O Almirante Negro: a revolta dos marinheiros que abalou a República
Na noite de 22 de novembro de 1910, os canhões mais poderosos da América Latina apontaram para o coração do Rio de Janeiro — e não havia um único inimigo estrangeiro na mira. Quem controlava os dois encouraçados mais modernos do mundo, comprados a peso de ouro pelo governo brasileiro, eram os próprios marinheiros que os operavam: homens negros e mulatos, muitos deles filhos de ex-escravos, fartos de apanhar de chibata por qualquer deslize. À frente deles estava João Cândido Felisberto, um marujo gaúcho de 30 anos que em poucas horas seria apelidado pela imprensa de “Almirante Negro” e se tornaria, para uns, herói da dignidade republicana e, para outros, o homem que quase destruiu a capital do país.
Uma marinha de ponta, tripulada como se fosse senzala
No início do século XX, o Brasil vivia um paradoxo. A demanda mundial por café e borracha enchia os cofres públicos — escritores da época estimavam que entre 75% e 80% do café consumido no planeta vinha de solo brasileiro — e políticos como o Barão do Rio Branco e Pinheiro Machado queriam usar esse dinheiro para transformar o país numa potência respeitada, sobretudo diante da rival Argentina. A aposta principal foi naval: o Brasil encomendou aos estaleiros britânicos da Armstrong dois encouraçados do tipo dreadnought, o modelo de navio de guerra mais avançado do planeta, lançado pela Marinha Real britânica em 1906. Quando ficaram prontos, o Minas Geraes e o São Paulo estavam entre os navios de combate mais poderosos já construídos, e atraíram atenção internacional muito antes de sequer atracarem no Rio de Janeiro.
O problema é que a modernização dos navios não veio acompanhada de nenhuma modernização social. Os oficiais eram quase todos brancos, formados em escolas de elite; os marinheiros de baixa patente eram, em esmagadora maioria, negros e mulatos — muitos deles ex-escravos libertos pela Lei Áurea de 1888 ou filhos nascidos livres pela Lei do Ventre Livre de 1871. Um retrato cruel dessa hierarquia racial ficou registrado numa frase do próprio Barão do Rio Branco, ao descrever o recrutamento da tropa: segundo ele, a Marinha reunia “a escória de nossos centros urbanos”, formada majoritariamente por “ex-escravos e filhos de escravos […] de pele escura ou mulatos escuros”. Rapazes pobres, muitas vezes órfãos ou suspeitos de pequenos delitos, eram recrutados como aprendizes a partir dos 13 ou 14 anos e ficavam vinculados à corporação por até quinze anos. Foi exatamente esse o caminho de João Cândido: aprendiz aos 13, marinheiro efetivo aos 16.
Para manter a disciplina sobre essa tropa, os oficiais recorriam pesadamente ao castigo corporal — prática que já havia sido proibida entre civis desde a Constituição de 1824 e no Exército desde 1874, mas que a Marinha reinstituiu menos de um ano depois de aboli-la brevemente em 1889. As regras previam desde prisão a pão e água para faltas leves até, no mínimo, vinte e cinco chibatadas para faltas graves — mas relatos da época falam em punições que passavam de trezentos golpes. A “Companhia Correcional”, criada para aplicar esses castigos, existia em praticamente todos os navios, o que na prática significava que qualquer marinheiro podia acabar amarrado ao mastro a qualquer momento.
A experiência de Newcastle e as 250 chibatadas que faltavam
Uma peça-chave para entender a revolta é uma viagem: para operar os novíssimos encouraçados, parte da tripulação brasileira, incluindo João Cândido, passou quase dois anos hospedada em Newcastle upon Tyne, na Inglaterra, acompanhando a construção dos navios nos estaleiros da Armstrong. Lá, os marinheiros recebiam salário em dia, em dinheiro, compravam sua própria comida e conviviam com operários sindicalizados que chegaram a entrar em greve. O historiador Zachary Morgan argumenta que esse período foi decisivo para o amadurecimento político da tripulação: pela primeira vez, esses homens viram colegas da Marinha Real britânica sendo tratados como cidadãos, sem chibata e sem humilhação. Foi em hotéis de Newcastle, segundo o próprio João Cândido relatou décadas depois, que um grupo de marinheiros passou a se reunir secretamente para planejar o que fariam quando os navios finalmente chegassem ao Brasil.
A faísca que decidiu a data veio de um episódio brutal. Marcelino Rodrigues Menezes, marinheiro afro-brasileiro, feriu um companheiro com uma navalha depois de ser denunciado a um oficial — e foi condenado a chibatadas em quantidade que os historiadores ainda discutem: a cifra mais citada, de 250 golpes, vem do livro clássico de Edmar Morel sobre o episódio, embora outros pesquisadores considerem esse número alto demais para alguém sobreviver e sugiram que possa haver um erro na casa decimal. O ex-capitão da Marinha José Carlos de Carvalho, que testemunhou o resultado, descreveu ao presidente da República que as costas de Menezes pareciam “uma tainha aberta para salgar”. Foi o estopim final de uma tensão que já vinha sendo arquitetada havia anos.
A noite em que os dreadnoughts se voltaram contra o Rio
Por volta das 22h de 22 de novembro de 1910, a bordo do encouraçado Minas Geraes, os marinheiros se levantaram. O comandante do navio, João Batista das Neves, e outros oficiais leais que se recusaram a abandonar o posto foram mortos no confronto. Os tiros no Minas Geraes serviram de sinal para o resto da frota ancorada na Baía de Guanabara: à meia-noite, os rebeldes já controlavam também o encouraçado-irmão São Paulo, o cruzador novo Bahia — então recordista mundial de velocidade entre cruzadores-escoteiros — e o navio de defesa costeira Deodoro. No comando geral estava João Cândido, imediatamente batizado pela imprensa de “almirante” da esquadra insurgente.
Os números da revolta são debatidos até hoje: o historiador Zachary Morgan calcula que, de cerca de 4.000 tripulantes presentes naquela noite na baía, entre 1.500 e 2.000 aderiram efetivamente ao motim — o resto se escondeu em terra ou permaneceu fiel ao governo. Ainda assim, o poder de fogo estava do lado dos amotinados: os dois dreadnoughts sozinhos superavam, juntos, toda a esquadra restante da Marinha brasileira, que contava apenas com cruzadores mais antigos, como o Rio Grande do Sul e o Barroso, e contratorpedeiros cujos torpedos sequer estavam operacionais nos primeiros dias.
Ainda na madrugada de 23 de novembro, os rebeldes telegrafaram ao recém-empossado presidente Hermes da Fonseca — que estava no cargo havia apenas uma semana — ameaçando “destruir a cidade e os navios que não são revoltantes” caso não recebessem resposta em doze horas. Horas depois, enviaram também uma carta formal exigindo o fim do que chamavam de “escravidão” na Marinha: abolição da chibata e de outros castigos, reforma do “Código Imoral e Vergonhoso” que os regia, aumento de soldo e a saída de oficiais considerados incompetentes. Na manhã seguinte, para mostrar que a ameaça era real, os navios rebeldes dispararam contra fortes, o arsenal naval e áreas próximas ao palácio presidencial. Uma das bombas atingiu uma casa no bairro do Castelo e matou duas crianças — episódio que, segundo o próprio João Cândido relembraria décadas depois, pesou na consciência da tripulação a ponto de os marinheiros juntarem parte do próprio “salário miserável” para pagar o enterro das vítimas.
Rui Barbosa entra em cena e o governo escolhe negociar
O presidente Hermes da Fonseca se viu diante de duas opções ruins: atacar e arriscar afundar os navios de guerra mais caros e simbolicamente importantes que o Brasil já havia comprado, ou negociar e ceder às exigências de marinheiros negros contra a cúpula branca da Marinha — humilhação que boa parte da elite considerava inaceitável. O Congresso, liderado pelo influente senador Rui Barbosa, empurrou a saída diplomática. Barbosa argumentou, com ironia, que se os novos encouraçados eram realmente “inafundáveis” como os próprios oficiais alardeavam, então também seria impossível para a Marinha vencê-los em combate — logo, negociar era a única saída sensata.
O ex-capitão José Carlos de Carvalho foi enviado como intermediário e, depois de conversar com a tripulação nos quatro navios, relatou ao Congresso algo incômodo para a caserna: os rebeldes estavam bem organizados, seu armamento funcionava perfeitamente e as queixas sobre a chibata eram, palavras dele, “bem justificadas”. Em 25 de novembro, a Câmara dos Deputados aprovou por 125 votos a 23 um projeto de anistia total aos amotinados e o fim definitivo dos castigos corporais na Marinha. Pressionado pela ameaça de ver seu veto derrubado, Hermes da Fonseca sancionou a lei. No dia 26, a esquadra rebelde retornou à Baía de Guanabara em formação — o Minas Geraes à frente do São Paulo, escoltados pelo Bahia e pelo Deodoro — e, às 19h, os marinheiros aceitaram oficialmente os termos da anistia, encerrando seis dias de tensão que haviam colocado o Rio de Janeiro sob a mira dos próprios navios que deveriam defendê-lo.
A traição: cal viva na cela e um navio rumo à Amazônia
A vitória durou pouco. Nos dias seguintes, cerca de 1.300 marinheiros foram sumariamente dispensados da corporação — tantos que a Marinha teve de contratar tripulantes portugueses para preencher as vagas. Muitos foram despachados de volta aos estados de origem só para tirá-los do Rio de Janeiro. O clima de traição e desconfiança levou a uma nova revolta, em 9 de dezembro: dessa vez a bordo do cruzador Rio Grande do Sul e do batalhão de infantaria naval sediado na Ilha das Cobras — historiadores hoje acreditam que esse segundo levante não tinha ligação direta com o comando de João Cândido, embora ele próprio, ainda a bordo do Minas Geraes, tenha ordenado disparos contra os amotinados da Ilha das Cobras para provar lealdade ao governo. Não adiantou. O Congresso decretou estado de sítio no Rio — com voto contrário isolado do próprio Rui Barbosa — e a repressão que se seguiu foi implacável.
Mais de 600 marinheiros foram presos na Ilha das Cobras. João Cândido e outros dezessete companheiros foram jogados numa cela de isolamento que havia acabado de ser desinfetada com cal viva. A reação química do produto, somada ao calor e à falta de ventilação, matou dezesseis dos dezoito homens na cela ainda durante a noite — apenas João Cândido e outro marinheiro sobreviveram. No mesmo dia, o navio a vapor Satélite partiu do Rio rumo às plantações de borracha da Amazônia levando mais de cem ex-marinheiros e cerca de trezentos outros detidos classificados como “vagabundos”. Nove foram fuzilados e jogados ao mar durante a viagem; boa parte dos demais morreu pouco depois, trabalhando sob o calor tropical em condições que o próprio Rui Barbosa descreveria como “um lugar onde alguém só morre”. João Cândido, traumatizado pela noite na cela, foi internado num hospital psiquiátrico; levou dezoito meses até ele e nove companheiros serem finalmente julgados — e absolvidos — pelas acusações relacionadas às revoltas de dezembro.
Do comando de um encouraçado à venda de peixe no cais
Absolvido pela Justiça, João Cândido nunca foi perdoado pela Marinha nem pela elite que o via como símbolo de uma humilhação que preferia esquecer. Expulso da corporação, jamais conseguiu voltar a trabalhar na área e passou o resto da vida em empregos humildes, sustentando-se da pesca artesanal e chegando a vender peixe no próprio cais do porto do Rio de Janeiro, morando em São João de Meriti. Na década de 1930, chegou a se filiar ao movimento integralista, liderando um núcleo no bairro da Gamboa, e mais tarde se aproximou da Igreja Metodista. Discriminado até o fim da vida, morreu pobre, em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos, vítima de câncer intestinal — quase sessenta anos depois de ter comandado, por alguns dias, os navios de guerra mais poderosos do hemisfério sul.
O reconhecimento oficial só viria décadas depois de sua morte. Em 2008 — 98 anos após a revolta e 39 anos após o falecimento de João Cândido — o Diário Oficial da União publicou a Lei nº 11.756, concedendo anistia formal ao “Almirante Negro” e a seus companheiros, reconhecendo oficialmente que a punição que eles sofreram após a rebelião havia sido injusta. Hoje seu nome batiza escolas, praças e navios, e a Revolta da Chibata é lembrada não apenas como um motim naval, mas como um dos primeiros grandes atos de resistência coletiva de trabalhadores negros contra o Estado brasileiro pós-abolição — um episódio em que, por seis dias de novembro de 1910, o poder de fogo mais avançado do continente esteve nas mãos de homens que a própria Marinha via como “escória”.
Curiosidades rápidas
- A revolta foi batizada inicialmente de “Revolta dos Dreadnoughts”, em referência ao tipo de encouraçado recém-comprado pelo Brasil; o nome “Revolta da Chibata” só se popularizou depois.
- O cruzador Bahia, um dos navios tomados pelos amotinados, detinha o recorde mundial de velocidade entre cruzadores-escoteiros da época.
- Dos aproximadamente 4.000 tripulantes presentes na Baía de Guanabara naquela noite, historiadores estimam que apenas entre 1.500 e 2.000 aderiram de fato ao motim.
- Depois da revolta, os dois dreadnoughts brasileiros foram parcialmente desarmados — tiveram os ferrolhos de seus canhões removidos — por medo de uma nova rebelião.
- João Cândido só recebeu anistia oficial do Estado brasileiro em 2008, quase um século depois da revolta que liderou.
Gustavo Santos
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