A noite em que uma bandeira cruzou o Atlântico via satélite
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A noite em que uma bandeira cruzou o Atlântico via satélite

11 de julho, 2026 Gustavo Santos

Às 19h31 de 11 de julho de 1962, uma bandeira dos Estados Unidos hasteada no meio do mato, no interior do estado americano do Maine, apareceu numa tela de televisão a mais de 5 mil quilômetros dali, na Bretanha francesa. Não havia locutor, não havia plateia, não havia nem sequer aviso prévio à imprensa. Era só uma imagem de teste, transmitida por um satélite do tamanho de uma bola de praia grande que tinha sido lançado ao espaço apenas 24 horas antes. Mas aquele instante discreto, quase burocrático, foi o primeiro sinal de televisão da história a cruzar o Atlântico sem fios, cabos ou torres de retransmissão — e abriu caminho para o mundo conectado que conhecemos hoje.

Uma ideia que já rondava havia quase duas décadas

A possibilidade de usar satélites para comunicação não era exatamente nova em 1962. Já em outubro de 1945, o então jovem oficial da RAF e futuro escritor de ficção científica Arthur C. Clarke havia publicado, na revista britânica Wireless World, um artigo técnico propondo o uso de satélites em órbita geoestacionária para retransmitir sinais de rádio ao redor do planeta. A ideia ficou circulando no meio científico por mais de uma década, sem sair do papel.

O empurrão decisivo veio de fora do laboratório: em outubro de 1957, a União Soviética lançou o Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da história, e disparou a corrida espacial entre soviéticos e americanos. Diante do temor de ficarem para trás também nas comunicações, a Bell Labs (o braço de pesquisa da gigante de telefonia AT&T), a NASA e os correios estatais da França e do Reino Unido uniram forças para construir e lançar um satélite de comunicações experimental batizado de Telstar.

Um satélite pequeno para uma tarefa gigantesca

O Telstar 1 era modesto em tamanho: uma esfera de 88 centímetros de diâmetro e cerca de 77 quilos, coberta de células solares que geravam apenas 14 watts de energia — menos que uma lâmpada comum. Ele foi lançado em 10 de julho de 1962 a bordo de um foguete Delta, a partir da Base da Força Aérea de Cabo Canaveral, na Flórida, e entrou numa órbita elíptica que o levava de 952 km a quase 5.933 km de altitude, completando uma volta ao redor da Terra a cada 2 horas e 37 minutos.

Para captar e devolver os sinais captados pelo satélite, a AT&T havia construído em Andover, no estado do Maine, uma antena em forma de corneta com sete andares de altura e 340 toneladas, protegida por uma cúpula inflável de Dacron com 49 metros de altura. Do outro lado do oceano, em Pleumeur-Bodou, na região francesa da Bretanha, os engenheiros haviam erguido uma instalação equivalente. O projeto todo, segundo um memorando da época enviado ao Senado americano, custou cerca de 50 milhões de dólares — uma fortuna para os padrões de 1962.

A noite em que a bandeira atravessou o oceano

Na noite de 11 de julho de 1962, um dia depois do lançamento, as equipes de Andover e Pleumeur-Bodou se prepararam para o primeiro teste real de transmissão de imagem. Às 19h17 (horário local do Maine), um operador anunciou pelo rádio: “Adquirimos o Telstar!” — o satélite havia sido localizado e travado pela antena. Catorze minutos depois, às 19h31, uma bandeira americana hasteada do lado de fora da estação de Andover apareceu na tela de monitoramento. Às 19h47, veio a confirmação que todos esperavam: os engenheiros na França haviam recebido a mesma imagem, praticamente em tempo real.

Não era uma transmissão pública — não havia câmeras de TV, comentaristas ou audiência em casa assistindo. Era um teste técnico, quase anticlimático diante da magnitude do que representava. Mas, pela primeira vez na história, uma imagem de vídeo havia cruzado o Atlântico por sinal de satélite, sem depender de nenhum cabo submarino.

Doze dias depois, o mundo inteiro assiste

A transmissão pública, essa sim badalada e coberta pela imprensa, aconteceu quase duas semanas depois, em 23 de julho de 1962, às 15h (horário de Nova York). A Eurovisão levou o sinal a telespectadores europeus, enquanto nos Estados Unidos as redes NBC, CBS, ABC e a canadense CBC exibiram simultaneamente as primeiras imagens ao vivo vindas do outro lado do oceano: a Estátua da Liberdade, em Nova York, e a Torre Eiffel, em Paris.

Curiosamente, a primeira imagem humana que deveria abrir a transmissão seria a do presidente John F. Kennedy, mas ele não estava pronto a tempo diante das câmeras. Coube então ao jogador de beisebol Ernie Banks, do Chicago Cubs, capturado em pleno jogo, entrar para a história como o primeiro rosto humano transmitido ao vivo por satélite. Naquela mesma noite, o Telstar também retransmitiu a primeira ligação telefônica via satélite da história, entre o vice-presidente americano Lyndon Johnson e o presidente da AT&T, Frederick Kappel.

Um satélite condenado antes mesmo de decolar

A parte mais irônica da história do Telstar só ficaria clara meses depois. No dia 9 de julho de 1962 — um dia antes do lançamento do satélite —, os Estados Unidos haviam detonado, a 400 km de altitude sobre o Pacífico, uma bomba nuclear de 1,4 megaton num teste batizado de Starfish Prime. A explosão intensificou artificialmente os cinturões de radiação Van Allen que envolvem a Terra, e o Telstar passou a atravessá-los repetidamente a cada órbita.

A radiação extra corroeu lentamente os transistores dos circuitos do satélite. Já em novembro de 1962 seu canal de comando começou a falhar, e em 21 de fevereiro de 1963 o Telstar 1 parou de responder para sempre, depois de pouco mais de sete meses de operação — mas não sem antes processar mais de 400 transmissões telefônicas, de fax, telegráficas e de televisão. O satélite, tecnicamente morto, continua até hoje orbitando silenciosamente a Terra.

Curiosidades rápidas

  • O Telstar 1 pesava cerca de 77 kg e media apenas 88 cm de diâmetro — do tamanho de uma bola de praia grande.
  • O projeto custou por volta de 50 milhões de dólares, somando as antenas nos EUA, na França e no Reino Unido.
  • A antena de Andover, no Maine, tinha sete andares de altura e pesava 340 toneladas.
  • A ideia de satélites de comunicação havia sido proposta 17 anos antes, em 1945, pelo escritor Arthur C. Clarke.
  • Mesmo desativado desde 1963, o Telstar 1 ainda está em órbita ao redor da Terra até hoje.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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