O Vasa: o navio de guerra sueco que afundou minutos após zarpar
Em 10 de agosto de 1628, milhares de pessoas se aglomeraram no porto de Estocolmo para ver o navio de guerra mais impressionante já construído na Suécia partir em sua viagem inaugural. O Vasa tinha 69 metros de proa à popa, quase 1.200 toneladas e o casco coberto por centenas de esculturas douradas e pintadas. Menos de 1,3 quilômetro depois, diante de toda aquela multidão — incluindo embaixadores estrangeiros que praticamente espionavam a cena —, o orgulho da frota sueca virou de lado e afundou em minutos, levando consigo pelo menos trinta vidas.
Um navio para impressionar a Europa
O Vasa foi encomendado pelo rei Gustavo II Adolfo como parte de uma expansão militar sueca durante a Guerra Polaco-Sueca (1626–1629), num momento em que a marinha do país vinha de uma sequência de desastres: dez navios perdidos numa tempestade no Golfo de Riga em 1625 e uma derrota naval para os poloneses em 1627. O rei, um entusiasta de artilharia pesada, queria uma embarcação capaz de servir como plataforma de canhões e, ao mesmo tempo, como declaração política do poderio sueco. A construção começou em 1626 no Estaleiro de Estocolmo, sob o comando do construtor naval holandês Henrik Hybertsson — que adoeceu ainda em 1625 e morreu antes de ver o navio terminado, deixando a obra para seu compatriota Henrik Jacobsson concluir.
Dois conveses de canhões e uma decisão arriscada
O Vasa foi um dos primeiros navios do mundo projetado com dois conveses completos de canhões pesados, uma novidade na época. Ao todo, ele deveria carregar 72 canhões, a maioria peças de bronze de 24 libras fundidas especialmente para ele, além de canhões menores e obuseiros — um poder de fogo lateral (267 kg de projéteis por descarga) comparável, décadas mais tarde, ao da fragata norte-americana USS Constitution, que pesava quase 800 toneladas a mais. O problema é que a engenharia naval do século XVII ainda não tinha ferramentas matemáticas para calcular estabilidade — isso só seria desenvolvido mais de um século depois. Colocar tanto peso, e tão alto, num casco relativamente estreito deixou o centro de gravidade do Vasa perigosamente elevado. Para piorar, os construtores usaram réguas calibradas em unidades diferentes — o pé sueco (29,69 cm) e o pé de Amsterdã (28,31 cm) — em cada lado do casco, tornando o navio mais pesado de um bombordo do que do outro.
O teste de estabilidade que todos ignoraram
Semanas antes da partida, o capitão responsável pela construção organizou uma demonstração para o almirante Clas Larsson Fleming: trinta homens correram de um lado para o outro do convés superior para simular o balanço do navio em alto-mar. Fleming mandou parar depois de apenas três passadas, com medo de que o Vasa virasse ali mesmo, ancorado. Testemunhas relataram que ele comentou, resignado, que gostaria que o rei estivesse por perto para ver aquilo. Gustavo Adolfo, porém, estava fazendo campanha na Polônia e enviava cartas cada vez mais impacientes cobrando que o navio zarpasse. Ninguém em Estocolmo teve coragem política de adiar a viagem ou relatar abertamente os problemas ao rei.
Vinte minutos entre a glória e o fundo do mar
No dia 10 de agosto, com vento fraco de sudoeste, o Vasa foi rebocado para fora do porto e desfraldou quatro das dez velas que possuía. As aberturas dos canhões estavam abertas para disparar uma salva de despedida. Uma primeira rajada de vento inclinou o navio para bombordo, mas ele se endireitou quando as escotas foram soltas. Pouco depois, ao passar por uma abertura nos penhascos em Tegelviken, uma rajada mais forte o inclinou de novo — dessa vez o suficiente para submergir as aberturas dos canhões inferiores. A água invadiu o convés, o navio não teve momento de restauração suficiente para se endireitar e afundou a 32 metros de profundidade, a apenas 120 metros da costa. Passageiros se agarraram a destroços e aos mastros, que continuaram acima da superfície; barcos próximos socorreram parte da tripulação, mas ao menos trinta pessoas morreram — muitas presas abaixo do convés.
O inquérito que não puniu ninguém
A notícia do naufrágio levou duas semanas para chegar ao rei na Polônia, que reagiu exigindo que os responsáveis por “imprudência e negligência” fossem punidos com rigor. Um tribunal formado pelo Conselho Real se reuniu em setembro de 1628 no Castelo das Três Coroas para ouvir sobreviventes, oficiais e construtores. Todos juraram ter cumprido seu papel corretamente, e cada lado tentou culpar o outro. Quando perguntaram ao supervisor da construção, Arendt de Groote, por que o navio havia afundado, ele respondeu apenas: “Só Deus sabe”. No fim, ninguém foi condenado — a culpa acabou recaindo, informalmente, sobre o construtor Hybertsson, que já estava morto havia um ano.
Trezentos e trinta e três anos no fundo do porto
Tentativas de resgate começaram já nos dias seguintes ao naufrágio, sem sucesso. Entre 1663 e 1665, mergulhadores usando um sino de mergulho primitivo conseguiram recuperar mais de cinquenta dos valiosos canhões de bronze, e depois disso o Vasa foi praticamente esquecido, virando apenas uma referência em mapas náuticos antigos. Foi só na década de 1950 que o arqueólogo amador Anders Franzén, apostando que as águas salobras e poluídas do Báltico teriam protegido a madeira da destruição por vermes marinhos, passou anos vasculhando o porto de Estocolmo até localizar o casco em 1956, usando uma sonda de perfuração caseira. Seguiram-se dois anos de trabalho perigoso: mergulhadores escavaram seis túneis sob o navio para passar cabos de aço presos a pontões, sempre sob risco de desabamento. Mais de 1.300 mergulhadores participaram da operação sem nenhum acidente grave. O casco, quase intacto, veio finalmente à tona em 24 de abril de 1961, acompanhado por câmeras de TV do mundo todo e milhares de espectadores na costa — trazendo consigo mais de 14 mil peças soltas e os restos de várias vítimas do naufrágio original.
Depois de dezessete anos sendo pulverizado com polietilenoglicol para não rachar ao secar, o casco foi transferido para um museu construído especialmente para ele, inaugurado em 15 de junho de 1990. Hoje o Museu Vasa recebe mais de 1 milhão de visitantes por ano e abriga o navio de guerra do século XVII mais bem preservado do mundo — embora a conservação continue sendo um desafio: reações químicas dentro da madeira encharcada vêm gerando ácido sulfúrico havia décadas, e em 2023 o museu anunciou um novo berço de sustentação de 150 milhões de coroas suecas para manter o Vasa de pé pelas próximas gerações.
Curiosidades rápidas
- O Vasa afundou depois de percorrer apenas 1,3 km — a viagem inaugural mais curta (e mais cara) da história naval sueca.
- O leão da proa, esculpido em madeira, media cerca de 3 metros de comprimento e era feito de várias peças encaixadas com ferrolhos.
- Entre os destroços recuperados em 1961 estavam moedas de ouro e prata, ferramentas de carpinteiro, roupas, sapatos e até seis velas de reserva.
- Os restos mortais de pelo menos 15 pessoas foram encontrados dentro e ao redor do casco durante a escavação arqueológica.
- O rei Gustavo II Adolfo visitou o estaleiro em janeiro de 1628 — provavelmente a única vez em que esteve a bordo do navio antes de ele afundar.
Gustavo Santos
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