Nongqawuse: a profecia que matou 40 mil pessoas na África do Sul
Em abril de 1856, uma menina de quinze anos chamada Nongqawuse saiu para espantar pássaros de uma plantação de milho perto da foz do rio Gxarha, na costa do que hoje é a África do Sul. Ela voltou dizendo que tinha falado com espíritos de ancestrais mortos. A mensagem que trouxe consigo pareceria, para qualquer observador de fora, absurda: para que os mortos ressuscitassem e os colonizadores britânicos fossem varridos para o mar, o povo xhosa precisava matar todo o seu gado e destruir todas as suas plantações. Em pouco mais de um ano, entre 300 mil e 400 mil cabeças de gado foram abatidas, os celeiros foram esvaziados e cerca de 40 mil pessoas morreram de fome. É uma das maiores tragédias autoinfligidas da história do colonialismo africano — e também uma das mais controversas, porque até hoje historiadores discutem o quanto dela foi profecia sincera e o quanto foi resultado da manipulação de um governador colonial que via na fome uma oportunidade.
Uma nação encurralada antes da profecia
Para entender por que dezenas de milhares de pessoas aceitaram destruir a própria subsistência, é preciso voltar alguns anos. Os xhosa viviam na fronteira oriental da Colônia do Cabo havia gerações, e essa fronteira tinha sido, desde o fim do século XVIII, palco de sucessivas guerras contra o avanço dos colonos britânicos e bôeres. Entre 1850 e 1853, a Oitava Guerra da Fronteira (também chamada de Guerra de Mlanjeni) devastou o território xhosa: aldeias inteiras foram queimadas, terras férteis foram anexadas pela coroa britânica e criada a nova província de British Kaffraria, e milhares de pessoas morreram ou ficaram deslocadas. A própria Nongqawuse perdeu os pais nessa guerra, durante as campanhas na região de Waterkloof, e foi criada pelo tio, Mhlakaza.
Como se a derrota militar e a perda de terras não bastassem, no início da década de 1850 uma doença pulmonar contagiosa do gado — hoje identificada como pleuropneumonia bovina contagiosa, provavelmente introduzida pelo gado de colonos europeus — começou a se espalhar pelos rebanhos xhosa, matando animais aos milhares. Para um povo cuja riqueza, dieta e identidade social giravam em torno do gado, foi um golpe duplo: perda de terra e perda do próprio gado ao mesmo tempo. Era nesse cenário de humilhação militar, fome latente e desespero que a mensagem trazida por uma adolescente encontraria um público disposto a acreditar.
A menina que viu os espíritos
Nongqawuse nasceu por volta de 1841 perto do rio Gxarha, em território xhosa independente, próximo à fronteira com a recém-criada British Kaffraria. Órfã, foi criada pelo tio Mhlakaza, um homem que havia passado um tempo na Colônia do Cabo, onde teve contato com o cristianismo, antes de retornar à terra natal em 1853 como uma espécie de líder espiritual. Foi Mhlakaza quem, em boa medida, deu forma e autoridade à visão da sobrinha.
Segundo o relato que a própria Nongqawuse deu mais tarde às autoridades coloniais, ela e uma amiga mais nova, Nombanda, foram até os campos perto da foz do rio para afugentar pássaros das plantações. Ali, ela disse ter encontrado dois homens que se identificaram como espíritos de ancestrais. A mensagem, segundo ela, era clara: os xhosa deveriam parar de cultivar a terra, destruir os grãos armazenados, abater todo o gado vivo — considerado “contaminado” por mãos impuras — e construir novos currais, novas casas e novos celeiros para receber a fartura que viria. Em troca dessa obediência total, os mortos ressuscitariam, o gado renasceria mais saudável e numeroso do que nunca, e os colonos europeus seriam empurrados para o mar.
Mhlakaza, a princípio cético, teria se convencido quando a sobrinha descreveu um dos espíritos com detalhes que ele reconheceu como sendo os de seu próprio irmão morto. Convertido em crente fervoroso, ele levou a profecia ao rei Sarili kaHintsa, líder do clã Gcaleka, o mais importante entre os xhosa. O aval do rei foi o que transformou a visão de uma adolescente em movimento de massa.
Uma profecia que se espalha feito fogo
Entre abril de 1856 e o início de 1858, a mensagem de Nongqawuse se espalhou por praticamente todo o território xhosa, do Cabo Oriental ao Transkei. Chefes locais mandavam emissários para verificar as visões, e muitos voltavam convencidos — ou pressionados a se convencer, já que duvidar publicamente da profecia passou a ser visto como traição ao povo e cumplicidade com os brancos. Historiadores estimam que somente o clã Gcaleka, de Sarili, abateu entre 300 mil e 400 mil cabeças de gado nesse período — um número que dá a real dimensão da riqueza destruída em nome da fé.
Nem todos aderiram. Um grupo de xhosa que se recusou a matar seus rebanhos e continuou plantando ficou conhecido pelos crentes como amagogotya, algo como “os avarentos” ou “os sovinas”. Esse grupo se tornaria conveniente bode expiatório quando as primeiras datas prometidas para a ressurreição chegaram e nada aconteceu: os líderes do movimento passaram a alegar que a presença de céticos entre o povo era o que impedia o milagre de se realizar, um mecanismo clássico de racionalização que mantém profecias vivas mesmo depois de fracassarem.
A primeira grande data marcada foi 18 de fevereiro de 1857, quando, segundo a profecia, o sol nasceria vermelho como sinal de que a transformação estava próxima. Quando o dia amanheceu como qualquer outro, a decepção não destruiu o movimento — pelo contrário, o intensificou. O próprio rei Sarili foi até a foz do Gxarha conversar pessoalmente com Nongqawuse e Mhlakaza, e voltou anunciando um novo prazo: em oito dias, o sol nasceria vermelho, haveria uma tempestade violenta e, ao final dela, os mortos se levantariam. Foi nesse período final, os “oito dias”, que o abate de gado atingiu seu ápice desesperado, com famílias inteiras sacrificando os últimos animais que lhes restavam na esperança de que dessa vez a promessa se cumprisse.
O dia que nunca chegou
Não houve sol vermelho, não houve tempestade purificadora, não houve exército de ancestrais varrendo os colonos para o oceano. Relatos da época descrevem multidões inteiras reunidas em campo aberto na manhã do dia marcado, olhando para o horizonte, vestidas com suas melhores peles e adornos, esperando o momento em que o céu se abriria. O sol nasceu como qualquer outro sol. À medida que os prazos passavam e nada se confirmava, a fé de parte da população começou a ruir, mas àquela altura já era tarde demais: não havia mais gado para vender ou trocar por comida, não havia mais grãos armazenados, e a temporada de plantio havia sido perdida. Uma comunidade inteira havia consumido, literalmente, seu próprio futuro em nome de uma promessa que não veio.
A fome que se seguiu, entre 1857 e 1858, foi catastrófica. A população de British Kaffraria — a região sob administração colonial direta onde vivia boa parte dos xhosa afetados — despencou de cerca de 105 mil para menos de 27 mil pessoas, uma queda de mais de 70% atribuída à combinação de mortes por inanição, doenças oportunistas e êxodo em massa de sobreviventes em busca de comida e trabalho nas terras colonizadas. No total, estima-se que cerca de 40 mil pessoas tenham morrido de fome direta ou indiretamente ligada ao movimento.
Um governador que viu oportunidade no desastre
É neste ponto que a história do “cattle killing” deixa de ser apenas a crônica de uma profecia fracassada e se torna também uma história sobre como o poder colonial explorou uma catástrofe humanitária. Sir George Grey, governador da Colônia do Cabo à época, tinha plena consciência da fome que se abatia sobre o território xhosa — e escolheu não oferecer ajuda incondicional. Ele bloqueou iniciativas de caridade organizadas por colonos simpáticos à causa, como o chamado “Kaffir Relief Committee”, e em março de 1857 emitiu uma proclamação determinando que qualquer pessoa flagrada roubando comida por desespero poderia ser morta no ato.
Mais revelador ainda: Grey instruiu os magistrados coloniais a só distribuírem comida e assistência a quem aceitasse se submeter a contratos de trabalho para fazendeiros e colonos brancos que havia anos reclamavam de escassez de mão de obra. Na prática, a fome se tornou uma ferramenta de recrutamento forçado. Milhares de xhosa famintos, sem alternativa, aceitaram trabalhar nas fazendas e nos centros urbanos coloniais, muitas vezes em condições próximas à servidão. Ao mesmo tempo, com a resistência militar e política xhosa dizimada pela fome, a administração colonial confiscou algo em torno de 600 mil acres de terras ancestrais, abrindo caminho para novos assentamentos de colonos europeus. Para muitos historiadores, entre eles Jeffrey Peires — autor da obra de referência sobre o episódio, “The Dead Will Arise” —, o cattle killing representou o golpe final que quebrou de vez o poder dos chefes xhosa como força independente na fronteira do Cabo, algo que décadas de guerra não haviam conseguido fazer por completo.
Um eco do outro lado do Atlântico
O episódio xhosa não foi um caso isolado na história dos povos colonizados no século XIX. Décadas depois, em 1890, nas planícies dos Estados Unidos, um movimento com uma estrutura quase idêntica tomaria conta de várias nações indígenas norte-americanas: a chamada Dança Fantasma, ou Ghost Dance, pregada pelo profeta paiute Wovoka. A promessa também era de ressurreição dos mortos, retorno da fartura de bisões e desaparecimento dos colonizadores brancos, e ela também nasceu do desespero de povos que haviam perdido terra, caça e autonomia política para o avanço de um império estrangeiro. O paralelo não é coincidência: historiadores classificam ambos os episódios como movimentos milenaristas, um tipo de resposta religiosa e coletiva que costuma surgir quando uma sociedade inteira sofre um colapso rápido demais para ser processado por meios convencionais — políticos, militares ou econômicos. Nos Estados Unidos, a Dança Fantasma terminaria de forma ainda mais sangrenta, com o massacre de Wounded Knee em dezembro de 1890, quando tropas americanas mataram entre 250 e 300 sioux lakota, muitos deles mulheres e crianças. A comparação ajuda a entender o cattle killing não como um episódio exótico e isolado da história africana, mas como parte de um padrão histórico mais amplo de povos colonizados reagindo à perda catastrófica de seu mundo com promessas de renascimento total.
O que restou de Nongqawuse
Depois do colapso do movimento, Nongqawuse foi entregue por um chefe local ao major Gawler, oficial colonial britânico, e passou a viver sob sua custódia. Em determinado momento, a esposa de Gawler decidiu vesti-la, junto com outra jovem profetisa do movimento, Nonkosi, para um retrato fotográfico — a imagem que, até hoje, é a mais reproduzida quando se fala sobre ela. Depois de libertada, Nongqawuse foi viver em uma fazenda no distrito de Alexandria, no Cabo Oriental, longe da região onde havia se tornado, involuntariamente, uma das figuras mais controversas da história sul-africana. Morreu em 1898, com cerca de 57 anos, sem nunca ter voltado a ocupar papel de destaque público.
O vale onde ela disse ter encontrado os espíritos ainda é conhecido em xhosa como Intlambo kaNongqawuse, “o Vale de Nongqawuse”. O debate histórico sobre o episódio, porém, está longe de encerrado. Por muito tempo, a versão colonial tratou o cattle killing simplesmente como um exemplo de “superstição irracional” de um povo “primitivo”, uma leitura que convenientemente tirava o foco do papel ativo da administração britânica na catástrofe. Historiadores mais recentes, revisando os registros originais, apontam que a crença na profecia também pode ter sido, para parte da liderança xhosa, uma resposta racional e desesperada a uma crise real: destruir o gado remanescente — já dizimado pela peste pulmonar e simbolicamente “contaminado” pelo contato colonial — podia ser lido como um ato de purificação e resistência espiritual diante de um inimigo que as armas não haviam conseguido deter.
Curiosidades rápidas
- Estima-se que entre 300 mil e 400 mil cabeças de gado foram abatidas voluntariamente pelos xhosa entre abril de 1856 e o início de 1858.
- A população de British Kaffraria caiu de cerca de 105 mil para menos de 27 mil pessoas em consequência direta da fome.
- Nongqawuse tinha apenas 15 anos quando relatou ter visto os espíritos dos ancestrais pela primeira vez, em abril de 1856.
- Os poucos xhosa que se recusaram a matar seu gado ficaram conhecidos como amagogotya (“os sovinas”) e foram culpados pelos crentes quando a profecia falhou.
- O governador George Grey condicionou a ajuda alimentar aos xhosa famintos à aceitação de contratos de trabalho em fazendas de colonos brancos, e a coroa britânica aproveitou o enfraquecimento do povo para confiscar cerca de 600 mil acres de terra.
Gustavo Santos
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