A Guerra do Contestado: o exército de caboclos que resistiu 4 anos
Entre 1912 e 1916, uma faixa de mata e campo entre o Paraná e Santa Catarina virou palco de uma das guerras mais sangrentas e menos lembradas da história do Brasil. De um lado, cerca de 20 mil caboclos — posseiros expulsos de suas terras, madeireiros falidos e trabalhadores demitidos de uma estrada de ferro — organizados em torno de um curandeiro que dizia falar com Deus. Do outro, o Exército Brasileiro, que chegou a mobilizar sete mil soldados, metralhadoras, artilharia pesada e os primeiros aviões militares já usados em combate no país. Quando a poeira baixou, quatro anos depois, entre 10 mil e 20 mil pessoas estavam mortas — mais do que na famosa Guerra de Canudos, e por mais tempo. A Guerra do Contestado quase não aparece nos livros escolares fora do Sul do país, mas é uma das histórias mais dramáticas da Primeira República brasileira.
Uma faixa de terra de 30 quilômetros que valia mais do que parecia
Tudo começou com uma ferrovia. Em 1908, o governo brasileiro contratou a Brazil Railway Company, de propriedade do empresário norte-americano Percival Farquhar, para construir a Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande, ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul. Como parte do contrato, a empresa recebeu o direito de explorar uma faixa de terra de 30 quilômetros de largura ao longo de toda a linha — 15 quilômetros para cada lado dos trilhos —, totalizando cerca de 6.696 km², o equivalente a 276.694 alqueires.
O problema é que essa terra já tinha gente morando nela. O governo simplesmente declarou a área “devoluta”, como se estivesse desocupada, ignorando posseiros que viviam ali havia gerações e contrariando a própria Lei de Terras de 1850. Milhares de famílias foram expulsas. Somando-se a isso, uma empresa coligada de Farquhar, a Southern Brazil Lumber & Colonization Company, passou a explorar comercialmente a madeira da região, quebrando pequenos madeireiros locais que não tinham como competir. Quando a construção da ferrovia terminou, em 1910, cerca de oito mil trabalhadores contratados para as obras — vindos principalmente do Rio de Janeiro e de Pernambuco — ficaram sem emprego e sem para onde ir, presos numa região que já não tinha mais terra livre para lhes oferecer.
Essa massa de gente sem terra, sem trabalho e sem recurso jurídico algum contra a Brazil Railway Company era o combustível perfeito para uma revolta. Faltava só a faísca — e ela viria em forma de religião.
Os três monges chamados João Maria
Décadas antes da guerra, um peregrino italiano chamado João Maria D’Agostini já percorria o interior do Sul do Brasil pregando, curando doentes e vivendo com extrema pobreza, entre 1844 e 1870. Ele nunca teve relação direta com o conflito que viria depois, mas deixou uma marca profunda: a crença de que figuras messiânicas cuidavam espiritualmente daquela gente esquecida pelo Estado.
Um segundo homem, de origem provavelmente síria e chamado Atanás Marcaf, adotou o mesmo nome — João Maria — e apareceu publicamente durante a Revolução Federalista de 1893, ganhando fama de profeta antes de desaparecer da região em 1908.
Foi o terceiro, porém, que acendeu o estopim. Em 1912 surgiu um curandeiro de ervas que se apresentava como José Maria de Santo Agostinho. Segundo um laudo policial da época, ele era na verdade um desertor do Exército condenado por estupro, de nome Miguel Lucena de Boaventura — mas isso pouco importava para seus seguidores. José Maria sabia ler e escrever, anotava em cadernos as propriedades medicinais das plantas da região e atendia gratuitamente até tarde da noite qualquer pessoa que o procurasse. Ganhou fama ao supostamente “ressuscitar” uma jovem (provavelmente vítima de um quadro de catalepsia) e ao curar a esposa de um coronel local — recusando, na sequência, terras e ouro que o coronel agradecido quis lhe oferecer. Esse gesto de recusa, mais do que qualquer milagre, foi o que consolidou sua reputação de santo.
José Maria organizou seus seguidores em comunidades chamadas “redutos”, onde a propriedade era coletiva, o comércio convencional foi abolido e só se permitiam trocas. Declarou a República brasileira “a lei do diabo”, nomeou um fazendeiro analfabeto como “imperador do Brasil”, batizou sua comunidade de “Quadro Santo” e criou uma guarda de honra de 24 cavaleiros — os “Doze Pares de França”, em referência à lendária cavalaria de Carlos Magno. Para ele e seus seguidores, o mundo não duraria mais mil anos, o paraíso estava próximo e ninguém deveria temer a morte, porque todos ressuscitariam no combate final.
A Batalha do Irani: o primeiro sangue
Em outubro de 1912, José Maria e cerca de 300 fiéis foram convidados a participar de uma festa religiosa em Taquaruçu, hoje parte do município de Curitibanos (SC). O coronel Francisco de Albuquerque, rival político de quem havia hospedado o monge, viu naquilo uma ameaça e telegrafou ao governo do Paraná pedindo tropas contra “rebeldes que proclamaram a monarquia”.
Pressentindo o que vinha, José Maria mudou seu grupo para a localidade de Irani, então sob jurisdição paranaense — mas numa região de fronteira disputada havia anos entre Paraná e Santa Catarina. O governo do Paraná interpretou a movimentação como uma tentativa catarinense de ocupar aquele território e mandou tropas do Regimento de Segurança para expulsar os recém-chegados.
Em 22 de outubro de 1912, num lugar chamado Banhado Grande, a polícia paranaense atacou o acampamento. A batalha terminou com 11 sertanejos mortos, entre eles o próprio José Maria, e 10 soldados, incluindo o comandante da tropa, coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho. Foi essa a data que os historiadores marcam como o início oficial da Guerra do Contestado.
Os seguidores de José Maria enterraram seu corpo entre tábuas de madeira, e não terra pura, para facilitar sua ressurreição. Acreditavam que ele voltaria à frente de um “Exército Encantado de São Sebastião”, que ajudaria a derrubar a República e restaurar a “monarquia celeste”. Longe de desanimar o movimento, a morte do monge o transformou em mártir — e a guerra, que mal havia começado, ganharia ainda mais força.
Maria Rosa, a jovem de 15 anos que liderou seis mil combatentes
Um ano depois da morte de José Maria, uma menina de 11 anos chamada Teodora começou a relatar sonhos em que o monge falecido ordenava aos fiéis que se reunissem em Taquaruçu. Novos redutos foram surgindo — Caraguatá, Santo Antônio, Caçador Grande, Bom Sossego, Pedra Branca, São Miguel, São Pedro e, o maior de todos, Santa Maria, que chegou a abrigar mais de 20 mil habitantes.
Foi nesse contexto que surgiu uma das figuras mais notáveis do conflito: Maria Rosa, uma jovem de apenas 15 anos que os historiadores compararam a Joana D’Arc. Segundo relatos da época, ela combatia montada num cavalo branco, com arreios forrados de veludo, vestida de branco, com flores no cabelo e um fuzil nas mãos. Depois da morte de José Maria, Maria Rosa passou a afirmar que recebia ordens espirituais dele e assumiu a liderança religiosa e militar de cerca de seis mil combatentes.
Em fevereiro de 1914, uma força conjunta de 700 soldados equipados com artilharia e metralhadoras incendiou o acampamento de Taquaruçu, mas os rebeldes já haviam se refugiado em Caraguatá, reduto de difícil acesso onde viviam cerca de 20 mil pessoas. Em março do mesmo ano, tropas do governo cercaram Caraguatá e foram derrotadas de forma humilhante, fugindo em pânico perseguidas pelos próprios revoltosos — um episódio que injetou ainda mais ânimo no movimento e atraiu novos adeptos de toda a região.
Encorajados, os contestadores passaram ao contra-ataque: em setembro de 1914 lançaram o “Manifesto Monarquista”, saqueando fazendas de coronéis, invadindo cartórios para destruir registros de propriedade e atacando cidades como Curitibanos. Em um dos ataques, na localidade de Calmon, destruíram completamente uma serraria da Lumber, a empresa madeireira ligada a Farquhar. Boatos chegavam a Ponta Grossa de que os rebeldes planejavam marchar até o Rio de Janeiro para depor o presidente da República. Nesse ponto, os contestadores já controlavam algo entre 20 mil e 25 mil km² de território.
Setembrino de Carvalho e os primeiros aviões de guerra do Brasil
Diante do fracasso de sucessivas expedições — inclusive uma liderada pelo general Carlos Frederico de Mesquita, veterano da Guerra de Canudos, que chegou a declarar a revolta encerrada por engano —, o governo federal decidiu apostar em uma força-tarefa muito maior. Em setembro de 1914, o general Setembrino de Carvalho chegou a Curitiba à frente de cerca de sete mil homens, entre soldados do Exército, policiais estaduais do Paraná e de Santa Catarina e civis contratados, com ordens de “pacificar” a região a qualquer custo.
Setembrino mudou a estratégia de guerra. Em vez de buscar o combate direto — exatamente o que os rebeldes queriam e para o qual estavam preparados —, dividiu suas tropas em quatro alas, nomeadas segundo os pontos cardeais, e passou a cercar lentamente os redutos, cortando o abastecimento de comida e isolando um grupo do outro.
Foi também sob o comando de Setembrino que o Brasil usou aviões em operação militar pela primeira vez em sua história: dois aparelhos foram empregados para reconhecimento aéreo, operando a partir de um campo de aviação construído perto da ferrovia, no local que hoje é o município de Caçador (SC). A aviação militar ainda engatinhava no país — e engatinhava de forma trágica: durante as operações, um acidente matou o capitão Ricardo Kirk, considerado o primeiro aviador militar morto em serviço no Brasil.
Com o cerco avançando e a fome se instalando nos redutos, dezenas de caboclos começaram a se render — majoritariamente velhos, mulheres e crianças, numa possível estratégia deliberada dos combatentes para preservar comida para quem continuava lutando.
O cerco final em Santa Maria e a queda do último líder
Com a morte de Maria Rosa e a dispersão de outros redutos, emergiu a figura de Deodato Manuel Ramos, conhecido como “Adeodato”, considerado pelos historiadores o último grande líder do Contestado. Adeodato transferiu o núcleo da resistência para o vale de Santa Maria, que reuniu dezenas de milhares de pessoas, mas, à medida que a comida escasseava, adotou métodos cada vez mais autoritários, chegando a aplicar pena de morte a quem tentasse se render.
Em fevereiro de 1915, a coluna sul do Exército, comandada pelo tenente-coronel Estillac, alcançou Santa Maria e travou combates intensos — só naquele confronto inicial, as forças legalistas contabilizaram 30 mortos e 40 feridos. Em março, o capitão Tertuliano Potiguara partiu com mais de mil homens rumo a Santa Maria, perdendo 24 soldados apenas em emboscadas pelo caminho. Foi nesse período que Maria Rosa morreu, às margens do rio Caçador.
Em 3 de abril de 1915, as tropas de Estillac e Potiguara avançaram juntas para o assalto final a Santa Maria. Dois dias depois, o general Estillac registrou em relatório que praticamente tudo havia sido destruído — cerca de 5 mil habitações arrasadas e mais de 600 combatentes mortos, incluindo mulheres que, segundo ele, “se bateram como homens”. Os redutos de Caçador e Santa Maria estavam extintos.
A guerra, porém, ainda não havia acabado de fato. Em dezembro de 1915, o último reduto remanescente foi destruído pelas tropas de Setembrino. Adeodato escapou e passou oito meses fugindo pelas matas da região, até que a fome e o cansaço o levaram a se entregar, em agosto de 1916 — data oficial do fim do conflito, quarenta e seis meses depois da Batalha do Irani. Ele foi condenado a 30 anos de prisão, mas nunca cumpriu a pena inteira: em 1923, foi morto pelo próprio diretor do presídio, sob a alegação de uma tentativa de fuga.
Meses depois do fim da guerra, em outubro de 1916, os governos do Paraná e de Santa Catarina finalmente assinaram, no Rio de Janeiro, o acordo que definia os limites entre os dois estados — a própria disputa territorial que dava nome à região “contestada” e que, de forma indireta, havia ajudado a acender o conflito. A área do antigo Contestado deu origem a municípios que existem até hoje, como Mafra, Joaçaba, Chapecó e Porto União.
Curiosidades rápidas
- A área de combate chegou a cobrir cerca de 20 mil km², com uma população de aproximadamente 40 mil habitantes na região do conflito.
- Estima-se que entre 10 mil e 20 mil pessoas morreram na guerra, em combate, por fome ou por epidemias — mais do que na Guerra de Canudos, e num conflito que durou mais tempo.
- Em quatro anos de confronto, cerca de 9 mil casas foram incendiadas ou destruídas.
- O capitão Ricardo Kirk, morto em acidente durante operações de reconhecimento aéreo no Contestado, é considerado o primeiro aviador militar morto em serviço na história do Brasil.
- O reduto de Santa Maria, no auge do movimento, chegou a abrigar mais de 20 mil pessoas — do tamanho de uma cidade média para os padrões da época.
Gustavo Santos
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