A Passarola: o padre brasileiro que ‘voou’ antes dos Montgolfier
Lisboa, 8 de agosto de 1709. Na Sala dos Embaixadores da Casa da Índia, junto ao rio Tejo, o rei João V e a rainha Maria Ana de Áustria esperavam, cercados pela nata da corte portuguesa e por um convidado de peso: o núncio apostólico, cardeal Michelangelo dei Conti, que anos depois se tornaria o papa Inocêncio XIII. No centro da sala, um padre de 23 anos, magro e nascido do outro lado do Atlântico, preparava um pequeno globo de papel. Ninguém ali sabia que estava prestes a testemunhar, mais de sete décadas antes dos irmãos Montgolfier, a primeira demonstração pública e documentada de um objeto se erguer no ar graças ao calor do fogo. O padre se chamava Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascera em Santos, e sairia daquela sala com um apelido que o seguiria pelo resto da vida: “o padre voador”.
Da Bahia a Coimbra: a formação de um cientista colonial
Bartolomeu Lourenço de Gusmão nasceu em dezembro de 1685 em Santos, no litoral da capitania de São Paulo, então parte do Brasil colonial. Era filho do cirurgião-mor Francisco Lourenço Rodrigues e de Maria Álvares, e irmão mais novo de Alexandre de Gusmão, que décadas depois se tornaria um dos diplomatas mais influentes da história portuguesa, negociador do Tratado de Madrid de 1750 — o acordo que redesenhou as fronteiras do Brasil e ainda hoje molda o mapa do país.
Ainda menino, Bartolomeu entrou como noviço no Seminário Jesuíta de Belém da Cachoeira, na Bahia, junto com o irmão. Deixou a Companhia de Jesus em 1701 e, por volta dos 15 anos, embarcou para Portugal. Em Lisboa encontrou um protetor influente, o marquês de Abrantes, que o ajudou a se estabelecer na corte. Formou-se depois na Universidade de Coimbra, onde se dedicou sobretudo à matemática, à física e à filologia, além de obter o título de doutor em Direito Canônico. Contemporâneos descreviam-no como um homem de memória prodigiosa e grande facilidade para línguas — um perfil que, séculos depois, historiadores da ciência passaram a chamar de “o primeiro cientista brasileiro”.
É importante situar essa trajetória no contexto do Portugal do início do século XVIII: um reino que enriquecia com o ouro das Minas Gerais, mantinha uma corte cada vez mais suntuosa e cultivava certo orgulho em relação às “novidades” científicas vindas de suas colônias. Um padre nascido em Santos, sem título de nobreza, conseguir a atenção pessoal do rei para um projeto tão excêntrico quanto “andar pelo ar” diz muito sobre a habilidade de Gusmão em transitar entre o discurso científico e o discurso cortesão — uma combinação rara para a época.
Um pedido ousado ao rei: o privilégio para “andar pelo ar”
Gusmão vinha alimentando havia anos, desde os tempos de noviço na Bahia, a ideia de um instrumento capaz de se locomover pelo ar. Em 1708 ele formalizou o projeto diante do rei João V, pedindo um privilégio exclusivo de exploração da invenção — na prática, uma patente real. O texto da petição, preservado até hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, é surpreendentemente ambicioso: Gusmão prometia um instrumento capaz de percorrer “duzentas e mais léguas de caminho por dia”, útil para levar avisos urgentes a exércitos distantes, socorrer praças sitiadas com gente e mantimentos, e até descobrir as regiões mais próximas dos polos do mundo, dando a glória do feito à “Nação Portuguesa”.
O despacho real, datado de 7 de abril de 1709, foi generoso: além de conceder o privilégio (formalizado por alvará em 19 de abril), João V prometeu a Gusmão a primeira vaga que surgisse nas colegiadas de Barcelos ou Santarém e o cargo de lente de Prima de Matemática na Universidade de Coimbra, com uma renda de 600 mil réis — uma fortuna para um jovem padre recém-chegado à corte. O rei chegou a decretar pena de morte para quem tentasse copiar ou usar o invento sem autorização, sinal de quanto levava a sério a promessa do padre brasileiro. Uma primeira demonstração pública foi marcada para 24 de junho de 1709, mas não aconteceu — Gusmão não estava pronto.
Gusmão não estava sozinho: a Europa já sonhava em voar
A ambição de Gusmão não nasceu no vácuo. Desde o século XVII, estudiosos europeus especulavam sobre formas de vencer a gravidade. O jesuíta italiano Francesco Lana de Terzi havia publicado, em 1670, o projeto teórico de uma “nave voadora” sustentada por quatro esferas de cobre das quais se extrairia o ar — a ideia, fisicamente equivocada (o vácuo interno faria as esferas serem esmagadas pela pressão atmosférica antes de sustentar qualquer peso), circulava havia décadas nos círculos científicos europeus e provavelmente influenciou o próprio desenho da Passarola, com suas esferas metálicas. O diferencial de Gusmão não foi ter uma ideia originalíssima, mas ter chegado, na prática, ao princípio físico correto — o do ar quente — décadas antes de qualquer outra pessoa documentada ter demonstrado algo semelhante funcionando de verdade, ainda que em escala reduzida.
O que de fato aconteceu na Casa da Índia
A demonstração só ocorreu meses depois, em 8 de agosto de 1709, na Sala dos Embaixadores da Casa da Índia, o órgão que administrava o comércio ultramarino português. Diante do rei, da rainha, do núncio apostólico e de boa parte do corpo diplomático e da corte, Gusmão não apresentou a nave voadora completa que havia prometido — apresentou algo mais modesto, porém genuinamente revolucionário: um pequeno balão de papel que, aquecido por combustão, subiu sozinho até o teto da sala. Para evitar que o forro pegasse fogo, os presentes precisaram derrubá-lo com varas.
É importante separar o que a história registra do que a lenda exagerou depois: Gusmão não pilotou nenhuma aeronave naquele dia, nem em nenhum outro. O que ele demonstrou, décadas antes de qualquer outra pessoa documentada na Europa, foi o princípio físico correto por trás do balão de ar quente — que o ar aquecido se torna mais leve e faz um envoltório leve subir. Era exatamente o mesmo princípio que os irmãos Joseph-Michel e Jacques-Étienne Montgolfier redescobririam na França, de forma independente, apenas em 1783 — 74 anos depois — quando finalmente ergueram um balão capaz de carregar passageiros.
O rei recompensou o padre: nomeou-o cônego e efetivou-o na cátedra de matemática em Coimbra. Em 1720 Gusmão passou a integrar a recém-criada Academia Real de História Portuguesa, ao lado de cinquenta membros selecionados, e em 1722 tornou-se capelão da corte. Ele também acumulou outras patentes, em hidráulica e pneumática, e publicou textos técnicos, entre eles o “Manifesto Summário para os que ignoram poder-se navegar pelo elemento do ar”, de 1709, e um tratado de 1710 sobre como esvaziar, sem tripulação, navios que faziam água.
A lenda da Passarola: o navio voador que nunca existiu
Foi só décadas depois, em 1784, que surgiu a imagem que tornaria Gusmão famoso — e, ironicamente, motivo de piada. Uma gravura, falsamente datada de 1774, começou a circular pela imprensa europeia mostrando um estranho barco alado, equipado com velas, remos, um leme, esferas metálicas magnéticas e capacidade para onze pessoas. A ilustração, segundo relatos da época, teria sido encomendada pelo conde de Penaguião, filho do marquês de Abrantes, com o objetivo de afastar curiosos que não paravam de importunar o padre depois de sua fama repentina em 1709. Foi essa imagem que batizou o suposto invento de “Passarola”, por sua semelhança com um pássaro.
O problema é que não existe nenhuma evidência de que a Passarola desenhada tenha sido de fato construída — muito menos de que tenha voado. O desenho, avaliado com os princípios da física, simplesmente não poderia funcionar: nem esferas magnéticas nem velas fariam uma embarcação de madeira e ferro flutuar no ar. Quando a notícia do voo real dos Montgolfier, em 1783, chegou a Portugal, alguns portugueses tentaram reivindicar para Gusmão a glória da invenção do balão, publicando de novo os antigos relatos e a gravura da Passarola. O resultado foi o oposto do esperado: a imprensa europeia usou o desenho fantasioso para ridicularizar a reivindicação portuguesa, tratando a Passarola como fábula, não como ciência. A verdadeira contribuição de Gusmão — a demonstração de 1709 com o pequeno balão de ar quente — acabou ofuscada por um mito criado décadas depois de sua morte.
Perseguido pela Inquisição: a queda do “padre voador”
O sucesso na corte não protegeu Gusmão por muito tempo. Sua família tinha raízes de cristãos-novos — descendentes de judeus convertidos ao catolicismo sob pressão, muitas vezes à força, dois séculos antes —, origem que, em Portugal do século XVIII, bastava para atrair a atenção permanente do Santo Ofício. A Inquisição portuguesa, ativa desde 1536, vinha perseguindo sistematicamente famílias de origem judaica havia gerações, confiscando bens, promovendo autos de fé e alimentando um clima de suspeita constante em torno de qualquer pessoa com esse tipo de ascendência — mesmo quando, como no caso de Gusmão, a família praticava o catolicismo havia várias gerações. Documentos da época confirmam que uma denúncia contra ele chegou de fato à Inquisição, embora registrada sob outra acusação formal, não diretamente ligada à sua ascendência. Relatos posteriores, inclusive um artigo publicado no jornal londrino Daily Universal Register em outubro de 1786, contam que Gusmão, amedrontado pela perseguição e pelo escárnio popular — que já o chamava de feiticeiro por conta de suas experiências —, teria queimado seus próprios manuscritos, se disfarçado e fugido antes que o processo avançasse.
Ele deixou Portugal e seguiu para a Espanha, mas nunca chegou a se estabelecer em segurança: contraiu febre durante a fuga e morreu num hospital de Toledo em 18 de novembro de 1724, aos 38 anos, longe da família e da corte que o havia aplaudido quinze anos antes. Segundo relatos da época, parte de seus manuscritos sobre aerostação sobreviveu graças a um parente religioso que os guardou num convento carmelita em Lisboa — os mesmos papéis que, décadas depois, estudiosos europeus interessados no episódio ainda tentariam consultar. É um final amargo e pouco lembrado para quem, uma década e meia antes, havia sido aplaudido pelo próprio rei de Portugal e por um futuro papa — um lembrete de como o mesmo Estado que financiava a ciência também podia destruir, da noite para o dia, quem produzia essa ciência.
O legado: de José Saramago aos aeroportos que levam seu nome
A história de Gusmão atravessou os séculos de formas inesperadas. O escritor português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, transformou o padre e sua Passarola em personagens centrais do romance “Memorial do Convento” (publicado em inglês como “Baltasar and Blimunda”), misturando fatos históricos com uma reinvenção poética da máquina voadora movida por “vontades” humanas capturadas do sol.
No Brasil, o nome de Gusmão foi dado a um aeroporto construído no Rio de Janeiro em 1936 pela companhia alemã Luftschiffbau Zeppelin, justamente para operar os dirigíveis Graf Zeppelin e Hindenburg — uma coincidência quase poética, já que o local recebeu naves aéreas de verdade duzentos anos depois da demonstração do padre. Esse aeroporto foi incorporado pela Força Aérea Brasileira em 1941 e rebatizado de Base Aérea de Santa Cruz. Hoje, é o aeroporto de Araraquara, no interior paulista, que leva oficialmente o nome de Bartolomeu de Gusmão.
Mais de três séculos depois daquela tarde na Casa da Índia, a avaliação historiográfica mais equilibrada é esta: Gusmão não construiu nenhuma nave capaz de transportar pessoas pelos ares, e a Passarola, tal como ilustrada, jamais existiu. Mas o pequeno balão de papel que subiu até o teto de uma sala em Lisboa, em 8 de agosto de 1709, foi uma demonstração real e pioneira do princípio físico que, décadas depois, levaria a humanidade ao ar de verdade.
Curiosidades rápidas
- Gusmão tinha apenas 23 anos quando fez sua demonstração para o rei João V em 1709.
- O rei chegou a decretar pena de morte para quem usasse a invenção sem autorização — um dos privilégios reais mais severos já concedidos a um inventor português.
- A icônica imagem da “Passarola” só surgiu 75 anos após a demonstração original, em 1784, e foi usada para ridicularizar, não para celebrar, a reivindicação portuguesa da invenção do balão.
- O irmão de Bartolomeu, Alexandre de Gusmão, negociou o Tratado de Madrid de 1750, que ajudou a definir as fronteiras que o Brasil tem até hoje.
- Gusmão morreu em fuga da Inquisição, em Toledo, na Espanha, aos 38 anos — 74 anos antes de os irmãos Montgolfier realizarem o primeiro voo tripulado de balão, em 1783.
Gustavo Santos
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