O homem que morreu duas vezes na cadeira elétrica de Auburn
Às 6h43 da manhã de 6 de agosto de 1890, dentro de uma sala pintada de verde-claro na Prisão Estadual de Auburn, no interior de Nova York, um vendedor ambulante de verduras chamado William Kemmler foi amarrado a uma cadeira de madeira com correias de couro. Ele havia matado a companheira, Tillie Ziegler, a golpes de machadinha um ano antes, e por isso seria o primeiro ser humano da história executado por eletricidade. Ninguém na sala sabia exatamente o que ia acontecer — nem os médicos, nem o carrasco, nem os dezessete convidados que assistiam boquiabertos. O que aconteceu nos oito minutos seguintes foi tão grotesco que o correspondente do New York Herald escreveria depois que aquilo tinha sido “pior do que qualquer coisa que a imaginação poderia conceber”. E por trás daquela cadeira, discretamente puxando os fios, estava uma das rivalidades comerciais mais ferozes da história da tecnologia: a guerra entre Thomas Edison e George Westinghouse pelo controle da eletricidade nos Estados Unidos.
Um crime banal numa manhã de ressaca
William Kemmler nasceu em 1860 na Filadélfia, filho de imigrantes alemães alcoólatras. Analfabeto — abandonou a escola aos dez anos —, trabalhou no açougue do pai até ficar órfão e depois virou vendedor ambulante em Buffalo, no estado de Nova York, onde ganhou fama nos bares locais com o apelido de “Philadelphia Billy”. Bebia pesado, tanto que, segundo relatos da época, certa vez apostou com amigos que conseguiria saltar seu cavalo e carroça por cima de uma cerca de mais de dois metros — a tentativa terminou em desastre, com a carroça destruída e as mercadorias espalhadas pelo chão. Vivia com Tillie Ziegler, apresentada por ele como sua esposa, embora os dois nunca tivessem se casado oficialmente.
Na manhã de 29 de março de 1889, ainda se recuperando de uma bebedeira da noite anterior, Kemmler acusou Tillie de roubar dinheiro dele e de planejar fugir com um conhecido seu. A discussão escalou. Kemmler foi até o celeiro, pegou uma machadinha e voltou para dentro de casa, onde golpeou Tillie repetidas vezes até matá-la. Em seguida, sem demonstrar qualquer tentativa de fuga, caminhou até a casa de um vizinho e anunciou, com uma tranquilidade que espantaria todos que o conheceram depois: acabara de matar a companheira.
O julgamento foi rápido. Condenado por homicídio em primeiro grau em 10 de maio de 1889, Kemmler foi sentenciado à morte três dias depois. Mas a sentença que recebeu era diferente de qualquer outra da história americana: ele seria o primeiro condenado a morrer eletrocutado, sob uma lei de Nova York que havia entrado em vigor em janeiro de 1888 — a primeira legislação do gênero no mundo.
A guerra das correntes por trás das grades
Para entender por que o caso de um vendedor de verduras alcoólatra virou notícia internacional, é preciso voltar alguns anos. Em 1882, Thomas Edison havia iluminado o distrito financeiro de Nova York com sua rede de corrente contínua (DC). Quatro anos depois, George Westinghouse, apostando na corrente alternada (AC) — mais barata de transmitir a longas distâncias e mais eficiente —, iluminou Buffalo com um sistema rival. A disputa comercial pelo futuro da eletricidade americana, hoje conhecida como “guerra das correntes”, estava em pleno andamento, e Edison via seu império de corrente contínua perder terreno rapidamente.
A resposta de Edison não foi técnica, foi publicitária. Ele e um aliado próprio, o engenheiro Harold P. Brown, começaram a organizar demonstrações públicas em que animais — cães, bezerros, cavalos — eram eletrocutados com corrente alternada diante de plateias e jornalistas, para “provar” que a AC era mortalmente perigosa e imprópria para uso doméstico. Foi desse tipo de espetáculo macabro que a imprensa da época cunhou o termo “eletrocução”. Anos depois, em 1903, uma elefanta chamada Topsy seria eletrocutada em Coney Island num evento com participação de gente ligada ao círculo de Edison — episódio posterior, mas que mostra como a tática de usar mortes por eletricidade como propaganda seguiu sendo empregada.
Quando o estado de Nova York decidiu adotar a eletrocução como novo método de execução, a pergunta óbvia era: corrente contínua ou corrente alternada? Brown e Edison fizeram lobby pesado para que fosse escolhida a AC — de preferência, geradores fabricados pela própria Westinghouse. A lógica era cruel e eficiente: se o Estado usasse a tecnologia de Westinghouse para matar criminosos, o nome “Westinghouse” ficaria psicologicamente colado à morte na cabeça do público, e ninguém mais quereria aquela corrente entrando em casa. Edison chegou a insinuar publicamente a pergunta retórica: é isso que você quer que sua esposa use para cozinhar?
O dentista que queria matar “de forma científica”
A ideia da cadeira elétrica em si não veio de Edison nem de Westinghouse, mas de um dentista de Buffalo chamado Alfred Southwick. Southwick ficou impressionado ao saber de um homem embriagado que havia morrido instantaneamente ao tocar acidentalmente os terminais de um gerador elétrico exposto na rua. Movido por essa história e por um genuíno — ainda que hoje seja difícil de acreditar — desejo reformista de tornar as execuções mais “humanas” do que o enforcamento, que frequentemente resultava em mortes lentas por estrangulamento ou decapitações acidentais, Southwick passou os anos seguintes eletrocutando animais em seu consultório e fazendo lobby junto a políticos de Nova York.
O governador do estado, David B. Hill, chegou a declarar publicamente que o método tradicional de enforcar condenados “vinha da Idade das Trevas” e que a ciência do século XIX deveria ser capaz de oferecer algo menos bárbaro. O resultado dessas quase uma década de pressão política e experimentos foi a Lei de Execução Elétrica de 1888, e a construção, na Prisão de Auburn, de uma cadeira projetada pelo eletricista da própria prisão, Edwin Davis. O modelo tinha dois eletrodos — discos de metal revestidos de borracha e cobertos por uma esponja umedecida — que seriam fixados na cabeça raspada e na base da coluna do condenado.
Uma apelação até a Suprema Corte — paga por Westinghouse
George Westinghouse não assistiu de braços cruzados à possibilidade de seu nome ser associado à morte. Ele bancou a defesa jurídica de Kemmler, contratando o advogado W. Bourke Cockran para argumentar que morrer eletrocutado configurava “pena cruel e incomum”, proibida pela Oitava Emenda da Constituição americana. O caso, batizado de In re Kemmler, chegou até a Suprema Corte dos Estados Unidos.
Em 9 de outubro de 1889, a Corte rejeitou o recurso, decidindo que não havia crueldade inconstitucional na eletrocução — abrindo caminho, ironicamente com o dinheiro do próprio fabricante da corrente que seria usada, para a execução seguir adiante com equipamento Westinghouse, adquirido de forma indireta por Harold Brown justamente para evitar recusa da empresa em vender diretamente para esse fim.
A manhã de 6 de agosto de 1890
Kemmler foi acordado às 5h. Vestiu-se com terno, camisa branca e gravata, tomou café da manhã, rezou e teve o topo da cabeça raspado para o eletrodo. Testemunhas descreveram um homem estranhamente calmo — “sem dúvida o mais tranquilo da sala”, escreveu um repórter presente. Às 6h38, entrou na câmara de execução, onde o diretor da prisão, Charles Durston, o apresentou aos dezessete convidados oficiais.
“Cavalheiros, desejo a todos boa sorte. Acredito que vou para um bom lugar, e estou pronto para ir”, disse Kemmler, acrescentando ainda que os jornais haviam publicado “um monte de coisas que não são verdade” sobre ele. Sentou-se na cadeira, mas precisou se levantar de novo: os carrascos haviam esquecido de abrir um furo no paletó para passar o segundo fio elétrico até a base da coluna. Corrigido o detalhe, Kemmler voltou a se sentar, foi amarrado com as correias de couro e cobriram seu rosto. “Não tenham pressa, façam certo, tenho todo o tempo do mundo”, disse a seus algozes, num tom quase de instrutor paciente.
O diretor Durston se despediu: “Adeus, William.” Kemmler não respondeu. Eram 6h43.
“Esse homem não está morto”: os oito minutos que chocaram o país
O gerador foi ligado com uma carga inicial estimada entre 700 e 1.000 volts. O corpo de Kemmler se contraiu de forma violenta contra as correias. Depois de dezessete segundos, a corrente foi cortada. Os médicos presentes, liderados por Edward Charles Spitzka, se aproximaram, examinaram o corpo e declararam Kemmler morto. Uma mosca pousou tranquilamente sobre o nariz do cadáver, o que os presentes tomaram como sinal adicional de que a vida havia se extinguido.
Foi então que o Dr. Balch notou algo errado: um pequeno ferimento no polegar de Kemmler, causado pelo atrito das correias durante a convulsão, estava sangrando. Sangue significava coração batendo. Segundos depois, um som gutural começou a sair da garganta de Kemmler, cada vez mais alto, enquanto seu peito se contraía contra o arnês de couro. “Liguem a corrente!”, gritou Spitzka, em pânico. “Esse homem não está morto!”
A plateia, formada por médicos, jornalistas e autoridades acostumados a cenas de violência, começou a passar mal. Um dos presentes precisou se deitar enquanto era abanado por um médico. A segunda descarga, desta vez de cerca de 2.000 volts, foi aplicada por quase dois minutos seguidos. Vasos sanguíneos sob a pele de Kemmler se romperam. Uma fumaça começou a sair da cabeça e das costas do condenado, acompanhada de um cheiro de carne e cabelo queimados que fez vários espectadores tentarem deixar a sala. A autopsia posterior revelaria que os vasos sanguíneos sob o couro cabeludo haviam carbonizado e que o tecido no topo do cérebro havia endurecido, praticamente cozido pelo calor da corrente.
O processo inteiro durou cerca de oito minutos. No dia seguinte, o New York Times estampou a manchete “Far Worse Than Hanging” (“Bem pior do que enforcar”), chamando o espetáculo de “revoltante… uma vergonha para a civilização”. George Westinghouse, ao ser informado dos detalhes, resumiu o episódio numa frase que ficaria famosa: “Teriam feito melhor com um machado.”
“Kemmler foi Westinghoused”: o nascimento de um verbo
A imprensa sensacionalista do dia seguinte cunhou uma nova expressão para descrever o que havia acontecido: “Kemmler was Westinghoused” — Kemmler foi “Westinghouseado”. Era exatamente a associação simbólica que Edison vinha tentando construir havia anos, agora transformada em manchete nacional: o nome do rival virando sinônimo de morte por eletricidade. Para Edison, que publicamente se declarava contrário à pena de morte enquanto financiava nos bastidores a campanha para associar a AC à execução, a jogada de relações públicas havia, a curto prazo, funcionado.
A vitória, porém, foi de imagem, não técnica. A corrente alternada de Westinghouse era simplesmente superior para transmissão de energia em longa distância, e a “guerra das correntes” seria decidida nos anos seguintes pelo mercado, não pela publicidade mórbida: a AC se tornaria o padrão elétrico usado até hoje no mundo inteiro, inclusive nas redes que a própria empresa de Edison acabaria adotando. A cadeira elétrica, por sua vez, sobreviveria ao escândalo de sua estreia catastrófica e seguiria sendo usada como método de execução em vários estados americanos ao longo do século seguinte, sempre alimentando debates sobre crueldade e punição que ecoam, em alguma medida, até os dias de hoje.
William Kemmler foi enterrado nos próprios terrenos da Prisão de Auburn. Sua morte, cercada de tanto sofrimento visível que chocou até jornalistas endurecidos, tornou-se um dos episódios mais estranhos e reveladores da história americana: o momento em que uma disputa corporativa por dinheiro e mercado se sobrepôs literalmente à vida e à morte de um homem comum, num crime que, não fosse a coincidência de datas e legislação, teria sido apenas mais uma tragédia doméstica esquecida.
Apesar do horror relatado por quem presenciou a cena, o estado de Nova York não abandonou o método. Ajustes técnicos foram feitos nos anos seguintes — voltagens mais altas, aplicadas de forma mais constante — e a cadeira elétrica acabou se espalhando para outros estados americanos ao longo das décadas seguintes, tornando-se por muito tempo o principal símbolo visual da pena capital nos Estados Unidos, décadas antes de ser gradualmente substituída pela injeção letal a partir dos anos 1980. Nenhum outro país chegou a adotar o método de forma permanente: os Estados Unidos seguem sendo, até hoje, o único a ter usado a cadeira elétrica em larga escala.
Curiosidades rápidas
- Um cavalo foi eletrocutado como teste na cadeira de Auburn no dia anterior à execução de Kemmler, para verificar se o equipamento funcionava.
- Harold Brown, aliado de Edison, comprou secretamente os geradores Westinghouse usados na cadeira para evitar que a empresa se recusasse a vendê-los diretamente para esse fim.
- O advogado da apelação de Kemmler, W. Bourke Cockran, foi contratado e pago pelo próprio George Westinghouse, que temia perder milhões caso a AC fosse associada publicamente à morte.
- Alfred Southwick, o dentista que ajudou a conceber a cadeira elétrica, declarou depois da execução: “Vivemos numa civilização superior a partir de hoje.”
- Kemmler foi interpretado no cinema décadas depois, inclusive em “Tesla” (2020) e, de forma simbólica, na figura de cera de “Museu de Cera” (“House of Wax”, 1953).
Gustavo Santos
Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.