A foto que provou a antimatéria: o pósitron de Carl Anderson
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A foto que provou a antimatéria: o pósitron de Carl Anderson

2 de agosto, 2026 Gustavo Santos

Em 2 de agosto de 1932, dentro de um porão do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), um físico de 26 anos chamado Carl David Anderson revelou uma chapa fotográfica e viu algo que não deveria existir. Um traço curvo, fino como um fio de cabelo, cruzava a imagem — a assinatura de uma partícula subatômica com a massa exata de um elétron, mas com carga elétrica positiva. Não era um erro de câmara, nem um artefato do equipamento. Era a primeira prova experimental de que o universo tem um espelho: a antimatéria. Anderson não estava caçando essa descoberta — ele só queria medir a energia de partículas vindas do espaço. Acabou ganhando o Nobel de Física com 31 anos, o mais jovem da história até então, por tropeçar em uma das ideias mais estranhas e importantes da física do século XX.

Um caçador de raios cósmicos em Pasadena

Carl Anderson nasceu em Nova York em 1905, filho de imigrantes suecos, e cresceu na Califórnia. Formou-se em engenharia física no Caltech em 1927 e seguiu direto para o doutorado, orientado por Robert Millikan — o mesmo Millikan que havia recebido o Nobel de 1923 por medir a carga do elétron e que, alguns anos antes, cunhara o termo “raios cósmicos” para descrever a radiação de altíssima energia que bombardeia a Terra vinda do espaço sideral.

Millikan queria entender a natureza dessa radiação, e Anderson foi encarregado de construir uma câmara de nuvens equipada com um eletroímã gigantesco, capaz de gerar um campo magnético cerca de 24 mil vezes mais forte que o da Terra. A ideia era simples no papel: quando uma partícula carregada atravessa uma câmara de nuvens (um recipiente cheio de vapor supersaturado), ela deixa um rastro de gotículas condensadas, como o rastro de um avião no céu. Se há um campo magnético por perto, esse rastro se curva — e o sentido e o raio da curva revelam duas coisas cruciais: a carga elétrica da partícula (positiva ou negativa) e sua quantidade de movimento.

Anderson passou boa parte de 1931 e 1932 fotografando milhares desses rastros, catalogando partículas produzidas quando os raios cósmicos colidiam com átomos na atmosfera. O trabalho era artesanal e repetitivo: a câmara de nuvens só registrava uma imagem útil a cada expansão do vapor, então Anderson precisava disparar o mecanismo repetidamente, revelar as chapas fotográficas e examinar cada trilha à mão, medindo curvaturas com régua e lupa sobre a mesa do laboratório. Foram milhares de fotografias analisadas uma a uma antes de qualquer coisa fora do comum aparecer — até ele notar que uma fração das trilhas positivas simplesmente não se encaixava no que deveriam ser: prótons.

A equação que incomodou até seu próprio autor

Para entender por que aquilo era chocante, é preciso voltar a 1928, quando o físico britânico Paul Dirac publicou uma equação que unia a mecânica quântica à relatividade especial para descrever o comportamento do elétron. A chamada equação de Dirac funcionava lindamente — exceto por um detalhe incômodo: ela admitia duas soluções matemáticas para a energia de um elétron, uma positiva e outra negativa. Soluções de energia negativa costumam ser descartadas como artefatos matemáticos sem sentido físico. Dirac, no entanto, não conseguiu simplesmente jogá-las fora.

A primeira tentativa de Dirac para dar sentido físico a essas soluções “impossíveis” foi a chamada teoria do “mar de Dirac”: a ideia de que todo o espaço vazio estaria, na verdade, preenchido por um mar infinito de elétrons ocupando todos os estados de energia negativa possíveis, invisível justamente porque está completamente preenchido. Uma lacuna nesse mar — um “buraco” deixado por um elétron ausente — se comportaria como uma partícula com a mesma massa do elétron, porém com carga positiva. Por um tempo, Dirac chegou a especular que esse buraco poderia ser simplesmente o próton, já conhecido. A conta não fechava: um buraco no mar deveria ter exatamente a mesma massa do elétron, e o próton é quase dois mil vezes mais pesado. Diante do impasse, Dirac propôs, em 1931, algo mais radical: deveria existir uma partícula gêmea do elétron, com exatamente a mesma massa, mas carga oposta — um “anti-elétron”. A proposta soou como especulação matemática exótica para a maioria dos físicos da época. O próprio Dirac reconheceria depois que hesitou em levar a ideia a sério publicamente, e nomes como Niels Bohr, uma das maiores autoridades da física quântica, receberam a sugestão com ceticismo. Faltava uma coisa que a teoria sozinha não podia dar: uma prova experimental. Anderson, do outro lado do Atlântico, nem sequer estava pensando em Dirac quando viu suas próprias fotografias — ele chegaria à mesma conclusão pela via oposta, partindo pura e simplesmente da observação.

Uma trilha que não deveria existir

O problema com as fotografias de Anderson era o seguinte: pela curvatura observada em algumas trilhas positivas, a partícula responsável tinha uma massa próxima à do elétron — quase dois mil vezes menor que a de um próton. Um próton com aquele raio de curvatura teria perdido energia muito mais rapidamente e deixado um rastro bem mais curto e mais denso de gotículas, por causa de sua massa muito maior. As trilhas que Anderson via eram longas e finas, exatamente como se esperaria de uma partícula leve — só que curvando para o lado “errado”, o lado que um campo magnético reserva para cargas positivas.

Havia uma saída óbvia (e mais tranquilizadora) para o enigma: talvez aquelas trilhas fossem, na verdade, de elétrons comuns — só que viajando na direção oposta à que Anderson vinha assumindo. Sem saber se a partícula entrava ou saía da câmara em determinado ponto, a mesma curva podia ser lida de duas formas opostas, uma implicando carga negativa, outra positiva. Era uma ambiguidade capaz de arruinar qualquer alegação de descoberta.

A placa de chumbo que resolveu o mistério

Para eliminar essa ambiguidade, Anderson teve uma ideia simples e engenhosa: instalou uma placa de chumbo de 6 milímetros de espessura atravessando o meio da câmara de nuvens. Uma partícula que cruzasse essa placa perderia energia de forma previsível — e, com menos energia, sua trajetória se curvaria mais fortemente do lado onde a energia era menor. Isso permitia, finalmente, determinar sem ambiguidade em qual sentido a partícula estava se movendo: bastava ver de que lado da placa a curva era mais acentuada.

Foi com esse arranjo que, em 2 de agosto de 1932, Anderson capturou a fotografia que se tornaria icônica. Nela, uma trilha entra pela parte inferior da câmara, atravessa a placa de chumbo e sai visivelmente mais curvada do outro lado — prova inequívoca de que a partícula estava se movendo de baixo para cima, perdendo energia ao atravessar o metal, e curvando na direção correspondente a uma carga positiva. A energia da partícula antes da placa (cerca de 63 milhões de elétron-volts) e depois dela (cerca de 23 milhões) eram consistentes com uma partícula de massa igual à do elétron. Não havia mais como explicar aquilo como um elétron comum viajando na direção “certa”. Anderson tinha diante de si uma partícula nova.

Ele publicou um primeiro relato preliminar na revista Science em setembro de 1932 e, alguns meses depois, em 1933, um artigo mais detalhado na Physical Review, batizando formalmente a partícula. O nome “pósitron” — uma contração de “positive electron” — teria sido sugerido por um editor da revista, e pegou rapidamente entre os físicos.

Ceticismo, uma corrida em Cambridge e a confirmação

A comunidade científica não aceitou a descoberta de imediato. Fotografias de câmara de nuvens podiam, em tese, esconder erros sutis de interpretação, e a ideia de uma partícula de antimatéria continuava soando estranha demais para ser aceita com base em uma única imagem, por mais convincente que fosse. Do outro lado do Atlântico, em Cambridge, os físicos Patrick Blackett e Giuseppe Occhialini vinham conduzindo experimentos parecidos com câmaras de nuvens acionadas por contadores Geiger, o que lhes permitia capturar um número muito maior de eventos do que Anderson conseguia com seu método de disparos aleatórios.

Em poucos meses, Blackett e Occhialini reuniram dezenas de trilhas de pósitrons, confirmaram de forma independente e estatisticamente robusta a existência da partícula e, crucialmente, conectaram a descoberta diretamente à previsão teórica de Dirac de 1931 — algo que o próprio Anderson, menos familiarizado com a física teórica de ponta na época, não havia feito de imediato. A dupla britânica publicou seus resultados também em 1933, e a partir daí a existência do pósitron — e, por extensão, da antimatéria como fenômeno real da natureza — deixou de ser contestada. Décadas depois, Occhialini frequentemente comentaria, sem amargura, que a prioridade histórica da descoberta pertencia a Anderson, mesmo que o trabalho de Cambridge tenha sido decisivo para convencer o resto da física.

Há um detalhe irônico nessa corrida: Anderson soube da hipótese teórica de Dirac só depois de já ter fotografado a partícula, e inicialmente resistiu a associar sua descoberta experimental à especulação do físico britânico, preferindo deixar a interpretação teórica em aberto em seu primeiro artigo. Foi só com a confirmação de Cambridge, que amarrou explicitamente observação e teoria, que a comunidade científica passou a tratar o episódio como uma vitória conjunta: Dirac havia previsto matematicamente algo que a natureza, de fato, continha, e dois grupos experimentais em continentes diferentes o haviam flagrado de forma independente.

Em 1933, o próprio Dirac reconheceria publicamente, em sua palestra de aceitação do Nobel daquele ano (dividido com Erwin Schrödinger), que a existência do pósitron confirmava sua teoria de forma direta — um dos raros casos na história da física em que uma previsão puramente matemática, considerada extravagante até por parte da comunidade, encontrou sua contraparte física poucos anos depois.

O físico mais jovem a vencer um Nobel

Em 1936, apenas quatro anos após aquela fotografia, a Academia Real das Ciências da Suécia concedeu a Carl Anderson o Prêmio Nobel de Física — dividido com Victor Hess, o físico austríaco que havia descoberto os próprios raios cósmicos em 1912 durante voos de balão. Anderson tinha 31 anos, tornando-se até então o laureado mais jovem da história do Nobel de Física, recorde que ficaria de pé por décadas.

Anderson não parou no pósitron. Em 1936, junto com seu aluno de doutorado Seth Neddermeyer, ele identificou nas mesmas câmaras de nuvens outra partícula até então desconhecida: o múon, uma espécie de “primo pesado” do elétron, cuja existência tanto intrigou os físicos da época que um deles, Isidor Isaac Rabi, teria reagido com a famosa frase “Quem encomendou isso?”. Anderson passaria o restante da carreira no Caltech, onde havia se formado, permanecendo praticamente toda sua vida acadêmica ligado à mesma instituição.

Da câmara de nuvens aos hospitais

A descoberta de 1932 não ficou confinada aos livros de física teórica. Hoje, o pósitron tem uma presença bastante concreta no dia a dia da medicina: a tomografia por emissão de pósitrons, ou PET (das iniciais em inglês), usa substâncias radioativas que emitem pósitrons dentro do corpo do paciente. Quando um desses pósitrons encontra um elétron do tecido, os dois se aniquilam mutuamente, liberando um par de raios gama que os detectores do aparelho conseguem localizar com precisão — permitindo mapear atividade metabólica em tumores, no cérebro e no coração muito antes que mudanças estruturais apareçam em uma radiografia comum.

No campo da física fundamental, a antimatéria também segue rendendo perguntas em aberto. A teoria prevê que o Big Bang deveria ter produzido quantidades praticamente iguais de matéria e antimatéria, que se aniquilariam mutuamente e não deixariam quase nada para trás. O fato de vivermos num universo dominado quase inteiramente por matéria comum — com muito pouca antimatéria natural sobrando — é um dos maiores mistérios não resolvidos da cosmologia. Experimentos atuais no CERN, como o ALPHA, seguem os passos indiretos de Anderson: produzem e capturam átomos de antihidrogênio em armadilhas magnéticas para comparar suas propriedades com as do hidrogênio comum, em busca de qualquer diferença sutil que explique por que o “espelho” do universo é tão desequilibrado.

Curiosidades rápidas

  • Anderson descobriu o pósitron sem estar procurando por antimatéria — seu objetivo original era medir a energia de partículas produzidas por raios cósmicos.
  • A imagem de 2 de agosto de 1932 mostra a trilha perdendo energia de cerca de 63 milhões para 23 milhões de elétron-volts ao atravessar a placa de chumbo de 6 mm.
  • Com 31 anos, Anderson se tornou o laureado mais jovem da história do Nobel de Física até então.
  • O nome “pósitron” foi sugerido por um editor da revista Physical Review, onde Anderson publicou seu artigo definitivo em 1933.
  • Anderson também descobriu o múon em 1936, ao lado de Seth Neddermeyer, outra partícula que intrigou os físicos da época.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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