O erro de um artilheiro que explodiu um pedaço de Malta
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O erro de um artilheiro que explodiu um pedaço de Malta

18 de julho, 2026 Gustavo Santos

Às 6h15 da manhã de 18 de julho de 1806, um estrondo sacudiu o Grande Porto de Malta com tanta força que foi ouvido nas cidades vizinhas de Senglea e Cospicua e nas aldeias ao redor. Em segundos, um pedaço da cidade fortificada de Birgu — hoje conhecida como Vittoriosa — simplesmente deixou de existir. Um portão histórico, um bastião e um trecho de muralha erguido séculos antes pela Ordem de São João viraram escombros. Entre 150 e 200 civis morreram, além de pelo menos 27 militares britânicos e malteses. A causa não foi um ataque inimigo, nem um acidente natural: foi um artilheiro usando a ferramenta errada, num depósito de pólvora que a própria população já vinha denunciando como perigoso.

Uma cidade construída em cima de um barril de pólvora

No fim do século XVIII e início do XIX, Malta guardava seu principal estoque de pólvora de Birgu dentro de um casamata encravado nas muralhas da cidade, perto do portão conhecido como Porta Marina. O problema é que aquele espaço nunca tinha sido projetado para armazenar explosivos — era uma solução improvisada que, por comodismo, virou prática comum também em outros fortes malteses, como Fort St. Angelo, Fort Ricasoli e as fortificações de Mdina. O paiol de Birgu ficava colado a casas civis, e moradores já haviam reclamado formalmente do risco antes da tragédia. Houve até planos de transferir o depósito para um local mais seguro, mas nada saiu do papel: os armazéns que deveriam abrigar a pólvora estavam sendo usados como quartéis ou hospitais militares.

Pressa de guerra: pólvora para o cerco de Gaeta

Em julho de 1806, a Europa estava em plena Guerra da Terceira Coalizão. Tropas francesas cercavam a fortaleza de Gaeta, na Itália, e os estoques de munição britânicos na região estavam se esgotando. Para reforçar o abastecimento, uma força de trabalho em Malta recebeu a missão de preparar um carregamento de granadas e projéteis de artilharia para embarque rumo à Sicília. O paiol de Birgu estava naquele momento em capacidade máxima: 370 barris com cerca de 18 toneladas de pólvora (40 mil libras), além de 1.600 granadas e projéteis prontos para uso.

O erro do bombardeiro Anderson

A tarefa daquela manhã ficou nas mãos de uma equipe de 13 homens comandada pelo bombardeiro (um posto equivalente a artilheiro graduado) de sobrenome Anderson. O grupo precisava remover os estopins de granadas já carregadas — um procedimento delicado que exigia ferramentas específicas, sem risco de faísca. Anderson, no entanto, optou por usar uma talhadeira de metal para retirar os estopins, indo contra as instruções de segurança. O atrito produziu faíscas dentro de um ambiente lotado de pólvora e munição viva. Às 6h15, o paiol detonou com violência total.

Um estrondo que reescreveu o mapa da cidade

Anderson e toda a equipe de trabalho morreram instantaneamente, assim como três soldados britânicos do 39º Regimento de Infantaria (Dorsetshire) e 23 soldados malteses do 2º Batalhão Provincial. Entre a população civil de Birgu, as estimativas apontam de 150 a 200 mortos e cerca de 100 feridos, muitos atingidos por pedras e destroços que voaram das muralhas. A explosão abriu uma brecha enorme nas fortificações: o portão da Porta Marina, um pequeno baluarte e um trecho de cortina de muralha foram destruídos e nunca reconstruídos. Parte dos armazéns navais da cidade também foi danificada. Ao todo, 493 famílias registraram perdas materiais.

Não era a primeira vez

Malta já tinha um histórico macabro com pólvora. Em 12 de setembro de 1634, uma fábrica de pólvora em Valletta explodiu e matou 22 pessoas, danificando seriamente a Igreja dos Jesuítas e o colégio vizinho. Em 1662, um raio atingiu um depósito de pólvora guardado numa guarita de uma das contraguardas de Valletta — dessa vez sem vítimas. O desastre de 1806, porém, foi de longe o mais mortal, e reacendeu debates antigos sobre como as autoridades militares lidavam com o armazenamento de explosivos perto de bairros residenciais.

Revolta popular e a briga por indenização

A tragédia gerou forte indignação entre os malteses, que atribuíam as mortes à negligência militar britânica. O comissário civil da ilha, Alexander Ball, chegou a relatar que setores já descontentes com o governo aproveitaram o momento para inflamar ainda mais a insatisfação popular, “exagerando as baixas e explorando a fragilidade e credulidade das camadas mais simples da população”. Ball montou uma comissão para distribuir ajuda às vítimas e pressionou o governo por compensação integral — pedido inicialmente recusado. No fim, famílias mais pobres receberam o equivalente a dois terços do valor de seus bens destruídos, enquanto famílias de classes mais altas receberam metade. Só em 1811, cinco anos depois, uma quantia de £18.066 e alguns xelins foi finalmente distribuída entre os que reivindicaram perdas. Um comerciante de vinhos chamado Woodhouse, que perdeu um estoque enorme na explosão, foi indenizado com o uso de armazéns na antiga Prisão de Escravos de Valletta.

A marca que ficou na cidade

A área destruída passou a ser chamada pelos malteses de l-Imġarraf — “a destruída”, em maltês. Uma rua próxima ao local do desastre ainda hoje se chama Triq il-Vittmi tal-Porvlista, ou “Rua das Vítimas da Polverista”. Em 2006, no bicentenário da tragédia, a Sociedade Histórica e Cultural de Vittoriosa instalou uma placa no Cemitério de São Lourenço, onde a maioria das vítimas foi enterrada — um pequeno gesto de memória para um desastre que, apesar de ter matado mais gente que muitos eventos históricos “famosos”, segue praticamente desconhecido fora de Malta.

Curiosidades rápidas

  • O paiol guardava cerca de 18 toneladas de pólvora — o equivalente a 370 barris — no momento da explosão.
  • O prejuízo material foi estimado em £35.000 à época, o equivalente a mais de £3,2 milhões em valores de 2020.
  • A explosão foi ouvida em Senglea, Cospicua e nas aldeias vizinhas ao Grande Porto.
  • O gatilho da tragédia foi o uso indevido de uma talhadeira de metal para remover estopins de granadas.
  • Foi o segundo grande desastre com pólvora na história de Malta, depois da explosão de Valletta em 1634.

Gustavo Santos

Eu sou o Gustavo Santos e adoro mergulhar em episódios que fizeram a gente ser quem é hoje. No meu espaço, trago histórias intrigantes — das batalhas épicas às curiosidades engraçadas do dia a dia das civilizações — tudo com aquele papo acessível que faz você querer ler até o fim. Aqui, não é só leitura: é bate-papo! Gosto de trocar ideias nos comentários, fazer enquetes sobre os próximos temas e indicar livros bacanas pra quem quiser ir além. No História Mania, a gente aprende junto, se diverte e mantém viva a paixão pela história.

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