Ranavalona I: a rainha que fechou Madagascar e usou veneno como juiz
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Ranavalona I: a rainha que fechou Madagascar e usou veneno como juiz

19 de julho, 2026 Gustavo Santos

Em 11 de agosto de 1828, uma viúva de 50 anos subiu ao topo da colina real de Antananarivo, capital do reino de Imerina, no planalto central de Madagascar, e se declarou soberana absoluta da ilha. Não havia testamento escrito que a designasse, nem sangue direto que a tornasse a herdeira óbvia — o trono deveria ir para um sobrinho do rei falecido, um jovem educado nas escolas cristãs recém-abertas pelos missionários britânicos. Mas essa viúva tinha o apoio do exército e um talento notável para a política de bastidores. Nos 33 anos seguintes, Ranavalona I transformaria Madagascar num dos poucos territórios da África a resistir à colonização europeia durante o século XIX — ao custo de um dos regimes mais implacáveis que a região já viu, marcado por um “tribunal” em forma de veneno e pela perseguição sistemática de uma religião inteira.

Uma sucessão que não deveria ter acontecido

Ranavalona nasceu por volta de 1778 com o nome Rabodonandrianampoinimerina, filha de um nobre que havia alertado o rei Andrianampoinimerina sobre uma conspiração contra sua vida. Como recompensa, o rei prometeu a menina em casamento ao próprio filho e herdeiro, o príncipe Radama. Quando Radama I assumiu o trono em 1810 e iniciou um reinado de modernização — abrindo o país a missionários, comerciantes e conselheiros britânicos —, Ramavo (como também era chamada) permaneceu uma de suas várias esposas, sem posição de destaque especial.

Tudo mudou quando Radama I morreu repentinamente em 1828, aos 36 anos, provavelmente em decorrência do alcoolismo e da sífilis. Pelas regras de sucessão, o trono pertencia a Rakotobe, sobrinho do rei e neto de sua irmã mais velha — um rapaz inteligente, educado na primeira escola aberta pela Sociedade Missionária de Londres na capital. Mas a corte se dividiu em duas facções, e Ramavo contou com um trunfo decisivo: o apoio de oficiais graduados do exército, de guardiões dos ídolos reais e de juízes influentes. Enquanto se escondia por segurança, seus aliados articularam o golpe. No dia da aclamação, ela anunciou que o próprio Radama, em vida, a havia escolhido como sucessora — uma alegação impossível de contestar publicamente sem parecer traição ao rei morto.

Coroada com o nome de reinado Ranavalona (“aquela que é dobrada em muitas partes”, numa tradução aproximada), ela seguiu o costume real de eliminar qualquer ameaça à própria legitimidade. Rakotobe foi executado por lança, prática reservada à nobreza para evitar o derramamento de sangue considerado impuro. Sua mãe e outros parentes próximos de Radama I foram mortos ou empurrados ao exílio. Em poucas semanas, a viúva sem reivindicação hereditária forte havia eliminado fisicamente todos os rivais plausíveis.

Fechando as portas da ilha para a Europa

Diferente do marido, que buscara ativamente laços com a Grã-Bretanha para modernizar o exército e a administração, Ranavalona via a crescente presença estrangeira como uma ameaça à soberania de Imerina. Ela revogou os tratados comerciais assinados por Radama I, impôs pesadas taxas às companhias europeias e, em 1835, decretou a proibição total do cristianismo no território — extinguindo de saída a obra de mais de uma década dos missionários da Sociedade Missionária de Londres, que haviam criado escolas, introduzido a imprensa e alfabetizado boa parte da elite malgaxe usando o alfabeto latino.

A ruptura diplomática chegou a um confronto armado em 1845, quando uma esquadra conjunta franco-britânica bombardeou o porto de Toamasina (Tamatave) em retaliação a taxas consideradas abusivas contra comerciantes europeus. O ataque fracassou: as forças malgaxes repeliram o desembarque, episódio que a corte de Ranavalona transformou em prova de que a ilha podia, sim, enfrentar as potências ocidentais sozinha. Historiadores contemporâneos frequentemente citam Madagascar, ao lado da Etiópia, como uma das poucas nações africanas do século XIX a atravessar praticamente todo o período do imperialismo europeu sem ser formalmente colonizada — um feito que se deve, em grande parte, à intransigência dessa política de isolamento.

O tangena: quando o veneno decidia culpa ou inocência

Para manter a ordem interna sem depender de instituições jurídicas ao molde europeu, Ranavalona recorreu e expandiu uma prática tradicional malgaxe: a ordália do tangena. Extraído da noz da árvore nativa Cerbera manghas, o veneno era administrado ao acusado — de traição, feitiçaria, roubo ou qualquer outro crime — junto com três pedaços de pele de galinha. Se a pessoa vomitasse os três pedaços intactos, era declarada inocente. Se morresse, ou não conseguisse regurgitar tudo, a culpa estava selada, geralmente com a morte como consequência adicional.

O problema é que o tangena não distinguia veneno de acusação: a taxa de mortalidade entre os submetidos à prova girava entre 20% e 50%, dependendo da dose administrada por quem conduzia o ritual — o que, na prática, dava a esse oficiante um poder imenso sobre a vida alheia. Nas décadas de 1820, o tangena já matava cerca de mil pessoas por ano em Imerina. Sob Ranavalona, esse número disparou: estima-se uma média de 3.000 mortes anuais entre 1828 e 1861, com picos assustadores — em 1838 chegou-se a calcular que 100 mil pessoas, cerca de 20% da população da região central do reino, haviam perecido pela ordália em um único período de intensificação da perseguição religiosa. A prática atingia todas as classes sociais: nobres, plebeus e escravizados podiam ser convocados a beber o veneno, tornando-a ao mesmo tempo instrumento judicial, arma política e mecanismo de terror social.

Os mártires de Madagascar

A proibição do cristianismo, decretada em 31 de março de 1835, obrigou os poucos milhares de malgaxes convertidos a escolher entre renunciar publicamente à fé ou enfrentar as consequências. Muitos optaram por continuar praticando em segredo, reunindo-se em grutas e residências privadas para orar e ler as escrituras traduzidas para a língua malgaxe pelos próprios missionários antes de sua expulsão.

A primeira mártir reconhecida foi Rasalama, uma jovem convertida presa em julho de 1837 e entregue como escrava a um cortesão após se recusar a abandonar a fé. Em 14 de agosto daquele ano, depois de uma noite acorrentada, ela foi conduzida à colina de Ambohipotsy, executada a golpes de lança enquanto cantava hinos, e seu corpo foi deixado insepulto como advertência pública. O local se tornaria, décadas depois, sítio de peregrinação e memória para a Igreja malgaxe.

A perseguição se intensificou nos anos seguintes e adotou métodos cada vez mais brutais. Em 1849, dezenas de cristãos foram condenados de uma só vez: alguns escravizados, outros multados, e ao menos um grupo despenhado do alto do precipício de Ampamarinana, nos arredores da capital — um penhasco que passou a ser conhecido informalmente como o “salto dos mártires”. Outros ainda foram queimados vivos na colina de Faravohitra. Estima-se que, ao longo de todo o reinado, cerca de 2.055 cristãos tenham sido multados, escravizados ou mortos por sua fé, embora os números exatos permaneçam incertos devido à natureza clandestina das reuniões e à destruição de registros.

A fábrica escondida nas montanhas de Mantasoa

Paradoxalmente, a mesma soberana que expulsava missionários e fechava as fronteiras ao comércio europeu dependia profundamente de um estrangeiro para consolidar seu poder militar. Em 1831, o náufrago francês Jean Laborde — filho de um ferreiro da Gasconha que tentava recuperar tesouros de embarcações afundadas na costa malgaxe — conquistou a confiança da rainha e foi encarregado de uma missão ambiciosa: tornar Madagascar autossuficiente na fabricação de armas, para que o reino não precisasse mais importar fuzis e canhões das mesmas potências que Ranavalona tentava manter à distância.

Usando cerca de 20 mil trabalhadores recrutados por meio do sistema de trabalho forçado chamado fanompoana — cobrado como uma espécie de imposto em mão de obra em vez de dinheiro —, Laborde construiu em Mantasoa, a leste da capital, um complexo industrial completo: fornos de fundição, oficinas de fuzis e canhões, fábricas de pólvora, vidro, sabão, papel, cerâmica e móveis. Por quase duas décadas, esse polo escondido nas colinas produziu o armamento que sustentou o exército de Ranavalona — estimado entre 20 mil e 30 mil soldados — usado tanto para reprimir rebeliões internas quanto para expandir o controle do reino de Imerina sobre outras regiões da ilha. Laborde acabaria, mais tarde, se tornando o primeiro cônsul francês em Madagascar, já sob o governo de Napoleão III — uma ironia e tanto para o homem que ajudara a rainha a resistir justamente à influência francesa.

Os homens que governavam por trás do trono

Governar sozinha, sem um marido reconhecido, teria sido politicamente inviável na corte de Imerina — por isso Ranavalona cultivou uma sucessão de consortes que, na prática, funcionavam como seus primeiros-ministros e comandantes militares. O primeiro deles foi Andriamihaja, um jovem cortesão que rapidamente se tornou o homem mais poderoso do reino depois da própria rainha, até ser condenado à morte em 1830 sob acusação de adultério com uma das outras esposas reais — episódio que, para muitos historiadores, escondia uma disputa de poder entre facções da corte mais do que um crime real.

Em 1833, o posto foi ocupado por Rainiharo, que assumiu simultaneamente os cargos de comandante-em-chefe do exército e primeiro-ministro, além de se tornar consorte da rainha — mesmo mantendo sua esposa oficial, Rabodomiarana, de acordo com os costumes locais que permitiam a poligamia. Rainiharo comandaria os assuntos de Estado por quase 20 anos, incluindo a defesa bem-sucedida contra o ataque franco-britânico de 1845, até morrer em 1852. O cargo passou então a seu próprio filho, Rainilaiarivony, que repetiria a estratégia do pai ao se casar, mais tarde, sucessivamente com três rainhas malgaxes diferentes — incluindo a neta de Ranavalona — e concentrar o poder executivo do reino em suas mãos por décadas, muito depois da morte da própria Ranavalona I. Esse arranjo revela um traço central do governo da rainha: por mais que ela concentrasse a autoridade simbólica e o poder de decretar a vida e a morte de qualquer súdito, a administração cotidiana do reino dependia de uma rede estreita de homens fortes que ela mesma escolhia, promovia e, quando necessário, descartava.

O fim abrupto de uma era

Ranavalona I morreu durante o sono, em 16 de agosto de 1861, no palácio de Manjakamiadana, dentro do complexo real de Antananarivo — encerrando um reinado de 33 anos, um dos mais longos da história malgaxe. Seu filho e sucessor, Radama II, que havia crescido sob forte influência de conselheiros europeus e simpatizava com a reabertura ao Ocidente, revogou quase instantaneamente o legado da mãe: reabriu o país a missionários e comerciantes estrangeiros, decretou liberdade religiosa, aboliu formalmente a ordália do tangena e suspendeu o fanompoana como forma de tributo.

A reviravolta foi tão radical que a própria memória de Ranavalona se tornou incômoda para os relatos ocidentais subsequentes — que a apelidaram de “a Cruel” ou a “Rainha Louca” de Madagascar, retrato reforçado por décadas de historiografia colonial europeia interessada em justificar a futura anexação francesa da ilha, ocorrida definitivamente em 1897. Pesquisas históricas mais recentes propõem uma leitura mais complexa: a de uma governante que, com os instrumentos brutais disponíveis em sua época e cultura, conduziu uma das defesas mais bem-sucedidas da soberania africana contra o avanço colonial europeu do século XIX — um sucesso que teve, sem dúvida, um preço humano altíssimo pago majoritariamente por seus próprios súditos.

Curiosidades rápidas

  • Estima-se que a população da região central de Imerina tenha caído de forma expressiva durante o reinado de Ranavalona, em parte por causa das mortes causadas pelo tangena, pelas guerras de expansão e pelo trabalho forçado do fanompoana.
  • O complexo industrial de Mantasoa, construído por Jean Laborde, é considerado um dos primeiros polos de industrialização da África Subsaariana e hoje é sítio histórico visitável em Madagascar.
  • A “prova do tangena” só foi oficialmente abolida em 1863, dois anos após a morte de Ranavalona, por decreto de seu filho Radama II.
  • Madagascar e a Etiópia costumam ser citadas como os únicos territórios africanos que atravessaram quase todo o século XIX sem cair sob domínio colonial europeu direto — Madagascar seria anexada pela França apenas em 1897, décadas após a morte de Ranavalona.
  • A colina de Ambohipotsy, onde a mártir Rasalama foi executada em 1837, abriga hoje uma igreja memorial e continua sendo um local de peregrinação para cristãos malgaxes.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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