A última execução na Torre de Londres: a saga do espião Josef Jakobs
Na madrugada de 15 de agosto de 1941, um homem de 43 anos foi retirado de sua cela na prisão de Wandsworth, em Londres, e levado sob escolta até a Torre de Londres. Não para visitar as joias da coroa: ele ia morrer ali, amarrado a uma cadeira de madeira num pequeno campo de tiro entre duas muralhas medievais. Seu nome era Josef Jakobs, ex-dentista, ex-contrabandista de ouro, agente da inteligência alemã e, àquela altura, o último espião a ser fuzilado dentro dos muros da fortaleza mais famosa da Inglaterra. A história dele começa muito antes da guerra — e é tão cheia de reviravoltas que parece roteiro de filme B, só que real, documentada em atas de corte marcial, laudos médicos e cartas guardadas em sigilo por décadas.
Do consultório de dentista ao contrabando de ouro na Suíça
Josef Jakobs nasceu em 30 de junho de 1898, na cidade de Luxemburgo, filho de pais alemães que se mudaram para Berlim ainda na infância dele. Estudou no colégio dominicano de Vechta e, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, alistou-se no exército alemão, servindo no 4º Regimento da Guarda de Infantaria nas frentes leste e oeste. Foi ferido em 1918 perto de Amiens, na França, e mandado de volta a Berlim para se recuperar.
Terminada a guerra, ele decidiu trocar o fuzil pelo bisturi odontológico. Estudou odontologia em Berlim e, em 1921, viajou até Buenos Aires, na Argentina, para concluir sua formação. De volta a Berlim em 1924, conseguiu seu registro profissional e abriu um consultório. Em 1926 casou-se com Margarete Knoeffler, e o casal teve três filhos — dois meninos e uma menina — até 1932.
A Grande Depressão, porém, quebrou o consultório de Jakobs. Em 1934, ele viajou à Suíça com um amigo, Werner Goldstein, para se envolver na fabricação e venda de ouro falsificado. O golpe não durou muito: os dois foram presos ainda naquele ano e passaram cerca de dois anos e meio na cadeia. Solto em junho de 1937, Jakobs voltou a Berlim e tentou a vida como vendedor ambulante de livros e máquinas de escrever — até se meter em um esquema ainda mais arriscado.
Passaportes clandestinos para judeus e uma temporada em Sachsenhausen
Em 1938, um antigo conhecido apresentou Jakobs a um esquema de venda de passaportes de mercado negro para judeus alemães desesperados para deixar o país. Um advogado, o Dr. Juergen Ziebell, conseguia vistos e passaportes finlandeses, irlandeses ou uruguaios mediante pagamento — muitas vezes pesado — e Jakobs ficava com uma “taxa de indicação” por trazer clientes.
Um desses contatos era uma tal Frau Lily Knips, que tinha um filho na Inglaterra e queria muito emigrar. Ela acabou não fechando negócio com Ziebell, mas Jakobs tentou lhe empurrar outros acordos financeiros de natureza bastante duvidosa. Em outubro de 1938, as autoridades prenderam Ziebell e seus associados, Jakobs incluído. Ele foi enviado ao campo de concentração de Sachsenhausen, de onde só saiu em março de 1940 — já em plena Segunda Guerra Mundial.
Um recruta rejeitado que virou agente da Abwehr
Em junho de 1940, Jakobs foi convocado para a Wehrmacht com a patente de Oberleutnant (primeiro-tenente). Mas quando os militares descobriram sua passagem pela prisão suíça por falsificação de ouro, ele foi rebaixado a Feldwebel — um posto de sargento — e alocado no serviço meteorológico do exército. Pouco depois, alguém enxergou potencial nele para algo mais delicado: a Abwehr, o serviço de inteligência militar alemão, o recrutou como espião.
Em setembro de 1940, Jakobs foi para Hamburgo treinar sob a supervisão de um instrutor identificado como “Dr. Beier” (na verdade o capitão Julius Jacob Boeckel), sob o comando do espião-mestre Nikolaus Ritter. Foi lá que ele se apaixonou por Clara Bauerle, cantora da orquestra de Bernhard Ette, que havia morado alguns anos na região de Birmingham e falava inglês com sotaque local — qualidade valiosa o suficiente para torná-la também candidata a espiã. O plano era que ela se juntasse a Jakobs na Inglaterra assim que ele estabelecesse contato de rádio.
Numa das visitas de fim de semana à família em Berlim, Jakobs cometeu um deslize perigoso: contou a um “amigo” que pretendia usar a missão na Inglaterra como desculpa para fugir para os Estados Unidos, onde tinha uma tia. O amigo o denunciou à Gestapo. Ainda assim, a Abwehr decidiu que ele continuava sendo material de espião aproveitável e, em 8 de janeiro de 1941, mandou-o para Haia treinar transmissão e recepção em código Morse.
Uma queda de paraquedas desastrada em um campo de batatas
Na noite de 31 de janeiro de 1941, Jakobs decolou do aeroporto de Schiphol, perto de Amsterdã, no compartimento de um bombardeiro alemão — provavelmente um Heinkel 111 — rumo à Inglaterra. Saltou por volta das 20h30 e, ao se espremer pela escotilha estreita da aeronave, machucou o tornozelo. Nunca tinha praticado um salto de paraquedas antes, e a aterrissagem só piorou a lesão: ele caiu em uma plantação de batatas perto da Dovehouse Farm, próxima à cidade de Ramsey, em Huntingdonshire (atual Cambridgeshire), com o tornozelo fraturado.
Sem conseguir andar, Jakobs se cobriu com o próprio paraquedas e passou a noite ali, fumando os cigarros que carregava e entrando e saindo de consciência por causa da dor. Por volta das 8h30 da manhã seguinte, disparou tiros para o alto com sua pistola Mauser na esperança de chamar atenção — o que funcionou rápido demais para o seu próprio bem. Dois trabalhadores rurais, Charles Baldock e Harry Coulson, ouviram os disparos e o encontraram. Enquanto Baldock ficava de vigia, Coulson correu para avisar Harry Godfrey, membro da Guarda Territorial (Home Guard) de Ramsey, que por sua vez acionou a polícia local.
Revistado pelos homens da Home Guard, Jakobs tinha em posse um verdadeiro kit de espionagem: um rádio transmissor parcialmente enterrado no solo sob seu corpo, cerca de £497 em notas de £1, documentos de identidade falsos (um deles em nome de “James Rymer”), um caderno de racionamento, comprimidos misteriosos (possivelmente para tinta invisível), uma lanterna, um dicionário alemão-inglês, um mapa rodoviário da Grã-Bretanha, 2,5 quilos de chocolate e até uma linguiça alemã. Também carregava uma fotografia de Clara Bauerle, sua amada em Hamburgo. Levado numa carroça puxada a cavalo até a delegacia de Ramsey, foi examinado por um médico local, que confirmou a fratura no tornozelo mas o considerou apto para ser transportado a Londres.
Interrogatórios, o sistema Double Cross e dois meses de hospital
Em Londres, Jakobs foi levado à delegacia de Cannon Row, onde prestou depoimento voluntário ao major Thomas A. Robertson, do MI5. No dia seguinte, apesar do tornozelo fraturado, foi levado a Camp 020 — o centro de interrogatório de espiões capturados, também conhecido como Latchmere House — para um interrogatório rápido do temido tenente-coronel Robin Stephens. Mas seu estado físico exigia atenção médica séria: Jakobs passou os dois meses seguintes internado no Hospital de Dulwich, desenvolvendo febre, uma infecção no local da fratura e pneumonia.
Curiosamente, a captura de Jakobs não foi surpresa para os britânicos. O MI5 já sabia da sua chegada porque o agente duplo Arthur Owens — nacionalista galês que trabalhava, ao mesmo tempo, para a Abwehr e para os britânicos dentro do chamado sistema Double Cross (“Cruz Dupla”) — havia repassado a informação com antecedência. Esse sistema, que permitia à inteligência britânica controlar e manipular praticamente toda a rede de espiões alemães infiltrados no Reino Unido, foi peça-chave para o sucesso de operações de desinformação que ajudariam, anos depois, a mascarar os planos do Dia D.
Como sua captura já tinha sido amplamente divulgada, Jakobs não reunia condições de se tornar um agente duplo. Ainda assim, o MI5 aproveitou sua colaboração para “quebrar” outro espião alemão recém-capturado, Karel Richter. Depois de receber alta do hospital, em abril, Jakobs foi levado de volta a Latchmere House, onde passou meses prestando depoimentos escritos sobre sua vida e sua missão.
Corte marcial: por que ele foi fuzilado, e não enforcado
A lei de traição britânica de 1940 (Treachery Act) previa que estrangeiros neutros e cidadãos britânicos condenados por espionagem fossem julgados em tribunal civil, com júri, e enforcados — geralmente pelas mãos do carrasco mais famoso da época, Albert Pierrepoint. Mas espiões que fossem cidadãos de países inimigos, e sobretudo membros das forças armadas inimigas, podiam ser julgados por corte marcial militar. Como Jakobs era cidadão alemão, ex-oficial do exército e não tinha cúmplices britânicos ou neutros, o MI5 e a Promotoria decidiram que ele seria julgado por corte marcial — o que definiria também sua forma de execução: fuzilamento, e não a forca.
O julgamento aconteceu em 4 e 5 de agosto de 1941, na sede do Duke of York’s Headquarters, em Chelsea, e foi conduzido em sigilo para não expor o funcionamento do sistema Double Cross. Depois de dois dias ouvindo o depoimento de oito testemunhas, o tribunal — presidido pelo juiz-advogado Carl Ludwig Stirling — deliberou por apenas dez minutos antes de declarar Jakobs culpado, por volta do meio-dia de 5 de agosto. Três dias depois, da prisão de Wandsworth, ele escreveu uma carta de apelo ao rei George VI pedindo clemência. O pedido foi negado.
Os últimos minutos na Torre de Londres
Na madrugada de sexta-feira, 15 de agosto de 1941, Jakobs deixou Wandsworth acompanhado de escolta militar e do padre Edward Jackson Griffith, capelão que só conseguira autorização para acompanhá-lo depois de meses de troca de cartas entre o bispo das forças armadas e o MI5. Um médico da Torre ofereceu-lhe um sedativo antes da execução; Jakobs recusou a princípio, mas acabou aceitando.
Ele foi levado ao pequeno campo de tiro instalado entre as muralhas interna e externa da Torre — o mesmo local onde espiões da Primeira Guerra Mundial já haviam sido fuzilados antes dele. Por causa do tornozelo, que nunca havia se recuperado totalmente, Jakobs foi sentado e amarrado a uma cadeira de estilo Windsor, com um alvo de algodão branco do tamanho de uma caixa de fósforos afixado sobre o coração e um capuz preto cobrindo seu rosto. Um pelotão de oito soldados do batalhão de reserva dos Scots Guards, empunhando fuzis Lee-Enfield calibre .303, aguardava o sinal silencioso do tenente-coronel C. R. Gerard, vice-marechal-provedor de Londres.
Segundo relatos, as últimas palavras de Jakobs foram dirigidas ao próprio pelotão: “Atirem certo, Tommies” — usando o apelido popular para os soldados britânicos. Os disparos, às 7h12 da manhã, o mataram instantaneamente. Como de praxe nesse tipo de execução, três dos oito fuzis haviam sido carregados apenas com munição de festim, para que nenhum atirador soubesse ao certo se havia disparado o tiro fatal — ainda assim, a autópsia, conduzida pelo renomado legista Sir Bernard Spilsbury, encontrou uma bala no coração e outras quatro na região do alvo. Josef Jakobs foi o último ser humano executado dentro dos muros da Torre de Londres.
Uma sepultura sem nome e uma carta guardada por 52 anos
Três dias depois da execução, em 18 de agosto, o corpo de Jakobs foi enterrado no Cemitério Católico de St. Mary’s, em Kensal Green, Londres, numa vala comum sem identificação — o local seria reaproveitado décadas depois, o que torna praticamente impossível localizar o túmulo original hoje. Na véspera da morte, Jakobs havia escrito uma última carta à família, destinada a ser entregue somente após o fim da guerra. O MI5, porém, manteve o documento arquivado em sigilo por muito mais tempo: só em 1993, 52 anos depois, a carta foi finalmente entregue às netas de Jakobs.
Há ainda um capítulo à parte na história: por décadas, especulou-se que Clara Bauerle, a cantora amada de Jakobs, pudesse ser a mulher não identificada cujo esqueleto foi encontrado dentro de um olmo oco em Hagley Wood, na Inglaterra, em 1943 — o famoso mistério que ficou conhecido como “Bella in the Wych Elm”. A teoria caiu por terra em 2016, quando pesquisadores descobriram registros mostrando que Clara Bauerle havia morrido em um hospital de Berlim em 16 de dezembro de 1942, longe da Inglaterra que ela nunca chegou a pisar como espiã.
Curiosidades rápidas
- Entre 1914 e 1941, onze homens foram executados dentro da Torre de Londres, todos condenados por espionagem contra o Reino Unido; Jakobs foi o último deles.
- O campo de tiro usado nas execuções ficava entre as torres Constable e Martin; foi demolido nos anos 1970 e hoje o local abriga um estacionamento coberto.
- Diferente dos demais espiões alemães capturados na Segunda Guerra Mundial — quase todos julgados em tribunal civil e enforcados por Albert Pierrepoint —, Jakobs foi o único fuzilado, por ter sido julgado em corte marcial como membro das forças armadas inimigas.
- Entre os pertences apreendidos com Jakobs estavam 2,5 quilos de chocolate, uma linguiça alemã e um mapa turístico da Grã-Bretanha — itens que hoje soam quase cômicos para o equipamento de um espião em missão.
- A Torre de Londres nunca foi oficialmente uma prisão: é um palácio real e fortaleza. Por isso, apesar de anos de rumores, os relatos de testemunhas confirmam que Jakobs passou sua última noite na prisão de Wandsworth, não na Torre.
Gustavo Santos
Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.