As primeiras notas de banco da Europa e o banqueiro condenado à morte
Estocolmo, 16 de julho de 1661. Um financista de origem letã chamado Johan Palmstruch entrega, aos correntistas de seu banco, pequenos pedaços de papel assinados à mão que prometem pagamento futuro em moedas de metal. Parece um detalhe burocrático qualquer, mas aquele papel é a primeira nota bancária impressa da história europeia. Em poucos anos, a mesma ideia que resolveu um problema monetário sueco levaria seu criador à prisão e quase à forca — e, de forma irônica, daria origem ao banco central mais antigo do mundo ainda em atividade.
Um comerciante de Riga que virou banqueiro do rei
Johan Wittmacher nasceu em 1611 em Riga, então parte da Livônia, filho de um comerciante. Por volta de 1634 mudou-se para Amsterdã, cidade que na época já abrigava um dos bancos públicos mais avançados da Europa. Anos depois, instalado na Suécia, tornou-se comissário do conselho nacional de comércio e, em 1651, foi elevado à nobreza sueca, adotando o sobrenome Palmstruch. A partir de 1654 passou a apresentar ao rei Carlos X Gustavo propostas para criar um banco no país. As duas primeiras foram recusadas; a terceira, que prometia à coroa metade dos lucros da instituição, foi aceita. Em 1657 nascia o Stockholms Banco, com Palmstruch como diretor-geral.
O problema das duas moedas
A Suécia da época não tinha uma moeda unificada: circulavam dalers cunhados em cobre e dalers cunhados em prata. Como o valor do metal precisava ser equivalente, os dalers de cobre eram discos enormes — algumas peças chegavam a pesar quilos, verdadeiras placas que precisavam ser transportadas em carroças. Na prática, a prata valia mais e era entesourada pela população, restando em circulação sobretudo aquelas moedas de cobre pesadas e incômodas. O Stockholms Banco recebia depósitos e concedia empréstimos, mas usava o dinheiro depositado pelos correntistas para financiar os empréstimos de longo prazo — um descasamento perigoso entre prazos que logo cobraria seu preço.
A ideia genial: papel que valia mais que metal
Em 1660, o teor de cobre das moedas foi reduzido em 17%, e os correntistas correram ao banco para resgatar os dalers de cobre antigos, agora mais valiosos como metal do que como dinheiro. O banco não tinha como devolver tudo o que fora emprestado. Foi para cobrir esse buraco que, em 16 de julho de 1661, Palmstruch começou a emitir os chamados Kreditivsedlar — notas de crédito em valores redondos (5, 25, 100 e 1.000 dalers de cobre), livremente transferíveis e assinadas por ele e pelos escriturários do banco. Eram leves, cabiam num envelope e podiam substituir sacas inteiras de moedas pesadas. O público adorou: pela primeira vez na Europa, pedaços de papel circulavam como dinheiro de verdade.
O sucesso vira armadilha
O problema é que nada limitava a quantidade de notas que o banco podia imprimir. A partir de 1663, os empréstimos concedidos por Palmstruch cresceram muito além do que os depósitos e as reservas de metal do banco conseguiam sustentar — ele passou a emitir crédito sem lastro real. Já no outono daquele ano, o valor das notas começou a cair, e quando os correntistas voltaram ao banco para trocar seus papéis por moedas, não havia metal suficiente para todos. A partir de outubro, o banco passou a recusar resgates, e em 1664 as operações pararam por completo.
A quebra, o julgamento e a sentença de morte
O governo sueco e o Riksdag (parlamento) tiveram que intervir, reduzindo os empréstimos pendentes e trocando as notas remanescentes por moedas. A liquidação do banco se completou em 1667. Palmstruch foi levado à Corte de Apelação de Svea, acusado de contabilidade irresponsável e de não ter caixa para honrar as notas emitidas por erros e omissões em seus livros. Em 1668 foi condenado a perder o título de nobreza, o privilégio de operar um banco e a pena de exílio perpétuo ou morte. A sentença de morte acabou comutada, mas ele permaneceu preso até 1670 e morreu no ano seguinte, aos 60 anos.
Do fracasso nasceu o banco central mais antigo do mundo
Em 17 de setembro de 1668, o privilégio de operar um banco na Suécia passou para o Riksens Ständers Bank, administrado diretamente pelo parlamento — justamente para evitar que um único diretor tivesse poder demais sobre a emissão de dinheiro. Por causa do colapso de Palmstruch, essa nova instituição só voltou a emitir notas de papel no século XVIII. Ela foi rebatizada em 1866 como Sveriges Riksbank e continua em funcionamento até hoje, sendo reconhecida como o banco central mais antigo do mundo ainda em atividade — um legado direto do experimento de papel que quase destruiu seu inventor.
Curiosidades rápidas
- As primeiras notas de 1661 vinham em quatro valores: 5, 25, 100 e 1.000 dalers de cobre.
- Uma segunda série, chamada de “Palmstruchare”, foi emitida em 1666 em dalers de prata.
- Os dalers de cobre eram tão grandes que algumas peças de maior valor pesavam quilos e precisavam ser carregadas em carroças.
- O Stockholms Banco nunca foi uma ideia totalmente original: era uma imitação, mal executada, dos bancos públicos de Amsterdã e Hamburgo.
- Por causa do fiasco de Palmstruch, o sucessor do banco ficou proibido de emitir papel-moeda por quase um século.
Gustavo Santos
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