Lafayette manda atirar no povo: o massacre do Campo de Marte
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Lafayette manda atirar no povo: o massacre do Campo de Marte

17 de julho, 2026 Gustavo Santos

Um ano antes, no mesmo gramado às margens do Sena, ele tinha sido aclamado como herói da liberdade. Em 17 de julho de 1791, o marquês de La Fayette voltou ao Campo de Marte, em Paris — mas dessa vez à frente da Guarda Nacional, ordenando que seus soldados abrissem fogo contra uma multidão desarmada de parisienses. O episódio, hoje conhecido como o Massacre do Campo de Marte, foi o momento em que a Revolução Francesa mostrou pela primeira vez que também sabia matar seus próprios apoiadores.

Um rei que tentou fugir do próprio país

Tudo começou um mês antes. Na noite de 20 para 21 de junho de 1791, o rei Luís XVI, a rainha Maria Antonieta e seus filhos tentaram escapar de Paris disfarçados, rumo à fronteira, na esperança de reunir tropas realistas e talvez até contar com apoio estrangeiro para conter a Revolução. A fuga fracassou: a família real foi reconhecida e presa na pequena cidade de Varennes, no nordeste da França, e trazida de volta à capital sob escolta. Para boa parte do povo francês, a tentativa de fuga foi a prova definitiva de que o rei era, na melhor das hipóteses, um traidor em potencial.

A Assembleia tenta salvar a monarquia

Mesmo assim, a Assembleia Nacional Constituinte — dominada por moderados que ainda acreditavam numa monarquia constitucional — preferiu abafar o caso. Em 15 de julho de 1791, decretou que Luís XVI manteria o trono, sustentando publicamente a versão de que ele havia sido “sequestrado”, e não que fugira por vontade própria. Foi essa decisão que incendiou os ânimos dos setores mais radicais da capital, que já não viam sentido em manter um rei que, na visão deles, havia abandonado o próprio posto.

A petição do Clube dos Cordeliers

O Clube dos Cordeliers, um dos grupos mais radicais da Revolução, reagiu rápido. O escritor Jacques Pierre Brissot redigiu uma petição exigindo a deposição do rei, e no dia 17 de julho uma multidão estimada em 50 mil pessoas se reuniu no Campo de Marte para assiná-la sobre o Altar da Pátria, o mesmo monumento erguido um ano antes para celebrar a unidade nacional na Festa da Federação. Cerca de 6 mil pessoas chegaram a assinar o documento, que declarava que os signatários jamais reconheceriam Luís XVI como rei novamente.

O pretexto da lei marcial

Pela manhã, dois homens foram encontrados escondidos sob as arquibancadas de madeira do Campo de Marte — provavelmente curiosos ou, segundo relatos da época, apenas espiando os tornozelos das mulheres na multidão. Tomados por espiões ou agitadores, os dois foram linchados e enforcados por populares. O prefeito de Paris, Jean Sylvain Bailly, usou o incidente como justificativa para declarar lei marcial na cidade, hasteando a bandeira vermelha que autorizava a Guarda Nacional a usar a força para dispersar aglomerações.

Os tiros no Altar da Pátria

À tarde, La Fayette e a Guarda Nacional marcharam até o Campo de Marte para dispersar a multidão, que já havia crescido ainda mais sob a liderança de figuras como Georges Danton e Camille Desmoulins. Pedras foram atiradas contra os soldados; um homem chegou a disparar contra o próprio La Fayette, sem acertá-lo. Depois de tiros de advertência ignorados pela multidão, a Guarda Nacional abriu fogo diretamente contra as pessoas reunidas ao redor do altar. O número exato de mortos nunca foi determinado com precisão — as estimativas variam de uma dúzia a cerca de 50 pessoas, com dezenas de feridos.

O fim da carreira de um herói

A repressão praticamente destruiu o movimento republicano por alguns meses: cerca de 200 ativistas foram presos, jornais radicais pararam de circular e clubes políticos suspenderam reuniões. Mas o preço político foi alto para os dois principais responsáveis pela ordem de atirar. La Fayette, até então tratado como o grande herói da Revolução Americana e da tomada da Bastilha, nunca recuperou sua popularidade; renunciou ao comando da Guarda Nacional meses depois e, em 1792, acabou fugindo da própria França, sendo capturado pelos austríacos. Já Bailly pagou um preço ainda mais alto: em novembro de 1793, durante o Terror, foi guilhotinado — e as autoridades revolucionárias insistiram em executá-lo bem no local do massacre, o Campo de Marte, antes de mudarem de ideia por considerarem o espaço sagrado demais para servir de patíbulo.

Curiosidades rápidas

  • O mesmo Campo de Marte havia sediado, exatamente um ano antes, a Festa da Federação de 14 de julho de 1790, uma celebração de unidade nacional em que La Fayette discursou como herói popular.
  • As estimativas de mortos no massacre variam enormemente entre os historiadores: de cerca de 12 a mais de 50 vítimas, já que o governo revolucionário jamais divulgou um número oficial.
  • A petição assinada no Campo de Marte pedia formalmente que a Assembleia aceitasse a “abdicação” de Luís XVI, tratando a fuga fracassada como uma renúncia informal ao trono.
  • Bailly, o prefeito que decretou a lei marcial, foi guilhotinado dois anos depois, em 12 de novembro de 1793, com a instigação ao massacre listada entre as acusações contra ele.
  • O episódio provocou uma cisão entre os revolucionários: os moderados que apoiaram a repressão formaram o Clube dos Feuillants, enquanto os radicais permaneceram nos Jacobinos, aprofundando a divisão que levaria ao Terror dois anos depois.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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