O dia em que Napoleão se rendeu a bordo do “Billy Ruffian”
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O dia em que Napoleão se rendeu a bordo do “Billy Ruffian”

15 de julho, 2026 Gustavo Santos

Na madrugada de 15 de julho de 1815, um pequeno brigue chamado Épervier deslizava pelas águas ao largo do porto francês de Rochefort levando o passageiro mais procurado da Europa. Derrotado em Waterloo menos de um mês antes, cercado por navios britânicos e sem rota de fuga para os Estados Unidos, Napoleão Bonaparte estava prestes a fazer algo que nenhum inimigo tinha conseguido arrancar dele em vinte anos de guerra: render-se. E o navio que o esperava, ironicamente, era um velho conhecido de suas batalhas — o HMS Bellerophon, apelidado pelos marinheiros de “Billy Ruffian”.

Um navio que já tinha cruzado o caminho de Napoleão antes

O Bellerophon não era um navio qualquer escolhido ao acaso. Lançado em 1786, o “setenta e quatro” (referência aos 74 canhões que carregava) já tinha um currículo de guerra impressionante: lutou na Batalha do Primeiro de Junho (1794), na Batalha do Nilo (1798) — onde ficou ao lado do imenso navio francês Orient e sofreu avarias severas — e em Trafalgar (1805), onde seu capitão John Cooke morreu em combate. Em 1815, sob o comando do capitão Frederick Maitland, o navio fazia o bloqueio do porto atlântico de Rochefort quando recebeu a notícia de que o imperador derrotado estava escondido ali perto, tentando encontrar uma saída pelo mar.

A fuga que não deu certo

Depois de Waterloo, em 18 de junho, Napoleão chegou a Rochefort em 2 de julho esperando embarcar rumo aos Estados Unidos antes que a restauração da monarquia dos Bourbons o alcançasse. O problema era que o Bellerophon e outros navios britânicos vigiavam exatamente as saídas do porto. Pressionado pelo governo provisório francês para deixar o solo do país o quanto antes — sob risco de cair nas mãos de prussianos, austríacos ou dos próprios Bourbons — Napoleão via suas opções se esgotarem dia após dia.

As negociações com o capitão inglês

Em 10 de julho, Napoleão enviou dois emissários, o general Savary e o conde de Las Cases, para negociar com Maitland a possibilidade de deixá-lo seguir para os Estados Unidos. Maitland, seguindo ordens diretas, recusou — mas ofereceu uma alternativa: levá-lo, com sua comitiva, para a Grã-Bretanha a bordo do próprio Bellerophon. As conversas se estenderam por dias, mas em 13 de julho, sem mais margem de manobra, Napoleão decidiu se entregar aos britânicos. No dia seguinte, Maitland recebeu a confirmação por carta: o imperador embarcaria na manhã seguinte.

A rendição na madrugada de 15 de julho

Napoleão subiu no brigue Épervier ainda de madrugada. No caminho até o Bellerophon, avistou-se o HMS Superb se aproximando, com o vice-almirante Hotham a bordo — superior de Maitland. Temendo que Hotham chegasse primeiro e acabasse recebendo a rendição em seu lugar, Maitland mandou o próprio baleeiro do Bellerophon buscar Napoleão às pressas. Entre 6h e 7h da manhã, o general Bertrand subiu a bordo, seguido pelo imperador. Os fuzileiros da Marinha Real se puseram em posição, e Napoleão, tirando o chapéu diante de Maitland, declarou em francês a frase que selaria o fim de mais de duas décadas de guerra entre Grã-Bretanha e França: “Venho me colocar sob a proteção de vosso Príncipe e de vossas leis.” Maitland apenas curvou-se em resposta.

Três semanas de convivência forçada

Maitland cedeu sua própria cabine principal a Napoleão e organizou um jantar formal na noite da chegada, reunindo a comitiva francesa e os oficiais britânicos. Nos dias seguintes, uma rotina se estabeleceu a bordo: caminhadas no convés por volta das 17h, jantar às 18h, tripulação se afastando e tirando o chapéu sempre que o ex-imperador aparecia. Em 23 de julho, quando o Bellerophon avistou a ilha de Ushant — o último pedaço de terra francesa visível na rota —, Napoleão subiu ao convés de popa ao amanhecer e passou a manhã observando a costa desaparecer no horizonte, em silêncio, sem trocar palavra com ninguém.

Da curiosidade pública ao exílio definitivo

Ao ancorar perto de Brixham, na Inglaterra, em 24 de julho, a notícia de que Napoleão estava a bordo vazou e provocou um alvoroço: multidões de curiosos em pequenos barcos cercaram o Bellerophon na esperança de avistar o imperador. Maitland recusou qualquer contato com a costa. Em 31 de julho, veio a decisão final das autoridades britânicas: exílio na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, com direito a levar apenas três oficiais, um cirurgião e doze criados. Napoleão, que ainda alimentava esperança de se estabelecer discretamente na própria Inglaterra, ficou profundamente decepcionado. Como o Bellerophon — já um navio envelhecido — foi considerado inadequado para a longa travessia, coube ao HMS Northumberland levá-lo à ilha. Em 7 de agosto, depois de mais de três semanas a bordo sem nunca ter pisado em solo inglês, Napoleão agradeceu a Maitland e à tripulação e transferiu-se para o Northumberland. Ele morreria em Santa Helena em maio de 1821, seis anos depois.

Curiosidades rápidas

  • O apelido “Billy Ruffian” era a forma como os marinheiros britânicos, sem conseguir pronunciar “Bellerophon” corretamente, batizaram o navio.
  • Cerca de 50 pessoas da comitiva de Napoleão pretendiam segui-lo ao exílio, incluindo cinco generais, esposas de dois deles, quatro crianças e dez oficiais.
  • Depois de deixar Napoleão em terra, o Bellerophon nunca mais navegou em serviço ativo: foi transformado em navio-prisão e, anos depois, rebatizado “Captivity” para liberar seu nome original a outro navio.
  • O capitão Maitland publicou seu relato pessoal sobre as semanas com Napoleão a bordo apenas em 1826, mais de dez anos após o episódio.
  • Um bode que fornecia leite para Napoleão durante a travessia acabou virando relíquia: seu crânio está preservado hoje no National Maritime Museum, em Londres.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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