para os fazendeiros, essas terras recém-desmatadas e com fornecimento extra de água para o gado pareciam um habitat perfeito. Os emus devoraram e pisotearam plantações inteiras de trigo e, pior ainda, arrebentaram as cercas ao passar — abrindo caminho para que coelhos, já uma praga crônica no continente, invadissem ainda mais terreno. Para agricultores endividados e à beira da falência, a chegada de milhares de aves de quase 1,80 metro de altura devorando a colheita foi a gota d’água.

O emu (Dromaius novaehollandiae) não era exatamente um desconhecido para os australianos: a ave está no brasão nacional do país, ao lado do canguru, justamente por ser um símbolo da fauna nativa. Mas essa relação de orgulho nacional não impedia que, na prática, o emu fosse tratado havia décadas como praga agrícola em certas regiões. Já em 1923, a Austrália Ocidental havia criado um sistema de recompensas pagas a quem abatesse emus considerados nocivos às lavouras — um indício de que o “problema dos emus” já era antigo, e que a solução de 1932 seria, na verdade, uma escalada e não uma novidade.

Uma delegação de veteranos pede metralhadoras

Os fazendeiros, muitos deles ex-soldados que haviam servido na Primeira Guerra Mundial, sabiam exatamente que tipo de arma resolveria “o problema” — na cabeça deles, ao menos. Uma delegação foi enviada a Sir George Pearce, o ministro da Defesa da Austrália, pedindo o empréstimo de metralhadoras do Exército.

Pearce concordou, mas com condições: as armas deveriam ser operadas por militares profissionais, o governo da Austrália Ocidental pagaria pelo transporte das tropas, e os fazendeiros forneceriam comida, hospedagem e munição. Pearce também via vantagens políticas no gesto — os emus, disse ele, seriam uma boa prática de tiro para os soldados, e ajudar publicamente os fazendeiros da Austrália Ocidental era conveniente num momento em que a região flertava com um movimento de secessão do resto do país. O governo foi tão longe a ponto de convidar um cinegrafista da Fox Movietone News para documentar a operação — a expectativa de vitória era alta. Havia também um cálculo político nos bastidores: por trás do gesto de “ajudar os fazendeiros”, alguns membros do governo enxergavam a chance de conter um crescente movimento separatista na Austrália Ocidental, que reivindicava se desligar do restante do país por se sentir negligenciada por Camberra. Resolver publicamente o “problema dos emus” com pompa militar era, também, uma jogada de imagem.

A “guerra” começa — e os emus provam ser adversários difíceis

A operação ficou sob o comando do major Gwynydd Purves Wynne-Aubrey Meredith, da 7ª Bateria Pesada da Artilharia Real Australiana, auxiliado pelo sargento S. McMurray e pelo artilheiro J. O’Halloran. Eles levaram duas metralhadoras Lewis e 10 mil cartuchos de munição. Uma temporada de chuvas atrasou o início da campanha, espalhando os emus por uma área maior — só em 2 de novembro de 1932 as tropas finalmente entraram em ação.

Nesse primeiro dia, cerca de 50 emus foram avistados perto de Campion. Como as aves estavam fora do alcance das armas, fazendeiros locais tentaram encurralá-las numa emboscada. Não adiantou: os emus se dividiram em pequenos grupos e dispararam em corridas erráticas, tornando-se alvos quase impossíveis de acertar. A primeira rajada de tiros foi praticamente inútil pela distância; uma segunda rodada conseguiu abater “um número” indeterminado de aves, e mais tarde, num grupo menor, talvez uma dúzia foi morta.

O momento mais emblemático da campanha aconteceu dois dias depois, em 4 de novembro. Meredith armou uma emboscada perto de uma represa, por onde mais de mil emus foram avistados se aproximando. Dessa vez os soldados esperaram pacientemente até as aves ficarem bem próximas antes de abrir fogo — a chance perfeita para uma matança em massa. Só que a metralhadora engasgou depois de matar apenas 12 emus, e o resto do bando se dispersou em segundos, arruinando a emboscada mais promissora de toda a operação.

Metralhadora em cima de caminhão e um general “vencido” por pássaros

Nos dias seguintes, observadores do Exército notaram algo curioso: cada bando de emus parecia ter um “líder” — uma ave grande, de penas escuras, que ficava de vigia enquanto o resto do grupo se alimentava, avisando os companheiros sempre que os soldados se aproximavam. Frustrado, Meredith chegou a montar uma das metralhadoras Lewis na carroceria de um caminhão, na esperança de perseguir os bandos em movimento. A ideia fracassou de forma quase cômica: o caminhão não conseguia acompanhar a velocidade dos emus (que podem correr a até 50 km/h), e o terreno acidentado sacudia tanto o veículo que o atirador não conseguia sequer mirar.

Em 8 de novembro, seis dias após o primeiro confronto, 2.500 cartuchos já haviam sido disparados. O número de emus mortos até ali é incerto — relatos variam de 50 (segundo um balanço mais cético) a entre 200 e 500, número maior citado pelos próprios fazendeiros. O que não é incerto é que a imprensa local começou a tratar o episódio com ironia, questionando publicamente por que o Exército não conseguia vencer pássaros. Reportagens da época, hoje preservadas em arquivos digitais de jornais australianos, traziam manchetes como “Elusive Emus” (“Emus Elusivos”) e “Rain Scatters Emus” (“Chuva Espalha Emus”), tratando cada fracasso da tropa como notícia. Diante da repercussão negativa — inclusive discutida na Câmara dos Representantes da Austrália em 8 de novembro — Pearce ordenou a retirada imediata das tropas e das armas.

Foi depois dessa primeira retirada que o major Meredith deu a declaração que se tornaria famosa, comparando os emus a guerreiros zulus: “Se tivéssemos uma divisão militar com a capacidade de aguentar balas dessas aves, ela enfrentaria qualquer exército do mundo… Eles encaram metralhadoras com a invulnerabilidade de tanques.”

Segunda tentativa, números controversos e uma vitória que ninguém comemorou

Sem as tropas, os emus continuaram destruindo as plantações, e os fazendeiros voltaram a pedir ajuda, agora com o apoio explícito de James Mitchell, o premiê da Austrália Ocidental. Um relatório do comandante da base local também alegava que 300 emus já tinham sido mortos na operação inicial, o que ajudou a pressionar o governo federal. Em 12 de novembro, Pearce autorizou a retomada da campanha, e Meredith — sem outros operadores de metralhadora experientes disponíveis no estado — voltou ao campo em 13 de novembro.

Dessa vez o resultado foi um pouco melhor: nos dois primeiros dias, cerca de 40 emus foram abatidos. O terceiro dia, 15 de novembro, foi bem menos produtivo, mas ao longo de semanas os soldados passaram a matar, em média, cerca de 100 emus por semana. Meredith foi definitivamente chamado de volta em 10 de dezembro de 1932. Em seu relatório final, reivindicou 986 mortes confirmadas usando 9.860 cartuchos — uma média exata de 10 tiros por emu abatido, número que soa suspeitosamente arredondado — além de alegar que outros 2.500 emus feridos teriam morrido depois, em decorrência dos ferimentos. Historiadores contemporâneos consideram essa segunda cifra especialmente exagerada e de difícil verificação. Uma reportagem publicada anos depois no jornal Sunday Herald resumiria a operação como o projeto “mais ambicioso” já tentado contra os emus na Austrália Ocidental — e também o que “fracassou mais miseravelmente”, trazendo ao pássaro sua vitória mais completa e despertando, pela primeira vez, certa simpatia pública pelos emus.

Mesmo somando as duas fases da campanha, o resultado foi, na melhor das hipóteses, modesto diante de uma população estimada em 20 mil aves — e completamente insuficiente para deter os danos às lavouras. O ornitólogo australiano Dominic Serventy resumiu o episódio com ironia: os sonhos dos metralhadores de disparar à queima-roupa contra massas cerradas de emus logo se dissolveram, já que “o comando dos emus evidentemente ordenou táticas de guerrilha”, dividindo o “exército” das aves em pequenas unidades que tornaram o equipamento militar praticamente inútil.

O que realmente resolveu o problema — e o que sobrou na memória

Depois do fiasco de 1932, os fazendeiros pediram ajuda militar novamente em 1934, 1943 e 1948, e todas as vezes foram recusados pelo governo federal, que já tinha aprendido a lição. Em vez disso, o que efetivamente funcionou foi um sistema de recompensas em dinheiro por emu abatido, criado ainda em 1923: somente no primeiro semestre de 1934, mais de 57 mil recompensas foram reivindicadas por caçadores civis — uma eficácia muito maior do que a de duas metralhadoras do Exército. A partir da década de 1930, cercas de exclusão especialmente projetadas para barrar emus, dingos e coelhos também se tornaram a solução padrão para proteger as plantações, e seguem em uso até hoje em versões modernizadas.

A notícia da “Guerra dos Emus” viajou até o Reino Unido ainda em dezembro de 1932, gerando protesto de conservacionistas britânicos, que classificaram a operação como uma tentativa de “extermínio” de uma ave rara — o que tecnicamente não procedia, já que o emu nunca esteve perto da extinção, mas mostra como o episódio já soava absurdo até para observadores de fora. Décadas depois, o caso se tornou piada recorrente na cultura pop australiana e internacional: virou meme sobre “o único inimigo que a Austrália não conseguiu vencer” e inspirou até roteiros de filmes de comédia de ação, incluindo um projeto anunciado com participação do comediante britânico John Cleese.

Ainda em novembro de 1950, quase duas décadas depois do episódio original, o problema dos emus voltou ao Parlamento australiano: o deputado Hugh Leslie pediu ao ministro do Exército, Josiah Francis, a liberação de munição para uso dos fazendeiros — desta vez sem o envolvimento direto de tropas ou metralhadoras. O pedido foi aceito e 500 mil cartuchos foram liberados, prova de que o “problema dos emus” nunca desapareceu de fato; apenas deixou de ser resolvido, ou tentado resolver, à moda militar. Hoje o emu é uma espécie protegida por lei em grande parte da Austrália, e a gestão de sua população é feita com métodos bem mais sofisticados — e discretos — do que os de 1932.

Curiosidades rápidas

  • O emu é a segunda maior ave viva do mundo, atrás apenas da avestruz, podendo chegar a quase 1,90 metro de altura e correr a até 50 km/h.
  • A operação usou duas metralhadoras Lewis, arma de origem da Primeira Guerra Mundial, e cerca de 10 mil cartuchos de munição só na primeira fase.
  • Em seu relatório final, o major Meredith alegou 986 mortes confirmadas com exatamente 9.860 tiros — uma proporção “redonda demais” de 10 balas por ave, o que levanta dúvidas entre historiadores até hoje.
  • O sistema de recompensas por emu abatido, muito mais eficaz que os fuzis do Exército, gerou mais de 57 mil pedidos de pagamento em apenas seis meses de 1934.
  • O episódio ficou tão conhecido que inspirou roteiros de cinema décadas depois, incluindo um projeto de comédia com o ator britânico John Cleese como um dos roteiristas.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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