O Vasa: o navio de guerra sueco que afundou em 20 minutos
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O Vasa: o navio de guerra sueco que afundou em 20 minutos

10 de julho, 2026 Gustavo Santos

Em 10 de agosto de 1628, milhares de moradores de Estocolmo se aglomeraram nas margens do porto para ver zarpar o navio mais poderoso que a Suécia já havia construído. O Vasa era um colosso de 69 metros de comprimento, coberto por quase 500 esculturas douradas e armado com 64 canhões de bronze — a maior concentração de artilharia já reunida num único navio no norte da Europa até então. Ele navegou pouco mais de 1.300 metros. Uma rajada de vento o derrubou de lado, a água invadiu os canhões abertos e, em poucos minutos, o orgulho da frota sueca estava no fundo do mar, levando cerca de 30 pessoas com ele.

Um rei impaciente numa guerra cara

O Vasa nasceu da ambição do rei Gustavo II Adolfo, que travava guerra contra a Polônia-Lituânia desde 1621 e via com apreensão o avanço da Guerra dos Trinta Anos na Alemanha vizinha. A marinha sueca vinha de uma sequência de desastres: em 1625, dez navios haviam naufragado numa tempestade na Baía de Riga; em 1627, dois grandes navios foram perdidos para os poloneses na Batalha de Oliwa. Decidido a projetar força no Báltico, o rei encomendou uma nova classe de navios com dois conveses completos de canhões — um salto ousado em relação às embarcações suecas anteriores, mais simples e de conveses únicos.

O construtor que nunca viu sua obra pronta

O contrato de construção foi assinado em janeiro de 1625 com o mestre naval holandês Henrik Hybertsson, que começou a comprar madeira da Suécia, de Riga e de Königsberg. Hybertsson adoeceu ainda em 1625 e, por volta de 1626, já havia repassado a supervisão do estaleiro a outro construtor holandês, Henrik “Hein” Jacobsson. Ele morreu na primavera de 1627, provavelmente por volta da época em que o casco foi lançado à água — sem jamais ver o navio terminado. Um detalhe curioso descoberto por arqueólogos séculos depois ajuda a explicar por que o Vasa ficou torto: os operários do estaleiro usavam dois sistemas de medida diferentes, o pé sueco (29,69 cm) e o pé de Amsterdã (28,31 cm), cada equipe trabalhando de um lado do casco. O resultado foi um navio mais pesado de bombordo do que de boreste.

O teste que quase evitou a tragédia

No verão de 1628, o capitão Söfring Hansson organizou uma demonstração de estabilidade para o vice-almirante Klas Fleming, recém-chegado da Prússia. Trinta homens correram de um lado a outro do convés superior para fazer o navio balançar. Bastaram três idas e vindas para Fleming, temendo que o Vasa virasse ali mesmo, ordenar que o teste parasse. Segundo o depoimento do mestre do navio, Göran Mattson, o próprio Fleming comentou que gostaria que o rei estivesse por perto para ver aquilo. Gustavo Adolfo, no entanto, estava fazendo campanha na Polônia e vinha enviando uma sequência de cartas exigindo que o navio partisse o quanto antes. Ninguém teve coragem política de adiar a viagem.

Vinte minutos até o fundo do porto

No dia da partida, o vento era fraco, apenas uma brisa de sudoeste. O Vasa foi rebocado ao longo da orla e, ao içar quatro velas, ganhou um pouco de força para leste com as portinholas dos canhões abertas para disparar uma salva de despedida. Ao passar pelas falésias na saída do porto, uma rajada mais forte inclinou o navio para bombordo — inclinação da qual ele não conseguiu se recuperar. A água entrou pelas portinholas dos canhões inferiores, encheu rapidamente o porão e o Vasa afundou a 32 metros de profundidade, à vista de toda a multidão que tinha ido assisti-lo zarpar.

Um inquérito sem culpados

O Conselho Privado sueco enviou uma carta ao rei no dia seguinte ao desastre, mas ela levou mais de duas semanas para chegar até ele na Polônia. Furioso, Gustavo Adolfo exigiu que os responsáveis fossem punidos. Um tribunal foi montado, capitães e carpinteiros foram interrogados — “por que vocês construíram o navio tão estreito, tão mal feito, sem fundo suficiente, que ele virou?”, perguntou o promotor ao construtor Jacobsson. Ninguém foi condenado. O rei havia aprovado pessoalmente todas as medidas e o número de canhões, e o navio fora construído exatamente como ordenado. A culpa, na prática, recaiu sobre Henrik Hybertsson — que já estava morto havia um ano.

Trezentos e trinta e três anos no fundo do mar

O Vasa foi parcialmente saqueado por mergulhadores já na década de 1660, que recuperaram a maioria dos valiosos canhões de bronze usando um sino de mergulho rudimentar, e depois caiu no esquecimento. Foi o engenheiro e arqueólogo amador Anders Franzén quem, no início dos anos 1950, teve o insight decisivo: as águas frias e pouco salgadas do Báltico não abrigam o Teredo navalis, o verme que costuma devorar madeira submersa em mares mais quentes e salgados. Isso significava que naufrágios antigos ali poderiam estar excepcionalmente bem conservados. Depois de anos vasculhando o porto de Estocolmo com uma sonda caseira, Franzén localizou o casco em 1956. Entre as ideias cogitadas para o resgate estava encher o navio de bolinhas de pingue-pongue e congelá-lo num bloco de gelo — descartada em favor de um método mais convencional: mergulhadores cavaram seis túneis sob o casco na lama, em mais de 1.300 mergulhos, sem um único acidente grave, para passar cabos de aço ligados a pontões. Em 24 de abril de 1961, o Vasa voltou à superfície diante de 400 convidados e milhares de espectadores, praticamente intacto depois de 333 anos debaixo d’água.

Curiosidades rápidas

  • O Vasa carregava quase 500 esculturas de madeira, incluindo um leão de 3 metros na proa e retratos do próprio rei Gustavo Adolfo.
  • Dos cerca de 150 tripulantes e passageiros a bordo na viagem inaugural, aproximadamente 30 morreram afogados.
  • Na noite anterior ao resgate final em 1961, estudantes finlandeses colocaram de brincadeira uma estátua do corredor Paavo Nurmi entre os destroços, encontrada pelos arqueólogos.
  • Hoje o Vasa é o navio do século XVII mais bem preservado do mundo e já recebeu mais de 45 milhões de visitantes no museu construído especialmente para abrigá-lo em Estocolmo.
  • Um navio irmão, o Äpplet, construído logo depois com o casco cerca de um metro mais largo para corrigir o problema de estabilidade, foi encontrado nos destroços em dezembro de 2021.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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