Édito de Expulsão de 1290: a Inglaterra sem judeus por 366 anos
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Édito de Expulsão de 1290: a Inglaterra sem judeus por 366 anos

18 de julho, 2026 Gustavo Santos

No dia 18 de julho de 1290, o rei Eduardo I da Inglaterra assinou um documento curto, seco e burocrático — um daqueles textos que, lidos hoje, parecem inofensivos até você entender o que realmente significavam. O tal édito ordenava que todos os xerifes do reino garantissem que nenhum judeu continuasse pisando em solo inglês depois de 1º de novembro daquele ano. Não era uma expulsão de uma cidade, nem de uma região. Era o reino inteiro. Cerca de 3 mil pessoas — famílias, comerciantes, médicos, rabinos, crianças — tiveram poucos meses para abandonar casas, negócios e cemitérios que suas famílias ocupavam havia mais de duzentos anos. Foi, ao que se sabe, a primeira vez que um Estado europeu baniu permanentemente uma população judaica de seu território inteiro — um modelo macabro que outros reis, como Filipe IV da França, copiariam décadas depois. E os judeus só voltariam a ter permissão legal para viver na Inglaterra 366 anos mais tarde.

Como os judeus chegaram à Inglaterra e por que viraram banqueiros do rei

Antes de 1066 praticamente não havia comunidade judaica organizada na Inglaterra. Foi Guilherme, o Conquistador, quem trouxe famílias judias da Normandia logo após invadir a ilha, sobretudo para atuarem como financiadores da coroa e do comércio em expansão. A lógica era simples e cruel ao mesmo tempo: a Igreja proibia cristãos de emprestar dinheiro a juros (o chamado pecado da usura), então os judeus — que não estavam sujeitos a essa proibição canônica e, além disso, tinham poucas outras profissões abertas a eles por lei e por preconceito — passaram a ocupar esse nicho financeiro. Reis, nobres, mosteiros e mercadores recorriam a eles para financiar guerras, catedrais e safras.

Esse papel trouxe alguma prosperidade a comunidades em Londres, York, Lincoln, Norwich e Oxford, mas também as tornou reféns políticos. A coroa taxava os judeus pesadamente sempre que precisava de caixa — eram, na prática, uma espécie de “conta bancária real” que o rei podia sacar quando quisesse, protegendo-os formalmente como propriedade sob tutela do soberano, mas também os expondo à fúria popular sempre que dívidas se acumulavam. Ser essencial financeiramente e, ao mesmo tempo, profundamente impopular é uma combinação perigosa — e foi exatamente isso que preparou o terreno para os cento e poucos anos de violência crescente que antecederam 1290.

York, 1190: o massacre em Clifford’s Tower

Um século antes do édito, a coroação de Ricardo Coração de Leão, em 1189, foi seguida por uma onda de motins antijudaicos em Londres, Norwich, Stamford, Lincoln e, principalmente, York. Boatos, fervor religioso ligado às Cruzadas e — não por acaso — o interesse direto de nobres locais endividados com credores judeus formaram uma mistura explosiva. Homens como Richard Malebisse, que devia somas consideráveis a financistas judeus da cidade, estavam entre os que incitaram a violência, vendo no caos uma chance de apagar suas próprias dívidas.

Em 16 de março de 1190, a comunidade judaica de York — cerca de 150 pessoas — buscou refúgio na torre do castelo real, no local onde hoje se ergue Clifford’s Tower. Cercados por uma multidão, sem chance real de escapar, muitos optaram por tirar a própria vida a se entregarem para serem mortos ou batizados à força. Os poucos que se recusaram ao suicídio e se renderam também não sobreviveram: morreram queimados ou assassinados pelos que invadiram a torre. A cidade recebeu uma multa pesada da coroa, mas os instigadores do massacre já haviam fugido e nenhum deles foi punido. Uma nova comunidade judaica se formaria em York nos anos seguintes — e continuaria ali até ser varrida pelo mesmo édito de 1290.

A acusação inventada que virou culto: o caso de Hugh de Lincoln

Em 31 de julho de 1255, um menino de oito anos chamado Hugh desapareceu na cidade de Lincoln. Seu corpo foi encontrado quase um mês depois, em 29 de agosto, dentro de um poço. Sob pressão, um homem judeu chamado Copin confessou — a um funcionário da coroa ligado ao bispo local — que o menino teria sido crucificado por um grupo de judeus reunidos em Lincoln especificamente para esse fim. Não havia nenhuma base factual real para a acusação, mas ela seguia um roteiro que já se repetia havia séculos pela Europa: a chamada “difamação de sangue”, a crença absurda e infundada de que judeus sacrificavam crianças cristãs em rituais religiosos.

O rei Henrique III, pai de Eduardo I, chegou a Lincoln logo depois e tratou o caso com uma gravidade sem precedentes: mandou executar Copin e ordenou a prisão de 91 judeus da cidade, enviados a Londres, onde 18 deles acabaram executados. Foi a primeira vez que a coroa inglesa deu crédito oficial a uma acusação de assassinato ritual — um precedente perigosíssimo. O relato ganhou ainda mais força com a crônica do monge Matthew Paris e, décadas depois, com o próprio apoio de Eduardo I ao culto popular que se formou em torno da suposta vítima, conhecida como “Pequeno São Hugh de Lincoln”. A lenda se espalhou pela literatura inglesa e alimentou preconceitos antijudaicos por séculos — Geoffrey Chaucer chegaria a referenciá-la em “Os Contos de Cantuária”, já no fim do século XIV. É nesse tipo de terreno, semeado de mitos violentos e cada vez mais aceitos pela própria coroa, que o édito de 1290 encontraria seu caminho livre de resistência popular.

O escândalo da “raspagem de moedas” e a Torre de Londres lotada

Em 1275, Eduardo I promulgou o chamado Estatuto da Judiaria (Statute of the Jewry), que proibia formalmente os judeus de emprestar dinheiro a juros — cortando de uma vez a atividade que, décadas antes, a própria coroa havia empurrado sobre eles — e lhes dava quinze anos para migrar para outras ocupações, como agricultura ou comércio. Na prática, guildas fechadas e preconceito generalizado tornavam quase impossível essa transição. O estatuto também exigia que judeus usassem um distintivo de identificação nas roupas e vivessem em áreas determinadas das cidades reais, medidas que reforçavam a segregação em vez de facilitar qualquer integração.

Três anos depois, em novembro de 1278, a coroa inglesa deflagrou uma operação em massa: mais de 1.178 judeus foram presos em todo o reino, acusados de participar da desvalorização da moeda por meio de “clipping” — a prática de aparar as bordas de moedas de prata para reaproveitar o metal. Cerca de 600 dessas pessoas foram trancafiadas na Torre de Londres. Cristãos também foram acusados do mesmo crime, mas o tratamento foi desigual: judeus foram executados a uma taxa cerca de três vezes maior que a de cristãos condenados pela mesma acusação. Em 1279, mais de 300 judeus foram executados — 298 somente em Londres. O episódio esvaziou ainda mais a já combalida posição social e econômica da comunidade, e deixou claro que o Estado já não via razão para protegê-la.

Um rei endividado fecha um acordo político

Quando retornou à Inglaterra em 1289, depois de anos na Gasconha lidando com questões territoriais na França, Eduardo I estava com as finanças em frangalhos. Seu plano anterior — pressionar judeus a abandonar o empréstimo a juros e se tornarem agricultores ou comerciantes — havia fracassado, em boa parte porque a própria sociedade inglesa não abria espaço para essa reconversão profissional. Ao mesmo tempo, extrair mais dinheiro da comunidade judaica havia se tornado cada vez mais difícil: eles já vinham sendo taxados de forma tão pesada e repetida que praticamente não sobrava mais o que arrecadar.

Foi nesse contexto que Eduardo apresentou ao Parlamento uma proposta que soa perturbadoramente transacional: em troca da expulsão de todos os judeus do reino, o Parlamento aprovaria um novo imposto pesado sobre a nobreza e o clero. O acordo foi fechado. Três dias depois de o Parlamento conceder a Eduardo uma taxação recorde — algo em torno de 116 mil libras, a maior arrecadação única de toda a Idade Média inglesa —, saiu o édito de expulsão, em 18 de julho de 1290. Perseguir uma minoria vulnerável havia se tornado, de forma explícita, moeda de troca política.

18 de julho: a data que não foi escolhida ao acaso

Os xerifes de cada condado receberam ordens claras: todo judeu deveria deixar a Inglaterra antes de 1º de novembro, o Dia de Todos os Santos. Eles podiam levar dinheiro vivo e pertences pessoais, mas casas, sinagogas, cemitérios e — de forma particularmente cruel — as dívidas que lhes eram devidas por cristãos ficaram todas retidas pela coroa. Ou seja: além de perder o direito de viver no país, muitos perderam de uma só vez o patrimônio construído ao longo de gerações.

Há um detalhe que historiadores consideram improvável de ser coincidência: no calendário hebraico, 18 de julho de 1290 correspondia a 9 de Av (Tisha B’Av) do ano judaico 5050 — a data mais luctuosa do calendário judaico, que marca a destruição dos dois Templos de Jerusalém e uma longa lista de outras tragédias históricas do povo judeu. Escolher justamente esse dia para formalizar o banimento carrega um simbolismo difícil de considerar acidental. O édito, vale dizer, foi amplamente popular entre a população inglesa da época e encontrou pouquíssima resistência — o que ajuda a explicar por que a expulsão foi executada com rapidez.

A travessia trágica pelo Tâmisa

A saída da Inglaterra não foi apenas administrativa — foi, para muitos, mortal. Em 10 de outubro de 1290, um grupo de judeus pobres de Londres fretou um barco rumo à França, navegando pelo estuário do Tâmisa, perto de Queenborough. Com a maré baixa, o capitão convenceu os passageiros a descerem do barco e caminharem com ele sobre um banco de areia. Enquanto a maré começava a subir, ele voltou sozinho para a embarcação e, de longe, gritou que invocassem Moisés para salvá-los — uma referência cruel à travessia do Mar Vermelho. Em seguida, zarpou, levando consigo a bagagem roubada dos passageiros, que foram engolidos pela água enquanto a maré subia. Consta que Eduardo I, ao saber do episódio, ficou furioso e mandou executar o capitão — um raro momento em que a coroa puniu violência contra os próprios judeus que ela havia acabado de expulsar. Não foi caso isolado: há registros de outro ataque em Portsmouth, cujos autores receberam perdão real em 1294, e de um barco encontrado à deriva perto de Burnham-on-Crouch, em Essex, com seus passageiros judeus roubados e assassinados.

366 anos de ausência e o retorno negociado por um rabino de Amsterdã

Depois de 1290, não havia mais presença legal e organizada de judeus na Inglaterra. Isso só mudaria no meio do século XVII, durante o governo de Oliver Cromwell, já sem monarquia. O protagonista dessa reviravolta foi Menasseh ben Israel, um rabino, escritor, editor e livreiro nascido em Lisboa em 1604 e radicado em Amsterdã, que via na dispersão judaica por todo o mundo — inclusive na Inglaterra — um passo necessário para a chegada do Messias, segundo sua leitura teológica. Cromwell, por sua vez, tinha motivações bem mais terrenas: queria atrair para Londres os ricos comerciantes judeus de Amsterdã e seus valiosos contatos comerciais com a América espanhola.

Em setembro de 1655, Menasseh ben Israel chegou a Londres à frente de uma delegação e apresentou pessoalmente a Cromwell uma petição pedindo a revogação do édito de 1290. Cromwell convocou a Conferência de Whitehall em dezembro daquele mesmo ano, reunindo juristas, teólogos e estadistas para debater a questão. A conferência não chegou a uma decisão formal e explícita de readmissão — mas, na prática, abriu caminho: Cromwell passou a tolerar a presença de judeus, autorizou cultos privados e, pouco depois, a criação de um cemitério e de uma sinagoga. Em 1657, cerca de trinta famílias sefarditas fundaram uma sinagoga na Creechurch Lane, em Londres, marcando o retorno concreto de uma comunidade judaica organizada ao solo inglês — 366 anos após o édito assinado por Eduardo I.

Curiosidades rápidas

  • O édito de 1290 é considerado o primeiro banimento permanente e total de uma população judaica por um Estado europeu — modelo que a França de Filipe IV repetiria 16 anos depois, em 1306.
  • A taxa aprovada pelo Parlamento em troca da expulsão, cerca de 116 mil libras, é apontada por historiadores como a maior arrecadação única da Idade Média inglesa.
  • Estima-se que cerca de 3 mil judeus tenham sido forçados a deixar a Inglaterra em 1290, número baseado em registros fiscais e administrativos da época, que são incompletos.
  • Em 1278, mais de 1.178 judeus foram presos sob acusação de fraude na cunhagem de moedas; cerca de 600 ficaram detidos na Torre de Londres.
  • Só em 1656, sob Oliver Cromwell, judeus voltaram a ter presença tolerada e organizada na Inglaterra — o país ficou 366 anos sem uma comunidade judaica legalmente estabelecida.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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