O Almirante Negro: a revolta que abalou a Marinha do Brasil em 1910
Na noite de 22 de novembro de 1910, pouco antes das 22h, tiros ecoaram a bordo do encouraçado Minas Geraes, ancorado na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Em minutos, o comandante do navio e vários oficiais leais estavam mortos, e o mais moderno e poderoso navio de guerra do mundo passava para as mãos de um grupo de marinheiros negros e mestiços comandados por um homem analfabeto chamado João Cândido Felisberto. Em poucas horas, mais três navios de guerra — o encouraçado São Paulo, o cruzador Bahia e o veterano Deodoro — também estavam sob controle dos amotinados. Pela primeira vez na história, marujos rasos haviam sequestrado a frota mais avançada de uma nação e apontado seus canhões contra a própria capital do país. A imprensa logo batizou o líder do movimento de ‘Almirante Negro’. O estopim havia sido banal e, ao mesmo tempo, brutal: dias antes, um marinheiro fora açoitado publicamente com 250 chibatadas.
A herança da escravidão dentro dos navios de guerra
Para entender por que homens armados com os navios mais caros e sofisticados do planeta decidiram se voltar contra seus próprios oficiais, é preciso voltar a 1888, quando o Brasil se tornou o último país das Américas a abolir a escravidão. A mudança foi vista com hostilidade pelas elites agrárias e ajudou a precipitar o golpe republicano de 1889. Sem a mão de obra escrava e sem a ordem imperial que a sustentava, sobrou às forças armadas — Marinha incluída — um papel incômodo: servir de ‘depósito’ para milhares de jovens negros, pobres e por vezes órfãos, recolhidos das ruas dos grandes centros urbanos. Alistados como aprendizes a partir dos 13 ou 14 anos, esses meninos ficavam ligados à Marinha por até quinze anos. Em 1910, a corporação registrou apenas 49 voluntários genuínos contra 924 novos marinheiros vindos das escolas de aprendizes — a prova de que a maior parte da tropa era, na prática, recrutada à força entre a parcela mais pobre e mais negra da população.
Um retrato cru dessa hierarquia racial ficou registrado nas próprias palavras do Barão do Rio Branco, o mais celebrado diplomata brasileiro da época: ‘Para o recrutamento de fuzileiros navais e homens alistados, trazemos a bordo a escória de nossos centros urbanos, o subproletariado mais inútil… Ex-escravos e filhos de escravos compõem as tripulações de nossos navios, a maioria deles de pele escura ou de mulatos escuros.’ Os oficiais que comandavam essas tripulações eram, quase sem exceção, brancos e de famílias abastadas. E o instrumento de disciplina que separava as duas castas dentro do mesmo convés era a chibata: um chicote de couro usado para punir até faltas leves, em plena contradição com a Constituição de 1824, que já proibia castigos corporais para cidadãos livres, e com o Exército, que os havia abolido desde 1874. Na Marinha, a prática fora suspensa por poucos meses em 1889 e reinstituída já no ano seguinte, prevendo no mínimo 25 chibatadas para faltas graves — punições que, na prática, chegavam a ultrapassar 300 golpes.
Os dreadnoughts que custaram caro demais
Enquanto o corpo da tropa continuava sendo tratado como no tempo da escravidão, o topo da hierarquia vivia outra realidade: a corrida armamentista naval sul-americana. Pressionado pela disputa de prestígio com Argentina e Chile, e embalado pela receita do café e da borracha — o Brasil chegou a responder por até 80% da oferta mundial de café —, o Congresso brasileiro aprovou em 1904 um ambicioso programa de reaparelhamento naval. O plano ganhou outra dimensão em 1906, quando o Reino Unido lançou o HMS Dreadnought, inaugurando uma nova classe de encouraçados tão superior às anteriores que tornava obsoleta praticamente toda marinha de guerra existente. O Brasil cancelou encomendas menores e fechou contrato para dois — depois três — desses novos gigantes, construídos nos estaleiros Armstrong, em Newcastle, no Reino Unido. Batizados de Minas Geraes e São Paulo, eram, à época de sua entrega em 1910, possivelmente os navios de guerra mais poderosos já comissionados no mundo, e atraíram atenção internacional muito antes de zarparem para o Brasil.
O problema é que a modernização tecnológica não veio acompanhada de nenhuma modernização social. Os mesmos marinheiros negros e mestiços que operariam essas maravilhas de engenharia continuavam sujeitos à chibata e a rações tão precárias que provocavam surtos de beribéri. E foi justamente durante os meses em que ficaram estacionados em Newcastle, aguardando a conclusão dos navios, que o grupo liderado por João Cândido teve a experiência que, segundo o historiador Zachary Morgan, moldou decisivamente o motim: pagos em dia e em dinheiro, tratados com relativo respeito pelos trabalhadores dos estaleiros — que inclusive fizeram greve, atrasando a entrega dos navios — e observando de perto os marinheiros da Marinha Real britânica, que não eram chibatados e eram tratados como cidadãos. Para homens acostumados à humilhação sistemática, aquilo foi, nas palavras do próprio Morgan, ‘chocante’. Foi ali, hospedados nos mesmos hotéis por quase dois anos às custas do governo brasileiro, que os futuros amotinados organizaram comitês secretos e começaram a esperar apenas ‘por uma data e pelo poder’ — ou seja, pelos navios prontos.
250 chibatadas e a gota d’água
De volta ao Brasil, o estopim final veio na pessoa de Marcelino Rodrigues Menezes, marinheiro afro-brasileiro que feriu um companheiro com uma lâmina de barbear depois de ser denunciado a um oficial. Por esse delito, Menezes foi condenado a 250 chibatadas — dez vezes mais que o mínimo previsto em regulamento para faltas graves. Um ex-capitão da Marinha que viu o resultado do castigo relatou ao próprio presidente da República que as costas do marinheiro pareciam ‘uma tainha aberta para salgar’. Há divergência entre historiadores sobre a data exata e mesmo sobre o número preciso de chibatadas — alguns propõem que o total real tenha sido ainda maior, outros suspeitam de um erro de transcrição —, mas há consenso de que esse episódio foi o catalisador imediato de uma revolta que já vinha sendo arquitetada havia anos.
A noite em que os marinheiros tomaram a esquadra
Por volta das 22h de 22 de novembro de 1910, entre 1.500 e 2.000 dos aproximadamente 4.000 marinheiros estacionados no Rio de Janeiro se levantaram simultaneamente a bordo de vários navios. A bordo do Minas Geraes, o comandante João Batista das Neves e outros tripulantes leais tentaram resistir a tiros e foram mortos em combate. O estampido alertou o restante da esquadra ancorada na baía: à meia-noite, os rebeldes já controlavam também o encouraçado São Paulo, o novíssimo cruzador Bahia — onde o único oficial a bordo foi morto depois de atirar em um amotinado — e o navio de defesa costeira Deodoro. A bordo do São Paulo, um tenente preferiu tirar a própria vida a se render. Tripulações de outros navios menores também aderiram, mas somavam apenas cerca de 2% do total de amotinados; a maior parte de seus companheiros fugiu para terra firme ou se juntou aos rebeldes nos navios maiores. Ao amanhecer, observadores contemporâneos notaram, surpresos, que os marinheiros negros — sem qualquer oficial branco a bordo — mantinham perfeito controle técnico dos encouraçados, manobrando-os em formação ao redor da baía como se fossem tripulações profissionais treinadas havia anos. Não deixava de ser irônico: a mesma competência que a elite naval branca insistia em negar a eles era agora a prova viva de sua capacidade.
Doze horas para o presidente responder
Ainda antes da meia-noite, os amotinados telegrafaram ao recém-empossado presidente Hermes da Fonseca — sobrinho do primeiro presidente da República e havia apenas uma semana no cargo — uma mensagem direta: ‘Não queremos o retorno da chibata… Queremos uma resposta imediata. Se não recebermos tal resposta, destruiremos a cidade e os navios que não são revoltantes.’ O presidente se recusou a negociar diretamente. Os rebeldes então deslocaram a esquadra até a Ilha do Viana para se reabastecer de carvão e mantimentos, preparando-se para um possível cerco prolongado, e enviaram ao governo os corpos dos marinheiros mortos no Minas Geraes, junto com uma carta assinada por João Cândido e seus companheiros, exigindo o fim da ‘escravidão’ na Marinha: abolição da chibata e de castigos semelhantes, aumento de soldo, reforma do código disciplinar e afastamento de oficiais considerados incompetentes.
Na manhã seguinte, os navios rebeldes dispararam contra fortes ao redor da Baía de Guanabara, o arsenal naval, as bases da Ilha das Cobras e da Ilha de Villegagnon, Niterói e arredores do palácio presidencial — mirando alvos militares, e não a destruição indiscriminada da cidade, o que historiadores interpretam como um cálculo político dos próprios amotinados para preservar apoio popular. Ainda assim, uma bomba atingiu uma casa no bairro do Castelo, matando duas crianças. O peso desse episódio marcou profundamente João Cândido, que décadas depois, em entrevista, ainda se lembrava de como ele e seus companheiros juntaram dinheiro do próprio ‘salário miserável’ para custear o enterro das vítimas.
O governo se viu diante de duas opções igualmente ruins: atacar os próprios navios que representavam bilhões em investimento e prestígio internacional recém-conquistado — arriscando, ainda por cima, perder o combate, já que os navios leais ao governo eram mais velhos e mais fracos — ou ceder às exigências de uma tropa formada majoritariamente por homens negros e pobres, o que seria visto como humilhação pelas classes dominantes. O presidente Hermes da Fonseca tentou os dois caminhos ao mesmo tempo: enquanto autorizava seu ministro da Marinha a arquitetar secretamente uma solução militar, o Congresso Nacional — liderado pelo senador Rui Barbosa, ex-candidato à presidência — negociava uma saída diplomática, nomeando o ex-capitão José Carlos de Carvalho como intermediário junto aos amotinados. Carvalho relatou ao Congresso que os rebeldes estavam bem organizados, com armamento plenamente funcional, e que suas queixas contra a chibata eram justificadas. Rui Barbosa então usou a própria retórica naval contra os oficiais: se os dreadnoughts eram tão invencíveis quanto propagandeado, argumentou, nenhum navio remanescente nas mãos do governo teria chance de vencê-los em combate — logo, a única saída sensata era negociar. O projeto de anistia passou pelo Senado por unanimidade em 25 de novembro e, no dia seguinte, pela Câmara dos Deputados por 125 votos a 23. Pressionado pela ameaça de ter um veto derrubado pelo Congresso, o presidente sancionou a lei. Às 19h de 26 de novembro, os amotinados aceitaram formalmente os termos e devolveram os navios ao governo, com o Minas Geraes liderando a formação de retorno à baía.
A anistia traída
A vitória durou pouco. Nos dias seguintes, mais de 1.300 marinheiros foram sumariamente dispensados da Marinha — uma sangria de pessoal tão drástica que a corporação precisou contratar marujos portugueses às pressas para preencher as vagas. Tensões voltaram a crescer, e em 9 de dezembro, pouco mais de duas semanas depois da anistia, a tripulação do cruzador Rio Grande do Sul — o único grande navio de guerra que não havia participado da revolta original — tentou um novo motim, sem sucesso, seguido por um levante do batalhão de infantaria da Marinha na Ilha das Cobras. O governo esmagou as duas rebeliões rapidamente e aproveitou o pretexto para declarar estado de sítio no Rio de Janeiro — medida aprovada no Congresso por votação quase unânime, com Rui Barbosa como voto solitário contrário.
Mais de 600 marinheiros foram presos na Ilha das Cobras nessa onda de repressão, entre eles João Cândido e outros dezessete companheiros, transferidos para uma cela de isolamento recém-desinfetada com cal viva. A reação química entre a cal e o dióxido de carbono da respiração dos presos, em um espaço fechado e superlotado, produziu calor e gases tóxicos: na manhã seguinte, apenas dois dos dezoito homens trancados ali continuavam vivos. No mesmo dia, o vapor Satélite partiu do Rio de Janeiro rumo às plantações de borracha da Amazônia, levando mais de cem ex-marinheiros e cerca de trezentos outros detidos classificados como ‘vagabundos’. Nove foram fuzilados pela própria tripulação do navio durante a viagem, e muitos dos sobreviventes morreram pouco depois, trabalhando sob calor tropical em condições que o senador Rui Barbosa descreveu como ‘um lugar onde alguém só morre’.
O Almirante Negro depois da revolta
João Cândido sobreviveu à cela de cal viva, mas emergiu dali sofrendo alucinações e foi internado em um hospital psiquiátrico, considerado mentalmente perturbado pelas autoridades. Levou dezoito meses até ser julgado, junto com nove outros marinheiros, pelas acusações relacionadas às revoltas de dezembro — processo que terminou em absolvição, em 1º de dezembro de 1912, mas mesmo assim ele foi expulso da Marinha. Sem carreira, sem pensão e carregando o estigma de amotinado, sobreviveu como pescador e vendedor ambulante nas décadas seguintes, praticamente esquecido pelo país que uma vez o chamara de almirante.
Sua história só voltou à luz em 1959, quando o jornalista Edmar Morel publicou o livro ‘A Revolta da Chibata’, resgatando do esquecimento a figura de João Cândido e o próprio episódio, até então tratado com constrangimento pela historiografia oficial. Décadas mais tarde, em 23 de julho de 2008 — quase cem anos após a revolta —, o governo brasileiro reconheceu formalmente que as causas do motim eram legítimas e concedeu anistia post-mortem aos marinheiros envolvidos. Quanto à Marinha, a Reforma Militar de 1911 chegou a prometer melhorias nas condições de vida e trabalho da tropa, incluindo escolas de aprendizado naval mais estruturadas, mas o programa mais ambicioso foi engavetado já em 1912, quando uma nova administração assumiu. Os dreadnoughts que haviam custado uma fortuna e simbolizado as ambições internacionais do Brasil foram desarmados logo após a revolta — literalmente, com a remoção dos ferrolhos de suas próprias armas — e, junto com o resto da frota, foram deixados se deteriorar nos anos seguintes.
Curiosidades rápidas
- O nome oficial do episódio, batizado pela imprensa da época, foi inicialmente ‘Revolta dos Dreadnoughts’, só depois consagrado como Revolta da Chibata.
- Os marinheiros passaram quase dois anos hospedados em hotéis de Newcastle, no Reino Unido, às custas do governo brasileiro, enquanto aguardavam a conclusão dos encouraçados — período que, segundo historiadores, foi decisivo para a organização do motim.
- Em 1910, a Marinha brasileira recebeu apenas 49 voluntários genuínos, contra 924 recrutas vindos das escolas de aprendizes, evidenciando o quanto o recrutamento dependia de coerção.
- A revolta rendeu aos amotinados o controle de uma força naval superior, sozinha, a todo o resto da Marinha brasileira combinada — os dreadnoughts eram considerados, à época, possivelmente os navios de guerra mais poderosos já comissionados no mundo.
- Apenas dois dos dezoito marinheiros trancados na cela de isolamento da Ilha das Cobras sobreviveram à noite; João Cândido foi um deles.
Gustavo Santos
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