A profecia que fez os xhosas matarem 400 mil cabeças de gado
Em abril de 1856, uma menina de cerca de 15 anos chamada Nongqawuse saiu para espantar pássaros das plantações de seu tio, perto da foz do rio Gxarha, no que hoje é a província do Cabo Oriental, na África do Sul. Ela voltou dizendo ter conversado com espíritos de ancestrais mortos. O que começou como o relato de uma adolescente órfã terminaria, quinze meses depois, com centenas de milhares de cabeças de gado abatidas, dezenas de milhares de pessoas mortas de fome e a destruição definitiva da independência do povo xhosa diante do avanço colonial britânico. É uma das histórias mais devastadoras — e menos conhecidas fora da África do Sul — do século XIX.
Uma menina, um tio visionário e dois espíritos à beira-rio
Nongqawuse havia perdido os pais ainda criança, durante a Oitava Guerra da Fronteira (1850-1853), um dos muitos confrontos entre o Reino Xhosa e a Colônia do Cabo britânica pelo controle de terras na fronteira oriental. Órfã, foi criada pelo tio, Mhlakaza, um homem com trajetória incomum: havia deixado as terras xhosas ainda jovem, passado um tempo dentro da Colônia do Cabo, onde teve contato com o cristianismo, e retornado por volta de 1853 como conselheiro espiritual próximo do rei Sarhili kaHintsa, líder do clã Gcaleka e principal autoridade xhosa da época.
Foi nesse contexto que Nongqawuse, acompanhada de uma amiga bem mais nova, Nombanda, alegou ter encontrado dois estranhos junto ao rio que se identificaram como espíritos de ancestrais. Segundo o relato que ela levou ao tio, os espíritos deram instruções precisas: todo o gado vivo deveria ser abatido, porque havia sido criado por “mãos contaminadas”; as plantações deveriam ser destruídas; novos celeiros e currais precisariam ser construídos; portas deveriam ser tecidas com raízes de uma planta chamada buka; e o povo deveria abandonar feitiçaria, incesto e adultério. Em troca dessa purificação completa, prometiam os espíritos, os mortos ressuscitariam, novos rebanhos — mais saudáveis e numerosos — encheriam os currais, os celeiros voltariam a transbordar de grãos, e os colonos europeus seriam varridos para o mar.
Mhlakaza, a princípio cético, mudou de posição quando Nongqawuse descreveu um dos espíritos com detalhes que ele reconheceu como os de seu próprio irmão morto. Convencido, levou a profecia ao rei Sarhili, que também acabou aderindo. A partir do círculo mais próximo do trono Gcaleka, a mensagem se espalhou rapidamente por praticamente toda a nação xhosa.
Um povo já ferido pela guerra e por uma peste no gado
A profecia não caiu num vácuo. Os xhosas viviam um momento de enorme pressão: haviam acabado de perder a Oitava Guerra da Fronteira, cedendo território para colonos brancos que avançavam a partir da Colônia do Cabo. Ao mesmo tempo, boa parte dos rebanhos — a principal forma de riqueza, status social e subsistência entre os xhosas — estava sendo dizimada por uma doença real e bem documentada, a pleuropneumonia bovina contagiosa, conhecida na época como “doença do pulmão”, possivelmente introduzida pelo gado importado pelos próprios colonos europeus.
Esse pano de fundo ajuda a explicar por que uma promessa de renovação total — novo gado saudável, fartura, expulsão dos invasores — encontrou terreno tão fértil. Historiadores como Jeffrey Peires, autor do estudo de referência sobre o episódio, argumentam que o movimento não foi apenas superstição isolada, mas também, em certa medida, uma resposta política desesperada de uma sociedade que via sua base econômica e territorial desmoronar ao mesmo tempo.
A matança em massa e a data que nunca chegou
Entre 1856 e 1857, xhosas de diferentes clãs abateram o próprio gado em uma escala colossal. Só o clã Gcaleka, o de Sarhili, é estimado ter matado entre 300 mil e 400 mil cabeças — número que, somado ao de outros clãs que aderiram ao movimento, chega à mesma ordem de grandeza para o total geral estimado pelos historiadores. Plantações inteiras foram deliberadamente destruídas, já que a instrução era parar de cultivar e esperar que a terra fosse repovoada por grãos novos, de origem sobrenatural.
Nongqawuse chegou a apontar uma data para o cumprimento da promessa: 18 de fevereiro de 1857, quando o sol nasceria vermelho como sinal do início da nova era. O dia chegou e passou sem que nada acontecesse. Diante do fracasso, os primeiros culpados apontados pelos seguidores foram os xhosas que haviam se recusado a participar — um pequeno grupo cético apelidado de amagogotya, os “sovinas”, que preservara seus próprios rebanhos e plantações e por isso, dizia-se, estaria “contaminando” a purificação coletiva.
Diante da pressão, o próprio rei Sarhili foi até a foz do Gxarha conversar pessoalmente com Nongqawuse e Mhlakaza. Ao retornar, anunciou uma nova data: em oito dias o sol nasceria vermelho-sangue e, antes de se pôr novamente, uma tempestade violenta anteciparia o retorno dos mortos. Foi nesse período final de oito dias que a matança de gado atingiu seu ápice, com famílias abatendo os últimos animais que ainda possuíam na expectativa febril do milagre. Mais uma vez, nada aconteceu.
Nem todo mundo acreditou — e isso dividiu o povo xhosa
Ao contrário do que a narrativa mais simplificada do episódio às vezes sugere, a adesão à profecia de Nongqawuse não foi unânime nem automática. Estima-se que cerca de 15% dos xhosas — uma minoria nada desprezível — se recusaram a abater seus rebanhos ou destruir suas plantações, tornando-se conhecidos pelos crentes como amagogotya, os “sovinas” ou “avarentos”. Entre os líderes, a resposta também variou muito: enquanto o rei Sarhili abraçou a profecia com convicção, arrastando consigo boa parte do clã Gcaleka, outros chefes importantes, como Sandile, líder do clã Ngqika, adotaram uma postura ambígua — cooperando apenas parcialmente, sem impedir explicitamente seus súditos de participar, mas também sem endossar o movimento com o mesmo entusiasmo.
Essa divisão teve um custo social profundo. À medida que a fome avançava, os “descrentes” — que continuavam tendo gado e colheita enquanto os vizinhos definhavam — tornaram-se alvo de ressentimento crescente. Muitos tiveram suas propriedades saqueadas por famílias desesperadas, e alguns chefes chegaram a expulsar os céticos de seu território, deixando-os sem terra reconhecida em nenhum lugar. O episódio, portanto, não rachou apenas a relação entre xhosas e britânicos: também abriu uma ferida interna entre “crentes” e “não crentes” que, segundo historiadores, demorou gerações para cicatrizar completamente.
A fome que reduziu um povo a um quarto de seu tamanho
As consequências foram catastróficas e imediatas. Sem gado, sem plantações e sem reservas de grãos, a fome se instalou em toda a região. As estimativas de historiadores variam entre 30 mil e 40 mil mortos por inanição — um número descomunal para a época e a escala da população local. O impacto demográfico foi ainda mais visível na chamada Cafraria Britânica (British Kaffraria), território sob administração colonial direta que fazia fronteira com as terras xhosas independentes: sua população caiu de cerca de 105 mil habitantes para menos de 30 mil em poucos anos — uma redução de mais de dois terços.
Cerca de 29 mil xhosas famintos, sem alternativa, deixaram suas terras e buscaram trabalho remunerado dentro da Colônia do Cabo, muitos como trabalhadores em fazendas e propriedades de colonos brancos — exatamente o resultado que, como se veria em seguida, interessava à administração colonial.
O governador que transformou a tragédia em oportunidade
É nesse ponto que a história deixa de ser só sobre profecia e fome e passa a envolver, de forma mais direta, o cálculo político britânico. Sir George Grey, governador da Colônia do Cabo à época, adotou uma postura que muitos historiadores classificam como de exploração deliberada da catástrofe. Ele instruiu os magistrados coloniais a fornecer comida e assistência apenas aos xhosas que aceitassem assinar contratos de trabalho, comprometendo-se a servir onde fossem designados dentro da colônia, pelo salário que lhes fosse oferecido — uma forma de coerção que aproveitava a fome extrema como instrumento de recrutamento de mão de obra barata.
Com a estrutura de poder dos chefes xhosas desmoronando junto com a base econômica de seu povo, Grey avançou rapidamente sobre o território esvaziado. Terras férteis antes ocupadas pelos xhosas foram loteadas e distribuídas a colonos brancos, a aliados xhosas que haviam colaborado com os britânicos (os mfengu) e até a ex-combatentes da Legião Alemã que haviam lutado na Guerra da Crimeia, recrutados com a promessa de passagem gratuita e terra na África do Sul. Em poucos anos, o mapa demográfico e político da região havia sido reconfigurado de forma irreversível a favor do domínio colonial britânico.
O destino de Nongqawuse depois do fracasso da profecia
À medida que a fome avançava e a promessa seguia não se cumprindo, o humor entre os seguidores mudou de decepção para raiva — e a raiva se voltou contra a própria Nongqawuse. O chefe da região de Bomvana acabou por entregá-la a um oficial britânico, o major Gawler, em cuja casa ela passou a viver sob proteção (ou custódia, dependendo da leitura). Foi ali que a esposa do major, Mrs. Gawler, decidiu vesti-la, junto com outra jovem profetisa do movimento, Nonkosi, do povo mpondo, para uma sessão de fotos com um fotógrafo profissional. O retrato resultante — Nongqawuse à direita, Nonkosi ao lado — tornou-se, décadas depois, a imagem mais reproduzida do episódio, uma das primeiras fotografias conhecidas de uma figura histórica africana associada a um movimento desse tipo.
Depois de solta, Nongqawuse foi viver em uma fazenda no distrito de Alexandria, no Cabo Oriental, longe da região onde havia protagonizado os eventos de 1856-57. Morreu em 1898, aos 57 anos, numa vida discreta que contrasta fortemente com o tamanho do desastre histórico ligado ao seu nome. O vale onde ela alegou ter encontrado os espíritos ainda é conhecido até hoje como Intlambo kaNongqawuse — “o vale de Nongqawuse” — mantendo viva, na toponímia local, a memória do episódio.
Delírio coletivo ou resistência política? O debate histórico
Por muito tempo, a versão colonial predominante tratou o episódio simplesmente como um caso de superstição e irracionalidade “nativa”, uma tragédia autoinfligida sem relação com a política britânica na região. Historiadores mais recentes, a partir sobretudo do trabalho de Jeffrey Peires nos anos 1980, complicaram bastante essa leitura. Peires mostrou que havia, dentro da sociedade xhosa da época, uma divisão real entre uma “facção da guerra”, cética quanto à profecia e favorável à resistência armada contra os britânicos, e uma “facção da paz”, que apoiava o cumprimento das instruções de Nongqawuse como caminho para a libertação sobrenatural. A adesão à profecia, nessa leitura, não foi um ato de ingenuidade cega, mas parte de um debate político real sobre como responder à ameaça colonial — debate que, tragicamente, terminou decidido a favor da opção que levaria ao colapso total.
O episódio também costuma ser comparado por historiadores ao movimento norte-americano da Ghost Dance, que décadas depois mobilizou povos indígenas das planícies dos Estados Unidos em torno de uma promessa semelhante: rituais e crenças que prometiam a expulsão dos colonizadores e o retorno de um mundo anterior à conquista. Em ambos os casos, comunidades sob pressão colonial extrema recorreram a movimentos milenaristas — e em ambos os casos, a resposta das autoridades coloniais à mobilização (seja pela fome deliberadamente explorada, seja pela repressão militar, como no massacre de Wounded Knee) agravou dramaticamente as consequências.
Como o episódio segue vivo na cultura sul-africana
A história de Nongqawuse nunca desapareceu da memória sul-africana — foi recontada, oralmente, por gerações sucessivas no Cabo Oriental ao longo dos séculos XIX e XX, muitas vezes com interpretações concorrentes sobre o que ela realmente significou. O episódio ganhou nova centralidade cultural em 2000, quando o escritor sul-africano Zakes Mda publicou o romance “The Heart of Redness” (“O Coração da Rubra Ferida”, em tradução livre), que usa a matança de gado como pano de fundo histórico para uma disputa contemporânea entre tradição e desenvolvimento numa vila costeira do Cabo Oriental — a mesma região onde tudo aconteceu. A obra foi amplamente aclamada e ajudou a reintroduzir o episódio ao debate público sul-africano numa época de redefinição de identidade nacional pós-apartheid.
No campo acadêmico, o historiador Jeffrey Peires segue sendo a referência central desde a publicação, em 1989, de “The Dead Will Arise” (“Os Mortos Ressuscitarão”), obra que reconstituiu o episódio com base em fontes de arquivo coloniais e testemunhos orais xhosas, e que deslocou definitivamente a discussão de “loucura coletiva” para uma análise mais complexa sobre colonialismo, fome, fé e sobrevivência. Décadas depois, historiadores continuam debatendo os detalhes — números exatos de mortos, o peso relativo da manipulação britânica versus a agência política xhosa —, mas o consenso atual é claro: tratar o episódio apenas como superstição ingênua apaga o contexto de violência colonial que o tornou possível.
Curiosidades rápidas
- Estima-se que entre 300 mil e 400 mil cabeças de gado foram sacrificadas pelos xhosas entre 1856 e 1857 — só o clã Gcaleka, do rei Sarhili, respondeu por boa parte desse total.
- A população da Cafraria Britânica despencou de cerca de 105 mil para menos de 30 mil pessoas em poucos anos por causa da fome resultante da matança de gado.
- Nongqawuse tinha por volta de 15 anos quando teve as primeiras visões em 1856; morreu em 1898, décadas depois, vivendo de forma discreta numa fazenda no distrito de Alexandria.
- A fotografia mais famosa de Nongqawuse foi tirada por iniciativa da esposa de um oficial britânico, que a vestiu junto com a profetisa mpondo Nonkosi para um retrato de estúdio.
- O local onde tudo começou, na foz do rio Gxarha, ainda é chamado até hoje de Intlambo kaNongqawuse — “o vale de Nongqawuse” — em referência direta ao episódio.
Gustavo Santos
Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.