Damasco, 1148: o cerco que a ganância dos cruzados arruinou
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Damasco, 1148: o cerco que a ganância dos cruzados arruinou

29 de julho, 2026 Gustavo Santos

No sábado, 24 de julho de 1148, dezenas de milhares de soldados desceram das colinas a oeste de Damasco e cercaram uma das cidades mais antigas e ricas do mundo islâmico. À frente deles estavam dois reis — Luís VII da França e Conrado III da Alemanha — além do jovem Balduíno III de Jerusalém, unidos numa das maiores mobilizações militares que a Europa cristã já havia lançado contra o Oriente. Cinco dias depois, em 29 de julho, tudo tinha desmoronado. O exército mais numeroso reunido na Segunda Cruzada bateu em retirada derrotado, sem nunca ter chegado perto de romper as muralhas, vítima não tanto das armas dos defensores quanto da própria desorganização, ganância e desconfiança dentro do acampamento cristão. O episódio, conhecido como o Cerco de Damasco, é um dos fiascos mais completos da história militar medieval — e ajudou a selar o destino dos reinos cruzados no Oriente Médio.

Uma cruzada que já nascia manca

Tudo começou com uma notícia catastrófica chegando à Europa: em 24 de dezembro de 1144, o atabegue turco Zengi havia conquistado Edessa, a mais antiga das quatro grandes fundações cruzadas no Oriente. A queda de Edessa abalou a cristandade latina. O papa Eugênio III respondeu em 1145 com a bula Quantum praedecessores, convocando uma nova cruzada, mas foi só em 1146, quando o abade Bernardo de Claraval saiu pregando pela França e pela Alemanha com um carisma quase incendiário, que a mobilização de fato deslanchou. Bernardo prometeu remissão de pecados a quem tomasse a cruz, e reis, duques e milhares de camponeses responderam ao chamado.

As duas grandes forças da nova cruzada foram lideradas por Luís VII da França e Conrado III, rei dos romanos e imperador germânico. Ambos cruzaram a Europa e chegaram a Constantinopla entre setembro e outubro de 1147 — e foi aí que os problemas começaram a se acumular. As duas marchas através da Anatólia foram um desastre quase completo: emboscadas de turcos seldjúcidas, fome e o frio dizimaram grande parte dos exércitos antes mesmo de avistarem a Terra Santa. Conrado, doente, precisou recuar até Constantinopla antes de finalmente alcançar Jerusalém, já em abril de 1148. Luís, por sua vez, abandonou o que restava de suas tropas terrestres e velejou até o Principado de Antioquia, governado por Raimundo de Poitiers — tio de sua própria esposa, Eleanor da Aquitânia. Raimundo esperava que o sobrinho por casamento ajudasse a conter os turcos que ameaçavam Antioquia, mas Luís recusou e seguiu viagem para cumprir seu voto de peregrino em Jerusalém. A cruzada que deveria recuperar Edessa chegava à Terra Santa fragmentada, desconfiada e sem exército de verdade — apenas os restos de duas expedições reais e a esperança de reforço dos barões locais.

Por que escolher Damasco, de todos os alvos possíveis?

Em 24 de junho de 1148, os líderes cristãos se reuniram na cidade portuária de Acre para o chamado Concílio de Acre, uma das assembleias mais espetaculares já convocadas pela Alta Corte de Jerusalém. Do lado do Sacro Império compareceram o próprio Conrado, o bispo-cronista Otto de Freising, o duque Henrique II da Áustria, o marquês Welf VI da Toscana, o futuro imperador Frederico Barba-Ruiva (ainda duque da Suábia, sobrinho de Conrado) e o marquês Guilherme V de Monferrato. Pela França vieram Luís VII e o conde Thierry da Flandres. E por Jerusalém, o rei Balduíno III, a poderosa rainha-mãe Melisenda, o patriarca Fulco, o mestre dos Templários Robert de Craon e o mestre dos Hospitalários Raymond du Puy, entre outros nobres. É revelador quem não estava presente: ninguém de Antioquia, do Condado de Trípoli ou dos remanescentes de Edessa — justamente as regiões que a cruzada tinha sido convocada para socorrer.

Sem os interessados diretos na mesa, a decisão coube praticamente a Balduíno III e aos Templários, que defendiam havia tempos um alvo mais ambicioso: Damasco. O problema é que Damasco, sob a dinastia turca dos búridas, não era exatamente inimiga dos cristãos — pelo contrário, era uma aliada relutante do Reino de Jerusalém contra o verdadeiro poder em ascensão na região, os zengidas, herdeiros do conquistador de Edessa. Barões locais, que conheciam bem a geopolítica da fronteira, alertaram que atacar Damasco poderia empurrar a cidade para os braços do inimigo que os cristãos mais temiam. Conrado, Luís e Balduíno ignoraram o aviso: aos olhos deles, Damasco era uma cidade bíblica, tão simbólica quanto Jerusalém ou Antioquia, e conquistá-la seria o troféu que justificaria toda a cruzada. Em julho, os exércitos se reuniram em Tiberíades e marcharam contornando o mar da Galileia, passando por Banias, rumo a Damasco. Estima-se que o contingente somava algo em torno de 50 mil combatentes — um número descomunal para os padrões da época.

Sangue nos pomares de Ghouta

A estratégia inicial era atacar pelo lado oeste da cidade, onde os densos pomares e jardins da região de Ghouta garantiriam água e comida em abundância para o cerco. Em 23 de julho, os cruzados chegaram a Darayya, com o exército de Jerusalém na vanguarda, Luís no centro e Conrado protegendo a retaguarda. No dia seguinte, sábado 24 de julho, começou o combate: as tropas cristãs tiveram que abrir caminho a ferro e sangue por entre pomares murados e cheios de torres defensivas, junto ao rio Barada, na região de Mezzeh. Soldados profissionais de Damasco, a milícia local conhecida como ahdath e mercenários turcomanos hostilizaram cada passo dos invasores com flechas e lanças disparadas dos muros dos jardins.

Foi nesse combate que o cronista Guilherme de Tiro registrou um dos episódios mais dramáticos do cerco: avisado de que a vanguarda estava travada tentando atravessar o rio, Conrado teria galopado da retaguarda até a linha de frente, saltado do cavalo e, lutando a pé “como é costume dos teutões nos momentos de crise”, golpeado um cavaleiro turco com tamanha força que a espada cortou de uma só vez a cabeça, o pescoço, o ombro esquerdo e parte do tronco do adversário — apesar da couraça que ele vestia. O relato, mesmo que exagerado pela tradição épica, teria espalhado tamanho terror entre os defensores que a resistência cedeu e os cruzados conseguiram atravessar o Barada, perseguindo os defensores para dentro dos limites da cidade. Ao anoitecer, o acampamento cristão já estava montado nos pomares, com paliçadas construídas com a própria madeira das árvores derrubadas — o mesmo recurso que garantiria comida logo se tornaria arma de cerco.

Contra-ataques, cabeças cortadas e um cerco que já vacilava

Do lado de dentro das muralhas, os moradores barricaram as ruas principais, temendo um assalto iminente. O governante de fato da cidade, o mameluco Mu’in ad-Din Unur, agindo como vizir do jovem emir Mujir ad-Din Abaq, pediu socorro urgente a dois dos mais temidos senhores da guerra muçulmanos da época: Saif ad-Din Ghazi I, de Mossul, e Nur ad-Din Zangi, de Aleppo — filho do próprio conquistador de Edessa. Enquanto aguardava reforços, Unur lançou contra-ataques que empurraram os cristãos de volta para dentro dos pomares, onde ficavam expostos a emboscadas constantes.

No domingo, 25 de julho, esses contra-ataques causaram baixas pesadas entre os defensores — incluindo o jurista e erudito Yusuf al-Findalawi, de 71 anos, o místico sufi Al-Halhli e Nur ad-Din Shahanshah, emir de Baalbeque e irmão mais velho de um jovem oficial curdo chamado Saladino, que décadas depois se tornaria o principal adversário dos cruzados no Oriente. Ao fim daquele dia, o acampamento cristão já havia se deslocado para uma área conhecida como Campo Verde (Maydan al-Akhdar), um descampado gramado que a cavalaria damascena usava normalmente como campo de treinamento. No dia seguinte, 26 de julho, um ataque de moradores e voluntários vindos das aldeias vizinhas surpreendeu as sentinelas cristãs durante a noite: segundo o cronista sírio Abu Shama, os atacantes mataram os guardas “sem medo do perigo”, cortaram as cabeças de todos os inimigos que conseguiram e as recolheram como troféu — um número, segundo ele, “considerável”. Enquanto isso, reforços vindos do Líbano e do vale do Beca chegavam para reforçar Damasco, dobrando, segundo o cronista Ibn al-Qalanisi, o estoque de armas dos defensores.

A decisão que condenou o cerco

Encurralados nos pomares e sob ataque constante, os comandantes cristãos discutiram atacar o lado sul, mais fraco, perto do portão conhecido como Bab al-Saghir, construído apenas de tijolos de barro. Luís chegou a enviar seu tenente Godefroy de la Roche Vanneau para avaliar as defesas ao sul e sudeste da cidade. Mas na segunda-feira, 27 de julho, veio a decisão que os cronistas da época consideram o verdadeiro ponto de ruptura da campanha: os líderes cruzados resolveram abandonar as posições no lado oeste — com toda a fartura de água e comida dos pomares — e transferir todo o acampamento para a planície a leste da cidade, perto dos portões de Bab Tuma e Bab Sharqi. A nova posição era, de fato, menos fortificada. Só que também era muito mais pobre em água e mantimentos — uma escolha que, em pleno verão do deserto sírio, beirava o suicídio logístico.

Por trás da decisão havia algo além de cálculo militar: uma disputa política sórdida. Antes mesmo de a cidade cair, os líderes já brigavam sobre quem ficaria com ela. Os barões locais do Reino de Jerusalém queriam entregar Damasco a Guy I Brisebarre, senhor de Beirute; mas Thierry da Flandres queria o prêmio para si mesmo, e tinha o apoio de Balduíno, Luís e Conrado. Segundo Guilherme de Tiro, essa disputa fez os barões nativos de Jerusalém preferirem “que os damascenos mantivessem sua cidade a vê-la entregue ao conde” — e, segundo o cronista, eles fizeram de tudo, nos bastidores, para que o cerco fracassasse. Correu ainda o boato — nunca totalmente provado — de que Unur teria subornado os líderes cristãos para que se deslocassem para a posição mais fraca, prometendo romper sua aliança com Nur ad-Din caso os cruzados fossem embora. Cronistas ingleses como Ralph de Coggeshall, João de Salisbury e o anonimista de Würzburg escreveram que os próprios Templários teriam aceitado suborno para abandonar o cerco; já Guilherme de Tiro e o cronista sírio Miguel, o Sírio, contam uma versão ainda mais humilhante — a de que as moedas de “ouro” recebidas pelos nobres cristãos eram, na verdade, de cobre. Ou seja: além de trair a própria causa, alguns líderes cruzados teriam sido enganados até no próprio suborno.

A fuga humilhante e a desintegração da cruzada

Enquanto a disputa interna corroía o comando cristão, Nur ad-Din e Saif ad-Din chegavam a Homs, negociando com Unur a posse futura de Damasco — algo que nem o vizir nem os cruzados queriam ver acontecer. Saif ad-Din chegou a escrever diretamente aos cristãos, pressionando-os a voltar para casa. Com um exército de socorro cada vez mais perto, tornou-se impossível para os cruzados recuar para a antiga posição, mais segura, do lado oeste. Os senhores locais do Reino de Jerusalém se recusaram a continuar o cerco, e os três reis não tiveram escolha a não ser abandonar Damasco. Conrado foi o primeiro a bater em retirada; o resto do exército o seguiu, e todo o contingente cruzado voltou a Jerusalém em 28 de julho, perseguido ao longo de todo o caminho por arqueiros muçulmanos que hostilizavam a retaguarda em fuga.

O golpe psicológico foi tão grande quanto o militar. Franceses e alemães terminaram o episódio se acusando mutuamente de traição. Um novo plano para atacar a cidade de Ascalão foi cogitado, mas descartado pela desconfiança mútua que restou entre os aliados — uma desconfiança que, segundo historiadores, perseguiria as relações entre os reinos cruzados por uma geração inteira. Conrado voltou a Constantinopla para reforçar sua aliança com o imperador bizantino Manuel I Comneno, enquanto Bernardo de Claraval, o grande entusiasta que havia pregado a cruzada pela Europa, viu sua reputação manchada; quando tentou convocar uma nova expedição, o apelo caiu no vazio, e ele passou a tentar se distanciar publicamente do fiasco que ajudara a criar. O cronista inglês Henrique de Huntingdon resumiu o desastre em tom de sermão, escrevendo que os exércitos “foram aniquilados” porque, apesar de terem partido “sob os maiores líderes e com a mais orgulhosa confiança”, Deus os desprezou por causa de sua “fornicação aberta, roubo e todo tipo de maldade”.

O preço de longo prazo: Damasco cai sem lutar

A ironia final do Cerco de Damasco é que ele produziu exatamente o resultado que os cruzados mais temiam. Humilhado pela invasão e pela suspeita de traição ocidental, Unur passou a desconfiar profundamente dos cristãos e se aproximou cada vez mais de Nur ad-Din. Em 1154, sem qualquer resistência significativa, Damasco foi formalmente entregue a Nur ad-Din, reunificando boa parte da Síria muçulmana sob um único comando pela primeira vez em décadas. Esse poder consolidado seria a base sobre a qual, anos depois, um sobrinho de comandantes de Nur ad-Din chamado Saladino construiria o império que reconquistaria Jerusalém em 1187 — quase quatro décadas depois de o irmão mais velho de Saladino ter morrido justamente defendendo Damasco daqueles mesmos cruzados. Em vez de fortalecer a presença cristã no Oriente, o cerco de cinco dias acelerou o processo que, décadas mais tarde, levaria à perda de Jerusalém.

Curiosidades rápidas

  • Estima-se que o exército cruzado reunido para o cerco somava cerca de 50 mil combatentes — um dos maiores contingentes já mobilizados numa única campanha das Cruzadas, disperso em apenas cinco dias de combate.
  • O cavaleiro francês Robert de Brie, conde de Dreux, que participou do cerco, é tradicionalmente apontado como o responsável por trazer da Síria para a Europa a rosa-de-damasco, uma das variedades mais usadas na perfumaria até hoje.
  • Cruzados chegaram a esculpir uma flor-de-lis numa pedra do lado de fora do portão de Bab Sharqi e espalharam moedas numa vala próxima — um gesto simbólico de posse de uma cidade que jamais controlariam.
  • Séculos depois, durante o mandato francês sobre a Síria e o Líbano, no início do século XX, a França construiu a prisão de Mezzeh sobre uma estrutura erguida originalmente na época das Cruzadas — e usou o local para encarcerar prisioneiros políticos e opositores anticoloniais.
  • Nur ad-Din Shahanshah, emir de Baalbeque morto defendendo Damasco em 25 de julho de 1148, era irmão mais velho de Saladino — o mesmo Saladino que, quatro décadas depois, retomaria Jerusalém dos cruzados.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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