O Vasa: o navio de guerra sueco que afundou minutos após zarpar
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O Vasa: o navio de guerra sueco que afundou minutos após zarpar

17 de julho, 2026 Gustavo Santos

Em 10 de agosto de 1628, milhares de pessoas se aglomeraram no porto de Estocolmo para ver o navio de guerra mais impressionante já construído na Suécia partir em sua viagem inaugural. O Vasa tinha 69 metros de proa à popa, quase 1.200 toneladas e o casco coberto por centenas de esculturas douradas e pintadas. Menos de 1,3 quilômetro depois, diante de toda aquela multidão — incluindo embaixadores estrangeiros que praticamente espionavam a cena —, o orgulho da frota sueca virou de lado e afundou em minutos, levando consigo pelo menos trinta vidas.

Um navio para impressionar a Europa

O Vasa foi encomendado pelo rei Gustavo II Adolfo como parte de uma expansão militar sueca durante a Guerra Polaco-Sueca (1626–1629), num momento em que a marinha do país vinha de uma sequência de desastres: dez navios perdidos numa tempestade no Golfo de Riga em 1625 e uma derrota naval para os poloneses em 1627. O rei, um entusiasta de artilharia pesada, queria uma embarcação capaz de servir como plataforma de canhões e, ao mesmo tempo, como declaração política do poderio sueco. A construção começou em 1626 no Estaleiro de Estocolmo, sob o comando do construtor naval holandês Henrik Hybertsson — que adoeceu ainda em 1625 e morreu antes de ver o navio terminado, deixando a obra para seu compatriota Henrik Jacobsson concluir.

Dois conveses de canhões e uma decisão arriscada

O Vasa foi um dos primeiros navios do mundo projetado com dois conveses completos de canhões pesados, uma novidade na época. Ao todo, ele deveria carregar 72 canhões, a maioria peças de bronze de 24 libras fundidas especialmente para ele, além de canhões menores e obuseiros — um poder de fogo lateral (267 kg de projéteis por descarga) comparável, décadas mais tarde, ao da fragata norte-americana USS Constitution, que pesava quase 800 toneladas a mais. O problema é que a engenharia naval do século XVII ainda não tinha ferramentas matemáticas para calcular estabilidade — isso só seria desenvolvido mais de um século depois. Colocar tanto peso, e tão alto, num casco relativamente estreito deixou o centro de gravidade do Vasa perigosamente elevado. Para piorar, os construtores usaram réguas calibradas em unidades diferentes — o pé sueco (29,69 cm) e o pé de Amsterdã (28,31 cm) — em cada lado do casco, tornando o navio mais pesado de um bombordo do que do outro.

O teste de estabilidade que todos ignoraram

Semanas antes da partida, o capitão responsável pela construção organizou uma demonstração para o almirante Clas Larsson Fleming: trinta homens correram de um lado para o outro do convés superior para simular o balanço do navio em alto-mar. Fleming mandou parar depois de apenas três passadas, com medo de que o Vasa virasse ali mesmo, ancorado. Testemunhas relataram que ele comentou, resignado, que gostaria que o rei estivesse por perto para ver aquilo. Gustavo Adolfo, porém, estava fazendo campanha na Polônia e enviava cartas cada vez mais impacientes cobrando que o navio zarpasse. Ninguém em Estocolmo teve coragem política de adiar a viagem ou relatar abertamente os problemas ao rei.

Vinte minutos entre a glória e o fundo do mar

No dia 10 de agosto, com vento fraco de sudoeste, o Vasa foi rebocado para fora do porto e desfraldou quatro das dez velas que possuía. As aberturas dos canhões estavam abertas para disparar uma salva de despedida. Uma primeira rajada de vento inclinou o navio para bombordo, mas ele se endireitou quando as escotas foram soltas. Pouco depois, ao passar por uma abertura nos penhascos em Tegelviken, uma rajada mais forte o inclinou de novo — dessa vez o suficiente para submergir as aberturas dos canhões inferiores. A água invadiu o convés, o navio não teve momento de restauração suficiente para se endireitar e afundou a 32 metros de profundidade, a apenas 120 metros da costa. Passageiros se agarraram a destroços e aos mastros, que continuaram acima da superfície; barcos próximos socorreram parte da tripulação, mas ao menos trinta pessoas morreram — muitas presas abaixo do convés.

O inquérito que não puniu ninguém

A notícia do naufrágio levou duas semanas para chegar ao rei na Polônia, que reagiu exigindo que os responsáveis por “imprudência e negligência” fossem punidos com rigor. Um tribunal formado pelo Conselho Real se reuniu em setembro de 1628 no Castelo das Três Coroas para ouvir sobreviventes, oficiais e construtores. Todos juraram ter cumprido seu papel corretamente, e cada lado tentou culpar o outro. Quando perguntaram ao supervisor da construção, Arendt de Groote, por que o navio havia afundado, ele respondeu apenas: “Só Deus sabe”. No fim, ninguém foi condenado — a culpa acabou recaindo, informalmente, sobre o construtor Hybertsson, que já estava morto havia um ano.

Trezentos e trinta e três anos no fundo do porto

Tentativas de resgate começaram já nos dias seguintes ao naufrágio, sem sucesso. Entre 1663 e 1665, mergulhadores usando um sino de mergulho primitivo conseguiram recuperar mais de cinquenta dos valiosos canhões de bronze, e depois disso o Vasa foi praticamente esquecido, virando apenas uma referência em mapas náuticos antigos. Foi só na década de 1950 que o arqueólogo amador Anders Franzén, apostando que as águas salobras e poluídas do Báltico teriam protegido a madeira da destruição por vermes marinhos, passou anos vasculhando o porto de Estocolmo até localizar o casco em 1956, usando uma sonda de perfuração caseira. Seguiram-se dois anos de trabalho perigoso: mergulhadores escavaram seis túneis sob o navio para passar cabos de aço presos a pontões, sempre sob risco de desabamento. Mais de 1.300 mergulhadores participaram da operação sem nenhum acidente grave. O casco, quase intacto, veio finalmente à tona em 24 de abril de 1961, acompanhado por câmeras de TV do mundo todo e milhares de espectadores na costa — trazendo consigo mais de 14 mil peças soltas e os restos de várias vítimas do naufrágio original.

Depois de dezessete anos sendo pulverizado com polietilenoglicol para não rachar ao secar, o casco foi transferido para um museu construído especialmente para ele, inaugurado em 15 de junho de 1990. Hoje o Museu Vasa recebe mais de 1 milhão de visitantes por ano e abriga o navio de guerra do século XVII mais bem preservado do mundo — embora a conservação continue sendo um desafio: reações químicas dentro da madeira encharcada vêm gerando ácido sulfúrico havia décadas, e em 2023 o museu anunciou um novo berço de sustentação de 150 milhões de coroas suecas para manter o Vasa de pé pelas próximas gerações.

Curiosidades rápidas

  • O Vasa afundou depois de percorrer apenas 1,3 km — a viagem inaugural mais curta (e mais cara) da história naval sueca.
  • O leão da proa, esculpido em madeira, media cerca de 3 metros de comprimento e era feito de várias peças encaixadas com ferrolhos.
  • Entre os destroços recuperados em 1961 estavam moedas de ouro e prata, ferramentas de carpinteiro, roupas, sapatos e até seis velas de reserva.
  • Os restos mortais de pelo menos 15 pessoas foram encontrados dentro e ao redor do casco durante a escavação arqueológica.
  • O rei Gustavo II Adolfo visitou o estaleiro em janeiro de 1628 — provavelmente a única vez em que esteve a bordo do navio antes de ele afundar.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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