Adair, 1873: o descarrilamento que criou o mito de Jesse James
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Adair, 1873: o descarrilamento que criou o mito de Jesse James

21 de julho, 2026 Gustavo Santos

Era uma noite quente do final de julho de 1873 quando nove homens montados se escondiam numa curva de trilhos a pouco mais de dois quilômetros da pequena estação de Adair, no estado americano de Iowa. Eles tinham passado a tarde arrancando os grampos de uma linha férrea recém-inaugurada, amarrado uma corda ao trilho solto e cavado um buraco na margem do talude para se esconder. O plano era ambicioso: interceptar um comboio da Chicago, Rock Island and Pacific Railroad que, segundo um boato que tinha chegado até eles, carregava 75 mil dólares em ouro vindos das minas da região de Cheyenne. À frente do grupo estava um rapaz de 25 anos, magro, de olhos claros e fama já crescente na imprensa sensacionalista do Meio-Oeste americano: Jesse James. Naquela noite de 21 de julho de 1873, ele e sua quadrilha, conhecida como bando James-Younger, cometeriam o que ficaria registrado como o primeiro assalto bem-sucedido a um trem em movimento no Oeste americano — um evento que misturou tragédia, ganância e um golpe de publicidade macabro que ajudaria a transformar um ex-guerrilheiro confederado em um dos maiores mitos da história dos Estados Unidos.

Dos campos de batalha da Guerra Civil às primeiras quadrilhas

Para entender por que um grupo de homens armados estava escondido numa vala de Iowa naquela noite, é preciso voltar quase uma década, à Guerra Civil Americana. Jesse Woodson James e seu irmão mais velho, Frank James, cresceram na região do Missouri conhecida como “Little Dixie”, uma faixa de fazendas escravistas ao longo do rio Missouri. Durante a guerra, os dois se juntaram a grupos de guerrilheiros pró-Confederados conhecidos como “bushwhackers”, unidades irregulares responsáveis por emboscadas, saques e episódios de violência extrema contra civis unionistas. Jesse, ainda adolescente, participou de operações ligadas ao grupo comandado por “Bloody Bill” Anderson, uma das facções mais brutais desse tipo de guerra de guerrilha.

Quando o conflito terminou em 1865, muitos desses combatentes não conseguiram — ou não quiseram — voltar a uma vida pacata. Jesse e Frank se aproximaram dos irmãos Younger (Cole, Jim, John e, mais tarde, Bob), filhos de uma família também afetada pela violência da guerra, e passaram a assaltar bancos pelo Missouri e estados vizinhos a partir de 1866. Ao longo dos anos seguintes, o grupo — que passaria à história como bando James-Younger — construiu uma reputação ambígua: para as autoridades e companhias ferroviárias, eram criminosos perigosos; para uma parcela da população rural do antigo Sul, especialmente ex-simpatizantes confederados, tornaram-se quase heróis populares, romantizados pela imprensa como uma espécie de Robin Hood americano, uma imagem que os próprios membros do bando, e mais tarde Jesse, cultivaram deliberadamente através de cartas enviadas a jornais.

É importante situar esse período dentro do contexto maior da chamada Era da Reconstrução, os anos que se seguiram à Guerra Civil e em que os Estados Unidos tentavam reintegrar os antigos estados confederados à União. Missouri, embora não tivesse aderido oficialmente à Confederação, viveu um dos conflitos internos mais violentos do país, com massacres, execuções sumárias e uma polarização que deixou marcas profundas na população rural. Nesse cenário de ressentimento e instabilidade econômica, figuras como Jesse James encontraram terreno fértil: bancos e ferrovias eram vistos por muitos fazendeiros locais como símbolos do capital do Norte, controlado por banqueiros e magnatas do transporte sediados em cidades como Nova York e Chicago. Atacar esses alvos, ainda que por puro interesse pessoal, rendia aos assaltantes uma simpatia que dificultava o trabalho da polícia e da própria Pinkerton National Detective Agency, contratada pelas ferrovias para caçá-los.

A pista do ouro de Wyoming

Em 1873, depois de anos assaltando bancos — incluindo o roubo ao banco Ocobock Brothers em Corydon, Iowa, em 1871 — o bando decidiu ampliar o repertório para um alvo mais arriscado e mais lucrativo em tese: os trens. A escolha não era aleatória. As ferrovias, símbolo do avanço industrial e da expansão para o oeste, transportavam regularmente grandes somas em dinheiro e metais preciosos, muitas vezes com segurança rudimentar se comparada à de um banco urbano.

A gangue recebeu a informação de que um carregamento de aproximadamente 75 mil dólares em ouro extraído na região de Cheyenne, no atual Wyoming, seguiria para o leste pela recém-construída linha principal da Chicago, Rock Island and Pacific Railroad, passando por Adair, uma cidade que na época tinha menos de um ano de existência. Para confirmar a informação, Jesse enviou Frank James e Cole Younger a Omaha, no estado vizinho de Nebraska, para descobrir a data exata em que o trem com o ouro passaria pela região. Enquanto isso, Jesse permaneceu acampado nas colinas próximas a Adair junto com Clell Miller, Bill Chadwell (nome de guerra de William Stiles) e outros membros do grupo, entre eles integrantes da família Younger.

Quando Frank e Cole voltaram com a confirmação de que o comboio estava a caminho, o grupo colocou o plano em ação. Na tarde do próprio dia 21 de julho, segundo relatos da época, alguns dos bandidos pediram comida — tortas e outros mantimentos — à esposa do capataz da seção ferroviária local, Robert Grant, sem que ela suspeitasse de nada.

A armadilha na curva de Turkey Creek

O local escolhido para a emboscada foi cuidadosamente pensado: uma curva da ferrovia próxima à ponte sobre o riacho Turkey Creek, a cerca de uma milha e meia (pouco mais de dois quilômetros) da estação de Adair, ao longo da antiga rodovia hoje conhecida como County Road G30. Ali, a curvatura dos trilhos reduzia a visibilidade do maquinista e tornava mais fácil disfarçar a sabotagem.

Os homens arrombaram um depósito de ferramentas de manutenção da linha e furtaram uma barra de fixação e um martelo. Com essas ferramentas, removeram a placa de junção que unia dois trechos de trilho e retiraram os grampos que prendiam os trilhos aos dormentes de madeira. Em seguida, amarraram uma corda na extremidade solta do trilho norte, passaram-na por baixo do trilho sul e a levaram até um buraco cavado no barranco, onde ficariam escondidos segurando a outra ponta. A ideia original, segundo alguns relatos históricos, era usar a corda para puxar o trilho no momento exato em que o trem se aproximasse, forçando-o a parar gradualmente — não necessariamente descarrilar de forma violenta.

O resultado, porém, foi bem mais catastrófico do que o planejado.

A noite em que o trem descarrilou

Por volta do anoitecer, o trem da Rock Island se aproximou da curva. Ao perceber algo errado com a linha, o maquinista John Rafferty, de Des Moines, acionou os freios a ar na tentativa de deter a composição. Não foi suficiente. Os bandidos puxaram a corda, o trilho se soltou e a locomotiva saiu dos trilhos, tombando de lado dentro de uma vala ao lado da ferrovia, arrastando consigo o vagão-correio e provocando o descarrilamento parcial de outros vagões.

Rafferty morreu esmagado pela própria locomotiva. O foguista, Dennis Foley, ficou gravemente ferido e morreria pouco depois em consequência dos ferimentos. Vários passageiros também se machucaram no impacto. É importante registrar esse detalhe porque ele desmonta um pouco da aura romântica que depois se construiu em torno de Jesse James: o “primeiro grande assalto a trem do Velho Oeste” não foi uma operação limpa e sem vítimas — começou com a morte de dois trabalhadores ferroviários.

Segundo relatos posteriores, a própria gangue pareceu surpresa com a violência do descarrilamento, que foi mais severo do que haviam planejado. Ainda assim, não hesitaram em seguir com o assalto.

Um cofre quase vazio

Parte do grupo entrou no vagão-correio e, sob a mira de armas, obrigou o guarda John Burgess a abrir o cofre da Adams Express Company, responsável pelo transporte de valores. A decepção foi imediata: em vez dos cobiçados 75 mil dólares em ouro, o cofre continha apenas cerca de 2 mil dólares em dinheiro. O carregamento de ouro de Cheyenne, por pura coincidência ou informação desatualizada dos bandidos, havia sido atrasado e não estava naquele trem.

Frustrados, os assaltantes passaram então pelos vagões de passageiros, recolhendo dinheiro e joias — mas, segundo relatos da época (inclusive reproduzidos por historiadores e por publicações locais de Iowa), pouparam mulheres e crianças, roubando apenas os homens a bordo. Cole Younger teria dito aos passageiros que o grupo não pretendia matar ou ferir ninguém — uma afirmação difícil de sustentar diante dos corpos do maquinista e do foguista, mas coerente com a estratégia de imagem pública que o bando tentava cultivar. Enquanto uma parte da quadrilha revistava os vagões, outros permaneciam do lado de fora, atirando para o alto para intimidar os passageiros e evitar qualquer reação. Ao final, o saque total do assalto — somando o conteúdo do cofre e os pertences dos passageiros — ficou entre 3 mil dólares, uma fração pequena do que esperavam.

Terminada a revista, o grupo montou nos cavalos, que haviam deixado amarrados nas proximidades, e desapareceu na escuridão em direção ao Missouri.

A caçada e o legado sangrento de Jesse James

A notícia do descarrilamento correu rápido. Levi Clay, funcionário da ferrovia em Adair, caminhou até a localidade vizinha de Casey para acionar o telégrafo e alertar as autoridades em Des Moines e Omaha. Em poucas horas, o caso já era manchete em jornais de todo o país — e um trem carregado de homens armados partiu de Council Bluffs para tentar interceptar a quadrilha, deixando grupos de perseguição espalhados ao longo da rota com cavalos selados à espera. A perseguição, no entanto, perdeu o rastro dos assaltantes já na fronteira com o Missouri, onde encontraram abrigo entre simpatizantes. A companhia ferroviária, junto com a Adams Express Company e o estado de Iowa, chegou a oferecer recompensas somadas que passavam de 5 mil dólares pela captura do bando, mas nenhum dos participantes do assalto de Adair foi preso na época — um fracasso que só alimentaria a fama de invencibilidade em torno de Jesse James nos anos seguintes.

O assalto de Adair não foi um episódio isolado: nos anos seguintes, o bando James-Younger repetiria a fórmula em vários outros assaltos a trens e bancos pelo centro-oeste americano, consolidando a lenda de Jesse James como o fora da lei mais famoso da América. Essa sequência de crimes teria um fim abrupto em 1876, quando uma tentativa de assalto a um banco em Northfield, Minnesota, terminou em desastre: cidadãos armados reagiram, vários membros do bando morreram ou foram capturados, e os irmãos Younger acabaram presos e condenados a prisão perpétua. Jesse e Frank James escaparam e formaram um novo grupo, mas a sorte de Jesse se esgotaria alguns anos depois. Em 3 de abril de 1882, atraído pela recompensa de 10 mil dólares oferecida pelo governador do Missouri, Robert Ford — membro mais recente do próprio bando de Jesse — atirou pelas costas e matou o antigo guerrilheiro dentro de sua própria casa em St. Joseph, Missouri, encerrando a carreira criminosa que havia começado, simbolicamente, naquela curva de trilhos perto de Adair, quase dez anos antes.

Hoje, uma roda de locomotiva doada pela Rock Island Railroad em 1954, junto a uma placa histórica erguida em 1964, marca o local onde tudo aconteceu, a poucos quilômetros da atual cidade de Adair — um pequeno monumento a um episódio que ajudou a moldar, para o bem e para o mal, a imagem do Velho Oeste americano na cultura popular.

Curiosidades rápidas

  • Apesar de ser chamado de “primeiro assalto a trem do Velho Oeste”, o roubo de Adair não foi o primeiro assalto a trem da história dos Estados Unidos: esse título pertence a um assalto ocorrido em Seymour, Indiana, em outubro de 1866, cometido pela gangue Reno.
  • Os 75 mil dólares em ouro que o bando esperava encontrar equivaleriam hoje a mais de 1,8 milhão de dólares — o que teria feito de Adair um dos maiores golpes da história do crime americano, caso o carregamento não tivesse atrasado.
  • O bando chegou a usar como esconderijo um buraco cavado às pressas na margem da ferrovia, de onde os homens puxaram a corda que soltou o trilho — um método tão improvisado quanto arriscado, já que o descarrilamento acabou sendo mais violento do que planejavam.
  • Cole Younger, um dos participantes do assalto de Adair, viveria décadas após o crime: preso em 1876 após o fracassado assalto de Northfield, foi solto em 1901 e chegou a fazer turnês pelos Estados Unidos contando sua própria versão da história em espetáculos itinerantes.
  • O local exato do descarrilamento, perto da ponte sobre o riacho Turkey Creek, é hoje sinalizado por marcos históricos e integra um pequeno circuito turístico dedicado a Jesse James no condado de Adair, Iowa.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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